Relação entre "bondade" e deturpação espírita revela um sério problema filosófico

(Autor: Professor Caviar)

O "movimento espírita" deturpa, mas "promove a caridade". Os "médiuns espíritas" contrariam o pensamento de Allan Kardec, mas "pelo menos ajudam muitos necessitados". A carteirada moral, o "rouba mas faz" do "espiritismo" brasileiro revela sérios problemas quando se colocam as ideias de bondade e desonestidade doutrinária em confronto, analisando toda a complacência que se faz à deturpação do Espiritismo usando sempre como pretexto a "caridade".

Os "espíritas", que tanto fingem ter rigoroso respeito com os postulados kardecianos originais, tanto falam no "equilíbrio" entre Ciência, Filosofia e Moral, tanto ignoram o problema filosófico que é combinar bondade com desonestidade doutrinária.

Não é difícil reconhecer em Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco os piores deturpadores da Doutrina Espírita. Seus livros apresentam ideias que entram em séria colisão com os conceitos e informações da bibliografia kardeciana. E isso é muito preocupante, porque os dois estão vinculados a um intelectual francês mas estabelecem ideias contrárias a ele. Desonestidade doutrinária, sendo curto e grosso!

Mas aí os "espíritas" armam uma grande falácia. Admitem a deturpação da Doutrina Espírita através de argumentos moles como "é certo que algumas ideias contrariam o pensamento do pedagogo francês". Mas fazem justificações variáveis e contraditórias: uns alegam má compreensão, outros alegam que Kardec está ultrapassado, outros dizem que a "deturpação" é apenas uma "atualização de conceitos". Para piorar, as desculpas são variadas e também se chocam entre si. Tenta-se explicar a contradição com mais contradição ainda.

Nesta falácia, cria-se, primeiro, alguma desculpa para a deturpação do Espiritismo. Como a suposta tradição religiosa do brasileiro, por exemplo. Costura-se, então, a falácia com alegações como "afinidade com os princípios cristãos". Diante disso, monta-se uma pinguela ligando conceitos contraditórios: deturpa-se o Espiritismo, difunde-se "ensinamentos cristãos" e liga-se tudo com a suposta ideia de "bondade", aquela feita mais para comover as massas do que ajudar o próximo.

A "bondade" defendida pelos "espíritas" pode ser desmascarada por uma simples reflexão: se o "espiritismo" propagado a partir de Chico Xavier e Divaldo Franco vai de encontro as ideias de Allan Kardec, que os dois disseram seguir, indicando, portanto, desonestidade doutrinária e traição ideológica, por que essa desonestidade deve ser aceita sob a desculpa da "caridade" e da "bondade"?

Isso abre caminho para um problema muito grave. Desonestidade doutrinária é desonestidade de todo jeito. E desonestidade pressupõe enganar as pessoas, tirar vantagem vendendo gato por lebre. Chico e Divaldo vendem gato por lebre, publicando igrejismo barato como se fosse Espiritismo. E isso é feito com gosto, senão não teria se resultado em centenas de livros que levam os nomes dos dois "médiuns", puxando uma extensa bibliografia que segue o mesmo (des)caminho.

Não há como alegar que foi um "erro de compreensão", porque Chico, Divaldo e companhia lançaram livros mistificadores, que venderam muito, repercutiram mais ainda, fizeram sucesso, alguns adaptados para cinema, teatro, radionovela e televisão, e atingiram um grande público de leitores ou espectadores. Como, depois de tudo isso, alegar que Chico e Divaldo cometeram o "errinho" de "não terem podido compreender melhor a obra original de Kardec"?

Quando se faz uma coisa de propósito, com gosto, e isso ganha resultados amplos, durante longo tempo, não há como pressupor um errinho de nada. Chico e Divaldo já estão reprovados severamente pela obra literária e oratória que fizeram, não havendo qualquer chance de se recuperar as bases doutrinárias aproveitando os dois "médiuns". Nem na condição de enfeites.

Além disso, a "bondade" atribuída a eles - nesta postagem não vamos citar os resultados medíocres associados à suposta filantropia associada aos "médiuns", pois isso foi e será descrito em outras oportunidades - é sempre usada como um suposto atenuante às práticas deturpadoras, criando o "rouba mas faz" do "espiritismo" brasileiro: "deturpa mas é bondoso", "distorce as ideias mas pratica caridade".

A carteirada moral do prestígio religioso está em jogo diante disso, e o que se percebe é algo típico da hipocrisia que toma conta do país: aceitar que um movimento religioso use o conceito de "bondade" como aliado de práticas desonestas, como a deturpação de ideias e a "mediunidade" de faz-de-conta, que pouco reflete das naturezas individuais dos autores mortos alegados, apresentando contradições sérias.

É como se pudéssemos também legitimar a oferta de cestas básicas em campanhas político-eleitorais, ou aceitar os trotes telefônicos de presidiários perigosos e de estelionatários soltos nas ruas que falam coisas lindas e são feitas com o mais engenhoso apelo à emoção, não raro esbanjando simpatia e aparente intimidade.

Estes dois atos são criminosos, e não é o aparente tom de benevolência, simpatia e amizade que apresentam a demagógica "filantropia eleitoral" e os estelionatos telefônicos que permitirão qualquer atribuição de "bondade" e "caridade". Apesar de toda aparente generosidade e simpatia, são atitudes perniciosas, desonestas e que agem em prejuízo de alguém.

Mas aí alguém diz que o "espiritismo" a ninguém prejudica. Até que ponto isso não prejudica? A desonestidade doutrinária impede a compreensão do legado de Kardec. A "mediunidade" de faz-de-conta impede que tenhamos contato com os falecidos, e temos que engolir propaganda religiosa que oficialmente se atribui até para espíritos ateus. E tudo isso com mensagens que não lembram os entes queridos que se foram e caligrafias que nem guardam qualquer semelhança.

O próprio fato de permitir que a bondade seja aliada da desonestidade é algo pernicioso. E bem mais traiçoeiro. Porque isso faz com que o pretexto do "amor" justifique que se minta, que se falseie, que se difundam ideias estranhas ao legado kardeciano, que se enganem famílias mandando mensagens de mershandising religioso travestidas de psicografias, se leiloem quadros falsificados tidos como "mediúnicos" a preço caro sob a desculpa do "pão dos pobres" etc.

É tanta desonestidade que as pessoas aceitam, sem reservas, apegadas ao prestígio espetacularizado dos ídolos religiosos. E se a bondade foi rebaixada, não só a um subproduto da religião, mas também a uma aliada da desonestidade do "espiritismo" brasileiro, então o sentido real de bondade, amor e caridade se perde por completo. Pois aí se torna uma atitude farsante, uma crueldade que faz a bondade virar escrava da mentira e da mistificação.

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