Chico Xavier morreu pobre. E daí?

(Autor: Clécio Archimedes)

Os defensores da tese de que Chico Xavier foi o homem mais bondoso do mundo tentam utilizar como prova dessa declaração equivocada, o fato de que ele tenha vivido e morrido pobre. Isso exige uma complexa explicação.

Antes, quero dizer que discordo plenamente desta tese. A bondade de Xavier era normal, nada extraordinária. O que ele fez não transformou nada, não mudou de maneira significativa a sociedade brasileira como um todo e representou apenas uma forma de altruísmo estereotipado e religioso. Se fosse verdade o que falam do médium mineiro, Uberaba seria a cidade com melhor qualidade de vida do mundo e os empresários sediados na cidade viveriam todos com renda nada superior ao do padrão de classe média. Além disso conheço muita gente fora da religião, capaz de altruísmo muito mais significativo do que o atribuído ao famoso médium.

O que questiono neste texto é que, do contrário que quase todos pensam, ser pobretão não é sinal nenhum de altruísmo ou bondade. Todos tem o direito de ter uma vida digna e confortável. Para mim não é sendo pobre que se torna bondoso e sim não sendo rico. O verdadeiro altruísmo está em não querer ser melhor do que os outros, inclusive financeiramente. Mas porque todo mundo acha lindo uma pessoa viver indignamente?

Isso tem a ver com o estereótipo de caridade criado pelas religiões, espelhado no fato de Jesus ter nascido pobre. Um cacoete comum dos fanáticos religiosos é ignorar os contextos. Para a época e para o propósito de Jesus, isso fazia sentido. Até porque o considerado Messias tinha que peregrinar para levar a sua mensagem, hospedando em casas diferentes e ampliando contato e amizades. Foi desta forma que Jesus ganhou fama e consagração. Mas isso fazia sentido naquele contexto.

Xavier foi uma marionete da FEB, fundada por católicos enrustidos. Era interessante para a instituição transformar o médium mineiro em um "Jesus dos espíritas" (sic), para que houvesse a atração de fiéis e a instituição lucrasse com os livros vendidos (que não iam para caridade nenhuma, seus trouxas!).

Vou ser duro, mas verdadeiro: se Xavier viveu e morreu na pobreza não foi por bondade, mas porque foi otário, tolo. Poderia muito bem ter escolhido uma vida digna, não na pobreza, mas na não-riqueza. Deveria muito bem ter ganho dinheiro com os livros (não há nada de errado nisso) para que pudesse ter uma casa confortável e alimentação rica todos os dias. Talvez nem tivesse ficado doente.

A caridade é reprovada quando ela depende do sacrifício exagerado de quem a faz. É como o auto-flagelo, o que na verdade é um grande erro, pois destruímos nosso corpo, instrumento que utilizamos para as oportunidades de crescimento espiritual. É como se estando na escola, rasgássemos nosso uniforme. Xavier rasgou o dele, ao não se deixar cuidar da saúde.

Ninguém deve se tornar pobre para ser altruísta. Altruísmo mesmo é não ser rico, entendendo que o acúmulo de bens esbarra em um limite. É tão nocivo o excesso como a falta e neste caso o erro de Xavier é tão ruim que o de gente como Eike Batista. Um peca por ter menos do que devia, outro peca por ter mais.

Parem de endeusar o médium mineiro. Ele não foi um bom exemplo para ninguém. Aprendi com minha mãe que ser bondoso não é ser trouxa. E Xavier, não sendo o homem mais bondosos do mundo, pode ter sido o maior dos trouxas que estiveram por nosso país.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não há resgate coletivo. E isso o cotidiano nos explica com facilidade

Planeta "X", Chupão ou Nibiru: Respondendo a um leitor ramatisista

Madre Teresa de Calcutá e a caridade como mercadoria