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Publio Lentulus nunca existiu: é invenção de "Emmanuel" da Nóbrega! - Parte 4

OBS de Profeta Gandalf: Este estudo mostra que o personagem Publio Lentulus, utilizado pelo obsessor de Chico Xavier, Emmanuel, para tentar dizer que "esteve com Jesus", é um personagem fictício, de uma obra fictícia, mas com intenções reais de tentar estragar a doutrina espírita, difundindo muita mentira e travando a evolução espiritual.

Testemunhos Lentulianos

Por José Carlos Ferreira Fernandes - Blog Obras Psicografadas 

 Testemunhos da “Carta de Lêntulo”: 

O mais antigo testemunho existente da “carta de Lêntulo” (mas ainda sem uma atribuição explícita de autoria) consta no prólogo da “Vida de Cristo” (Vita Christi), obra tanto biográfica quanto devocional do monge cartuxo Ludolfo da Saxônia (c.1300-1378), escrita aproximadamente entre 1348 e 1368[6]. 
O cerne da carta mostra-se como uma descrição da aparência física de Cristo, mais especialmente de seu rosto.  A descrição coaduna-se com a imagem “canônica” usual de Jesus, que, conforme já citado, tornou-se a representação iconográfica inconteste do Nazareno, tanto no Oriente quanto no Ocidente, a partir dos meados do séc. IX dC, mais especificamente a partir do fim, em Bizâncio, da Querela das Imagens (843 dC), acerca da licitude (ou não) de se representar, artisticamente, nas igrejas, Cristo, a Virgem e os Santos.  Além de argumentos de ordem teológica, os defensores das imagens (os “iconódulos”, em oposição aos “iconoclastas”, que argumentavam que o culto às imagens violava o Primeiro Mandamento) valiam-se da existência de imagens de Cristo “aquiropoéticas” (acheiropoiêtikoi, i.e., “não feitas por mãos humanas”).  A mais famosa dessas imagens era justamente o “Mandylion” (o “lenço”) de Edessa, que, supostamente, o próprio Jesus havia gravado miraculosamente num lenço e enviado ao rei Abgar, de Edessa.  Essa lenda (e a “relíquia”) deve datar do séc. VI dC, já que, ao narrar a história da correspondência entre Abgar e Jesus, Eusébio de Cesaréia, que escreveu no início do séc. IV dC, não menciona nenhuma imagem e nenhum lenço, ao passo que o historiador bizantino Evágrio o Escolástico, em sua “História Eclesiástica” (livro IV, capítulo 27), menciona (citando erroneamente Procópio de Cesaréia) que a imagem do Salvador, “feita por Deus” (theoteuktos) havia miraculosamente salvado a cidade de Edessa (em 544 dC), por ocasião dum ataque do rei persa Cosroés I[7].  A propósito, Procópio (em quem Evágrio pretensamente se baseia) havia atribuído a derrota dos persas não a uma imagem de Cristo, mas sim à carta de Cristo, já citada desde o séc. o início do séc. IV dC por Eusébio de Cesaréia[8]. 
Nem na época do triunfo final das imagens (e da hegemonia definitiva da versão “canônica”, usual, do retrato de Jesus, como o adulto barbado, de cabelos compridos partidos ao meio, etc.), e nem no curso dos séculos seguintes, surgiu, quer no Oriente, quer no Ocidente, qualquer “documento” justificativo da nova iconografia dominante; o “Mandylion” de Edessa era considerado, quanto a isso, como prova suficiente.  Em 944 dC, o general bizantino João Curcuas, que tinha posto a cidade a cerco, conseguiu obter, como resgate, a famosa relíquia, que foi levada em triunfo para Constantinopla, e solenemente instalada, pelo Imperador Romano I Lecapeno (reinou 919-944 dC), na igreja de Nossa Senhora do Farol, nos recintos do Grande Palácio.  Ao que tudo indica, essa relíquia foi destruída por ocasião do saque de Constantinopla, por ocasião da Quarta Cruzada, em 1204[9]. 
A partir daí, uma tradição de “descrição” do rosto de Jesus lentamente evoluiu, de modo paralelo e, tanto quanto se pode supor, virtualmente independente, no Oriente e no Ocidente.  A descrição que as versões “oriental” e “ocidental” apresentavam eram virtualmente idênticas porque ambas se baeavam no “typos” canônico que havia triunfado desde os meados do séc. IX dC.  No Oriente, desembocaria na descrição pormenorizada da face de Cristo constante na “História Eclesiástica” de Nicéforo Calisto Xantópulo (que floresceu por volta de 1320 dC), o último (cronologicamente falando) dos historiadores eclesiásticos bizantinos; no Ocidente, mais ou menos pela mesma época, desembocaria na “carta de Lêntulo” (inicialmente anônima, e supostamente retirada “dos anais dos Romanos”). 
A seguir, para comparação, os dois primeiros (e mais antigos) estágios do desenvolvimento da “carta de Lêntulo”, quais sejam: a descrição (ainda anônima) constante no “Prólogo” da “Vida de Cristo” de Ludolfo da Saxônia, o monge cartuxo (escrita entre c.1348-c.1368 dC), e a recensão, a partir dos primeiros manuscritos que a mencionam, impressa na “Ortodoxographa” de Grynaeus, na Basiléia, em 1569.  Os leitores podem acompanhar os dois textos, e verificar que a “carta de Lêntulo” origina-se da descrição inicial (anônima) constante na obra de Ludolfo.  Mais uma vez, note-se que, além de sua citação como (pretenso) autor dessa carta, “Lêntulo” não aparece em mais nenhum lugar, e não é citado por mais ninguém, em nenhum contexto.

Vita Iesu Christi, de Ludolfo da Saxônia (c.1300 – 1378 dC), originalmente escrita entre c.1348-c.1368 dC, Prólogo, cap. XIV, Formae Christi Descriptio

Epistula Lentuli, edição do Monumenta Sanctorum Patrum Orthodoxographa, de Johann Jakob Grynaeus, Basiléia, 2 volumes, 1569
Tradução Livre
Ut autem Christi faciem et formam, seu figuram eius totam, et ex his actus, seu mores suos et gestus melius valeas meditari, quaedam de his alibi scripta, hic inserere utile iudicavit.  Legitur enim in libris annalibus apud Romanos existentibus,


Lentulus Hierosolymitanorum Praeses SPQRomano.

[Ludolfo] Como uma descrição da face e do corpo de Cristo, bem como de toda a sua figura [física], é tão útil como auxílio à medita­ção quanto [o conhecimento] de seus gestos, de suas ações e de seus ensinamentos, julga-se con­veniente inserir [aqui] tal descri­ção [física], conforme consta de outras fontes.  Lê-se, de fato, nos livros de Anais dos Romanos, ainda existentes,
[Grynaeus] Lêntulo, presidente dos habitantes de Jerusalém, ao Senado e ao Povo Romano.
quod Iesus Christus,
Apparuit temporibus nostris et adhuc est homo magnae virtutis, nominatus Christus Iesus,

[Ludolfo] que Jesus Cristo,
[Grynaeus] Surgiu nestes nossos tempos, e ainda vive, um homem de grande virtude, chamado Cristo Jesus,
qui dictus fuit a gentibus Propheta veritatis,
qui dicitur a gentibus Propheta veritatis, quem eius discipuli vocant filium Dei, suscitans mortuos et sanans languores.
[Ludolfo] considerado pelas pes­soas [ou, pelos pagãos] como um Profeta da verdade,

[Grynaeus] que é considerado pelas pessoas como um Profeta da verdade, e a quem seus discípulos chamam filho de Deus; ele res­suscita os mortos, e cura [todas] as doenças.
staturae fuit procerae, mediocris et spectabilis, vultum habens venerabilem, quem possent intuentes et diligere et formidare;
Homo quidem staturae procerae, spectabilis, vultum habens venerabilem, quem intuentes possunt et diligere et formidare;
[Ludolfo] era de estatura alta, bem proporcionado e contido [ou: sereno] [em seus modos]; seu aspecto venerável atraía imedia­tamente a afeição e a reverência dos que o viam;

[Grynaeus] É pessoa de estatura alta, e contido [ou: sereno]; seu aspecto venerável atrai de imedi­ato a afeição e a reverência dos que o vêem;
capillos habens ad modum nucis avellanae permaturae, fere usque ad aures, ab auribus cincinnos crispos, aliquantulum cerulaeos, ab humeris ventilantes;
capillos vero circinos et crispos aliquantum caeruliores et fulgentiores, ab humeris volitantes,
[Ludolfo] seus cabelos, da nuca até às orelhas, eram da cor da amêndoa nova [i.e., castanhos claros]; daí até aos om­bros mostravam-se trançados e crespos, de cor [mais] escura, e esvoa­çantes nas extremidades;

[Grynaeus] seus cabelos são tran­çados e crespos, de cor clara e brilhante, e esvoaçantes à altura dos ombros,
discrimen habens in medio capitis, iuxta morem Nazarenorum;
discrimen habens in medio capitis iuxta morem Nazarenorum;
[Ludolfo] tinha-os partido ao meio, à maneira dos Nazarenos;

[Grynaeus] partidos ao meio, à maneira dos Nazarenos;
frontem planam et serenissimam, cum facie sine ruga et sine macula, quam rubor moderatus venustavit:
frontem planam et serenissimam, cum facie sine ruga ac macula aliqua, quam rubor moderatus venustat.
[Ludolfo] sua fronte era serena e de agradável aspecto; sua face, que não exibia nem rugas e nem cicatrizes, mostrava-se ainda mais graciosa por seu moderado rubor;

[Gryneus] sua fronte é agradável e muito serena, e sua face, sem rugas ou cicatrizes de espécie alguma, mostra-se ainda mais graciosa por seu moderado rubor.
nasi prorsus et oris nulla fuit reprehensio; barbam habens copiosam et impubem, capillis concollorem, non longam, sed in mento bifurcatam; aspectum simplicem et maturum, oculis glaucis, variis et claris existentibus.
Nasi et oris nulla prorsus et reprehensio, barbam habens copiosam et rubram, capillorum colore, non longam, sed bifurcatam, oculis variis et claris existentibus.
[Ludolfo] tanto seu nariz quanto suas orelhas mostravam-se per­feitas; tinha a barba espessa e de textura macia, da mesma cor dos cabelos, bifurcada na extremi­dade; seus olhos eram vivazes e brilhantes [ou: claros], na cor cinza-azulada.

[Grynaeus] Tanto seu nariz quanto suas orelhas são perfeitas; sua barba é espessa e rubra [ou: acobreada], da cor dos cabelos, não [muito] longa, mas bifurcada; seus olhos são vivazes e brilhantes [ou: claros].
In increpatione erat terribilis, in admonitione blandus et amabilis; hilaris, servata gravitate.
In increpatione terribilis, in admonitione placidus et amabilis, hilaris servata gravitate;
[Ludolfo] Quando acusava [ou: reprovava], era terrível [no seu tom de discurso]; mas quando proferia seus ensinamentos, era brando e amável, mesmo alegre, sem, contudo, perder a sua digni­dade.

[Grynaeus] Quando acusa [ou: reprova], é terrível [no seu tom de discurso]; mas quando ensina, é brando e amável, mesmo alegre, sem, contudo, perder a sua digni­dade;
Aliquando flevit, sed numquam risit.
qui nunquam visus est ridere, flere autem saepe.
[Ludolfo] Várias vezes chorou, mas nunca riu.

[Grynaeus]: sendo que nunca foi visto rindo, embora o tenha sido várias vezes chorando.
In statura corporis propagatus et rectus; manus et brachia visui delectabilia.
Sic in statura corporis propagatus, manus habens et membra visu delectabilis,
[Ludolfo] Em compleição era esguio e aprumado, com mãos e braços bem proporcionados [lit.: agradáveis à vista].

[Grynaeus] Em compleição apre­senta-se esguio, com suas mãos e seus membros bem proporciona­dos [lit.: agradáveis à vista];
In colloquio gravis, rationalis, rarus, et modestus;


in eloquio gravis, rarus et modestus,
[Ludolfo] Falava concisamente, mas num modo digno, bem arti­culado e modesto;

[Grynaeus] Discursa concisa­mente, mas num modo digno e modesto,
et ideo merito secundum Psalmistam dicitur: speciosus forma prae filiis hominum[10].
speciosus inter filios hominum.


[Ludolfo] sendo, portanto, [ple­namente] merecedor do que d’Ele afirmava o Salmista: “o mais belo entre os filhos dos homens”.

[Grynaeus] sendo o mais belo entre os filhos dos homens.
Haec ubi supra.
Valete.
[Ludolfo] Como demonstrado acima.

[Grynaeus] Saudações.
Os manuscritos que testemunham a “carta de Lêntulo” (seja ou não ela atribuída a “Lêntulo”) são da 2ª metade do séc. XIV para a “carta”, e dos finais do séc. XIV ou inícios do séc. XV em diante para a “carta com o autor”.  Como ficará claro, às vezes a carta era atribuída a outras personagens, p.ex., a Pilatos.  O elenco dos mais representativos manuscritos (não os únicos) segue, em linhas gerais, com algumas simplificações, o cuidadoso estudo de von Dobschütz, ainda fundamental[11]. 
Manuscritos/Edições Principais

Data
Observações
Recensão “A”
Vindobonensis Palatinus 509
XIV
Esta é a recensão do texto tal como apresentada acima, referente ao “Prólogo” da “Vita Christi” de Ludolfo (sem a menção da autoria da carta).  Os diversos manuscritos apresentam, obviamente, algumas variantes no texto, mas que são pequenas.
Vindobonensis Palatinus 4781
XV
Monacensis Latinus 9022
1411
Bruxellensis Latinus 2659
XV (inícios)
Zwettl 11
XIV
Vindobonensis Fideicommissum 7915
XV
“Vita Christi”, Prólogo
Vários, fins XIV a inícios XVI
Recensão “B”
Harleianus 2729
XII (mas a carta escrita no séc. XV)
Esta é a recensão do texto tal como apresentada acima, referente à edição da “Ortodoxographa” de Grynaeus, de 1569, que utilizou, aparentemente, alguns dos mais antigos manuscritos que faziam explicitamente referência à autoria da carta como sendo de um “Lêntulo”; o texto apresenta-se, ainda, bastante próximo do de Ludolfo.  Os diversos manuscritos apresentam, obviamente, algumas variantes no texto, mas que são pequenas.
Lipsensis Bibl. Civ. Latinus XCII
1439
Parisinus Latinus 3159
XV
Parisinus Latinus 18089
1467
Monacensis Latinus 6722
XV
Florentinus Laurentianus XIX-29
XV
Florentinus Palatinus 52
XV
Monacensis Latinus 15227
1528
“Ortodoxographa” de Grynaeus
1569
Recensão “C”
Vindobonensis Palatinus 557(1)
c.1447
Nessa recensão, as variantes do texto são mais marcadas; há, geralmente, uma introdução, que, apesar das variantes, pode ser tomada como segue: “Temporibus Octaviani Caesaris cum ex universis mundi partibus illi qui preerant provinciis scriberent senatoribus qui Rome erant novitates quae occurrebant per mundi climata, quidam nomine Lentulus, habens officium in partibus Iudeae Herodis Regis, scripsit senatoribus sic: Apparuit temporibus istis… etc.”; ou seja, Lêntulo é, aqui, um oficial, que, durante a época de Augusto (30 aC – 14 dC), ainda sob o governo de Herodes o Grande, escreve ao Senado acerca de Jesus (!!!)
Vindobonensis Palatinus 4576
XV
Vindobonensis Palatinus 557(3)
c.1447
Vindobonensis Palatinus 557(2)
c.1447
Vindobonensis Palatinus 5056
XV
Vindobonensis Palatinus 1354
XVI
Vindobonensis Palatinus 960
XV
Parisinus n.a.l. 1151
XV ou XVI
Monacensis 443
1479-1485
Parisinus Latinus 3158
XVI
Vindobonensis Palatinus 4119
c.1548
Vindobonensis Palatinus 618
1439-1440
Iena Elect. Fol. I
c.1560
Monacensis Latinus 249
XV
Monacensis Latinus 850
XV
Parisinus Latinus 3282
XVI
Monacensis Latinus 504
XV
Monacensis Latinus 426
XVI
Monacensis Latinus 6975
c.1466
Monacensis Latinus 13182
XV
Monacensis Latinus 15612
XV
Parisinus Latinus 8619
XV ou XVI
Parisinus Latinus 17730
XV
Clermont-Ferrand 104
XV
Bruxellensis Latinus 1144
XIV ou XV
Sangallensis 583
XIV ou XV
Recensão “D”
Vindobonensis Palatinus 4453
1437-1438
Variante da anterior, mas já “corrigindo” a época da visita de Lêntulo a Jerusalém para o reinado de Tibério; apesar das variantes, a introdução pode ser tomada, tipicamente, como segue: “Quidam Lentulus Romanus dum esset in provincia Judee officialis pro Romanis tempore Tiberii Cesaris et Christum videret eiusque magnalia opera prredicationes infinita miracula et alia stupenda de ipso notaret, scripsit senatui Romano sic: Apparuit temporibus istes… etc.”
Monacensis Latinus 19608
c.1482
Monacensis Latinus 11748
XV
Recensão “E”
Iena Elect. Fol. 76
XV
Com a seguinte introdução: “Epistola reperta in annalibus urbis romanorum quae missa fuit senatui per quendam Lentulum qui tunc temporis erat officiosus imperator Romani Populi in Iudee partibus morabatur qui super conditionibus Christi scripsit, cum moris scriberent novitatis occurrentes:”
Vindobonensis Palatinus 4899
c.1452
Com a seguinte introdução: “Epistola quedam reperta in annalibus Rome quae missam senatui per quendam Lentulum a. R. qui tunc temporis officialis Romani Populi in Iudee partibus morabatur qui super conditionibus Christi mos quidem erat Romanis quod ex universis mundi partibus qui preerant provinciis senatui Romanorum scriberent novitates singulas que occurrebant, quae sic incipit:”
Recensão “F” – com várias “introduções”
Vaticanus Pallatinus 327
XV
“Leretulli praesidis in partibus Judaeae epistola ad senatores Romae de homine magnae virtutis nomine Christus”.  Aqui, o nome do missivista é tomado como “Lerétulo”…
Parisinus Latinus 2962
XV ou XVI
“Ep. Pilati ad Romanos de Xpo”.  Aqui, a autoria da carta é atribuída a Pilatos…
Monacensis Latinus 5350
XV
“L[entuli] ep. ad senatum romanum…”
Monacensis Latinus 5613
c.1477
“Nota formam corporis Xpi.  Repperit Eutropius in annalibus Romanorum epistolam hanc quam Lentulus praefectus Iudee Herodis scripsit senatoribus Romanis tempore Tiberii Cesaris.  Mos sane fuit magistratuum Romanorum in quaecumque província mundi prefecti essent significare Romanis senatoribus de quibuscumque mirandis seu novis in partibus mundi auditis et actis.  Itaque de Xpo sic scribit Lentulus Romanus…”
Monacensis Latinus 24878
c.1473
“Ep L[entuli] ad senatum Romanum de phisonoia ac disposicione virginei corporis Chr. …”
Monacensis Latinus 6007
1500
“Epist. Lentuli ad senatum romanum de Jesu Christo, incipit feliciter…”
Vindobonensis Palatinus 6249
XVII
“Epistola Lucii Lentuli Romani Proconsulis quidem celeberrimi.  In qua Jesus Christus mire describitur, quam dum Jherosolymis agebat ad Senatum PQR accurate scripsit, Eutropio teste…”.  Aqui, o missivista é chamado Lúcio Lêntulo, e faz-se menção a inexistentes “Anais” de Eutrópio (talvez o “Breviário”)…
Não-Classificado
Cassinensis 437-439
VIII (mas carta escrita em 1436)
Evangeliário do séc. VIII (em três códices), da abadia de Monte Cassino, ao qual se adicionou na última página a “carta” em 1436, do modo que segue: “Anno Domini 1436.  Publius Lentulus in Iudea preses salutem dicit Tiberio Cesari Senatui Populoque Romano.  Apparuit temporibus nostris… etc.”. 

Que tudo o que foi dito e comentado até aqui sirva, enfim, para deixar clara a indefensibilidade, em termos históricos, da existência não apenas duma “correspondência”, seja de que tipo for, entre “Lêntulo” e “Roma”, bem como da própria existência da referida personagem.  “Lêntulo” surgiu, entre os finais do séc. XIV ou inícios do XV, como o pretenso “autor” duma “descrição de Cristo” enviada ao Senado, descrição essa cristalizada (a partir da icnongrafia já de há muito canônica de Cristo) desde os meados do séc. XIV.  Não há absolutamente nada de genuinamente histórico nisso.  E, o que é mais de espantar, desde pelo menos o ano de 1944 pesquisadores espíritas tinham já acesso a fontes tais que lhes permitiriam, se de fato assim quisessem, desconsiderar, com grande conforto, a identidade de “Lêntulo” para o (suposto) espírito-guia Emanuel, de Francisco Cândido Xavier.

[1] Aqui, Vigouroux se engana: o governador da Síria não era, nem nunca foi, um procônsul, e nunca ostentou o título de “praeses” (uma denominação genérica, que significa “presidente”, “líder”).  Era um “legado de Augusto com poderes propretorianos” (legatus Augusti pro praetore), i.e., um “procurador” do Imperador (e a ele subordinado, não ao Senado), que, na sua província, tinha uma autoridade igual a dum pro-magistrado que houvesse sido um pretor.  Quanto à Judéia, era uma província procuratoriana; seu governador (sempre um oficial da ordem equestre) tinha inicialmente o título de “prefeito” (praefectus) e, mais tarde, desde o império de Cláudio, de “procurador” (procurator).  O prefeito/procurador da Judéia (um cavaleiro) estava sob a supervisão do legado da Síria (esse, sim, um senador).
[2] Governadores de província (fossem procônsules, legados propretorianos ou procuradores) recebiam salários, assim como os comandantes das legiões, os oficiais do exército (tribunos, centuriões, etc.) e, claro, os soldados, bem como os procuradores equestres e os detentores das grandes prefeituras (o prefeito do Pretório, o prefeito da anona, o prefeito augustal do Egito), e seus auxiliares diretos.  Mas não há como encaixar “Lêntulo” em nenhum desses cargos.  Ele não foi governador da Judéia, obviamente (pois nunca houve um procurador da Judéia de nome “Lêntulo”); não foi um legado numa província senatorial (pois a Judéia era uma província imperial procuratoriana); também não foi um procônsul (porque a Judéia era uma província imperial, e os procônsules eram os governadores de províncias senatoriais); não exerceu nenhum “cargo” no governo da Judéia (já que o mais alto cargo disponível na província era o do próprio procurador/prefeito, e este era um cargo de nível equestre, não senatorial – assim, nem esse cargo, e nenhum outro, que seriam a este subordinado, era ocupável por um senador…); não pode ter recebido uma procuradoria “extraordinária” para agir na província (pois era um senador, e não um cavaleiro, e somente cavaleiros recebiam procuradorias); não pode ter sido um “legado” senatorial (porque, novamente repetindo, a Judéia era uma província imperial, na qual não havia como atuar senadores; e, conforme já comentado, eventuais legações de senadores a províncias imperiais somente ocorriam, e apenas a partir da época dos Flávios, naquelas províncias que governadas por senadores, o que não era o caso da Judéia na época); muito menos um legado senatorial que se reportasse ao Senado (de novo: a Judéia, como província imperial, estava FORA da atuação do Senado; seu governador respondia diretamente ao Imperador – uma “carta ao Senado”, fosse de quem fosse da administração da Judéia, era algo simplesmente impossível).  Enfim, Lêntulo não se qualificou a nenhum outro cargo (pois passou, convém lembrar, ANOS na Judéia, sem fazer nada, arruinando sua carreira…).  De onde lhe viriam, então, os tais “subsídios”?
[3] Certamente se Jesus fosse cidadão romano, e provavelmente se fosse uma figura representativa (p.ex., um membro proeminente da aristocracia sacerdotal), teria havido uma consulta a César acerca da sentença a ser dada – ricos e influentes, então como sempre, tinham mais chances diante dos tribunais.  Se fosse cidadão romano, aliás, Jesus teria o direito indiscutível de apelar a César (como, mais tarde, São Paulo faria).  Mas tratava-se dum simples galileu, que não era nem cidadão romano, nem rico, nem nobre… Para quê consultar o Imperador, se a própria aristocracia sacerdotal de Jerusalém, apaniguada dos romanos, e à qual o “establishment” imperial havia encarregado da administração local do dia-a-dia da província, o havia entregue ao “praefectus Iudaeae” como subversivo?
[4] Dum modo geral, a autenticidade da carta de Lêntulo (ao menos ao longo do séc. XVI, e mesmo além) era maior entre os luteranos; a “História Eclesiástica” escrita pelo prestigioso círculo dos humanistas luteranos de Magdeburgo, conhecida como “Centúrias de Magdeburgo” (editada em 13 volumes, entre 1559 e 1574), considerava-a autêntica; é apresentada como um documento no mínimo teologicamente correto na “Ortodoxographa” de Johann Jakob Grynaeus (Basiléia, 1569); enfim, foi publicado dentre os “Apócrifos” (aqui com o sentido de “escritos não-bíblicos”) que Michael Neander fez acompanhar a sua tradução para o grego do “Pequeno Catecismo” de Lutero.
[5] O “imperium procunsulare maius” do Imperador era extensivo também às províncias senatoriais, mas não (ao menos teoricamente) para nomear-lhes os governadores, e sim para, em caso de emergência, poder agir nelas (p.ex., no caso da supressão de revoltas).
[6] Tudo indica que, ao contrário do que pensam alguns, o “Prólogo”, tal como hoje se encontra (com a descrição de Cristo que seria o cerne da “carta de Lêntulo”), sempre fez parte integrante da “Vida de Cristo”, sendo também da autoria do próprio Ludolfo.  A “Vita Christi” foi um texto de grande circulação no final da Idade Média e no início da época moderna (influenciando, entre outros, o próprio Santo Inácio de Loiola), com muitas dezenas de manuscritos datando do período compreendido entre o último quartel do séc. XIV e o primeiro quartel do séc. XVI.  Foi impressa em Paris e em Colônia em 1472, e em Estrasburgo em 1474, pelos monges cartuxos locais, possivelmente a partir dos próprios autógrafos de Ludolfo, e, em Nuremberg, em 1483, na edição que se tornaria a canônica.  Até ao final do séc. XV, traduções dessa obra apareceram em língua holandesa, em catalão, em francês, em português e, ao menos em parte, em alemão.
[7] Evágrio o Escolástico (não confundir com o outro Evágrio, natural do Ponto), natural de Epifânia do Orontes, na Síria, escreveu uma “História Eclesiástica” em seis ‘livros”, cobrindo o período compreendido entre o início da controvérsia nestoriana, no Concílio de Éfeso (431 dC), até ao ano 593 dC, sob o império de Maurício (reinou 591-602 dC), na própria época em que viveu o autor.
[8] A correspondência entre Jesus e Abgar foi explicitamente considerada apócrifa, no Ocidente, a partir do “Decreto Gelasiano”, de c. 495 dC (conjunto de decisões tomadas por um sínodo convocado em Roma pelo papa São Gelásio I).  Não obstante, permaneceu popular, e geraria inúmeras variantes paralelas – desembocando no “pano de Verônica” e no “Santo Sudário”.
[9] A imagem de Edessa (o “Mandylion”, ou “lenço”) está, indubitavelmente, na origem da lenda do Santo Sudário.  No Ocidente, uma variante da história da impressão miraculosa da face de Cristo num pano fez com que, por ocasião da Crucifixão, uma piedosa mulher, Berenice (ou Verônica, na forma latina de seu nome) tivesse enxugado, com uma toalha, o suor da face de Jesus, que, em recompensa, teria então impresso no pano a Sua imagem; uma outra variante (especificamente ocidental), mas bem mais tardia, ligou então a imagem de Jesus como sendo impressa num lençol que o havia amortalhado.  Deve-se, contudo, deixar claro que a lenda da face de Cristo gravada miraculosamente pelo próprio, i.e., “não feita por mãos humanas” (acheiropoiêtos), remonta ao “ciclo de Abgar”.  A fase primitiva da “lenda de Abgar” fala especificamente duma troca de correspondência entre o rei de Edessa, Abgar V Ucama (reinou c. 13-50 dC), e o próprio Jesus (a “relíquia” era, nessa fase, a carta autógrafa, supostamente escrita pelo próprio Jesus em resposta a Abgar).  É bastante provável que essa história tivesse surgido na época do rei Abgar IX de Edessa (reinou 177-212 dC), quando o reino, para todos os efeitos, converteu-se ao Cristianismo.  A essa fase primitiva da lenda (que Eusébio de Cesaréia fixou, no início do séc. IV dC, em sua “História Eclesiástica”, traduzindo inclusive a correspondência do aramaico para o grego) seguiu-se, na 2ª metade do séc. VI dC (aproximadamente entre 550 e 600 dC), uma reelaboração, que fez dum suposto retrato miraculoso de Cristo (não mais uma carta) a “relíquia”; a partir daí, o ciclo tomou vida própria.  Havia, em Constantinopla, na época da Quarta Cruzada, na igreja da Mãe de Deus, no distrito de Blaquernes, uma relíquia que se dizia ter sido a mortalha de linho de Jesus, mas não há nenhum sinal, nas fontes, de que tal relíquia tivesse impressa qualquer imagem que fosse, e ela era, aparentemente, naquela Constantinopla repleta de “relíquias miraculosas”, uma “maravilha” considerada muito menos importante do que o famoso “Mandylion” depositado na igreja de Nossa Senhora do Farol, nos próprios recintos do Grande Palácio (ao que parece, a mortalha de Blaquernes também desapareceu durante o saque de 1204; o mais provável é que ambas tenham sido destruídas).  A fusão da “imagem miraculosa de Cristo” e da “mortalha” geraria, assim, entre os séculos XIII e XIV, no ambiente das Cruzaas, o “Santo Sudário”, a mortalha com a impressão do corpo do Salvador.
[10] Cf. Salmo 44/45, vers. 3o (Vulgata): Speciosus forma præ filiis hominum, diffusa est gratia in labiis tuis: propterea benedixit te Deus in æternum (“És o mais belo dentre os filhos dos homens; a graça se derrama de teus lábios, pois Deus te abençoou para todo o sempre”).
[11] E. von Dobschütz, “Christusbilder”, in “Texte und Untersuchungen zur Geschichte der altchristlichen Literatur”, vol. 18, 1899, pág. 308ss do segundo apêndice.  Vários outros manuscritos foram catalogados desde então, quer em latim, quer em línguas vernáculas, principalmente o italiano (veja-se, quanto a isso, os trabalhos de Cora Elizabeth Lutz e de Sabrina Corbellini), mas não mudam o essencial – primeiros testemunhos da “carta” no séc. XIV, e do “autor” no séc. XV.

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