O neo-medievalismo de Chico Xavier

(Autor: Professor Caviar)

É preciso muita atenção e cautela diante de certas coisas. No Brasil há o vício dos aparentes adeptos do Espiritismo, autênticos ou não, de dar alguma consideração ao deturpador Francisco Cândido Xavier, a ponto de haver quem achasse possível recuperar as bases doutrinárias originais mantendo o "médium" no pedestal, nem que seja por puro enfeite.

Deturpador, arrivista e pastichador de livros, Chico Xavier não era para ter um décimo da idolatria que recebe, que garante, agora postumamente, a maior blindagem que alguém que cometeu fraudes ou outras irregularidades pode receber. Ele usurpou o nome de Humberto de Campos, brincando e se autopromovendo com seu prestígio, e ainda arrancou o apoio dos familiares do autor maranhense. Como é fácil ser impune usando a religião e o aparato de bondade!

A obra de Chico Xavier é cheia de contradições graves. Em muitos casos, é facílimo identificar trechos que entram em sério conflito com os ensinamentos de Allan Kardec. Isso é da mais terrível, preocupante e aberrante gravidade, já que levamos em conta que, na teoria, Chico Xavier é tido oficialmente como "fiel seguidor" do pedagogo lionês, apenas "adaptando-o" em prol dos "ensinamentos cristãos".

Levando em conta dois livros que Chico Xavier lançou sob o nome de Humberto de Campos, Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de 1938, e Estante da Vida, de 1969, nota-se um discurso, que reúne hipocrisia e tendenciosismo conservador, no qual a simples atividade de pensar é objeto de uma postura contraditória. A literatura chiquista diz contrariar a Idade Média, classificando-a como uma fase sombria da humanidade, mas adota o mesmo preconceito medieval quando se refere à ampliação do pensamento questionador e da atividade científica e intelectual.

No livro "patriótico", escrito por Chico Xavier e pelo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, mas atribuído à "autoria espiritual" do autor maranhense, nota-se em pelo menos dois trechos uma suposta aversão à Idade Média, e um suposto alívio pelo fato de ser uma etapa superada da humanidade:

"O inundo político e social do Ocidente encontra­se exausto. Desde as pregações de Pedro, o Eremita, até a morte do Rei Luís IX, diante de Túnis, acontecimento que colocara um dos derradeiros marcos nas guerras das Cruzadas, as sombras da idade medieval confundiram as lições do Evangelho, ensangüentando todas as bandeiras do mundo cristão".

(Capítulo "Coração do Mundo")

"Ismael sente que luzes compassivas e misericordiosas lhe visitam o coração e parte com os seus companheiros, em busca dos planos da erraticidade mais próximos da Terra. Aí se encontram antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes e revoltados, perdidos nos caminhos cheios da treva das suas consciências polutas. O emissário do Senhor  desdobra nessas grutas do sofrimento a sua bandeira de luz, como uma estrela d'alva, assinalando o fim de profunda noite". 

(Capítulo "Os Negros do Brasil)

Num outro trecho, o "anjo Ismael", que na Bíblia teria sido um personagem lendário e provavelmente fictício, é promovido pela FEB como o "mentor espiritual do Brasil", faz uma longa palestra citando "positivamente" a ciência e a filosofia como atividades de desenvolvimento de uma "nova civilização":

"— Irmãos — expôs ele —, o século atual, como sabeis, vai ser assinalado pelo advento do Consolador à face da Terra. Nestes cem anos se efetuarão os grandes movimentos preparatórios dos outros cem anos que hão de vir. As rajadas de morticínio e de dor avassalarão a alma da humanidade, no século próximo, dentro  dos imperativos das transições necessárias, que serão o sinal do fim da civilização precária do Ocidente. Faz-­se mister amparemos o coração atormentado dos homens nessas grandes amarguras, preparando-­lhes o caminho da purificação espiritual, através das sendas penosas. É preciso, pois, preparemos o terreno para a sua estabilidade moral nesses instantes decisivos dos seus destinos. Numerosas fileiras de missionários encontram-­se disseminadas entre as nações da Terra, com o fim de levantar a palavra da Boa ­Nova do Senhor, esclarecendo os postulados científicos que surgirão neste século, nos círculos da cultura terrestre. Uma verdadeira renascença das filosofias e das ciências se verificará no transcurso destes anos, a fim de que o século XX seja devidamente esclarecido, como elemento de ligação entre a civilização em vias de desaparecer e a civilização do futuro, que assentará na fraternidade e na justiça, porque a morte do mundo, prevista na Lei e nos Profetas, não se verificará por enquanto, com referência à constituição física do globo, mas quanto às suas expressões morais, sociais e políticas. A civilização armada terá de perecer, para que os homens se amem como irmãos. Concentraremos, agora, os nossos esforços na terra do Evangelho, para que possamos plantar no coração de seus filhos as sementes benditas que, mais tarde, frutificarão no solo abençoado do Cruzeiro. Se as verdades novas devem surgir primeiramente, segundo os imperativos da lei natural, nos centros culturais do Velho Mundo, é na Pátria do Evangelho que lhes vamos dar vida, aplicando­-as na edificação dos monumentos triunfais do Salvador. Alguns dos nossos auxiliares já se encontram na Terra, esperando o toque de reunir de nossas falanges de trabalhadores devotados, sob a direção compassiva e misericordiosa do Divino Mestre".

É bom lembrar que este trecho revela não só um apelo igrejeiro explícito, com todos os clichês do vocabulário católico e mais próximo da influência de Jean-Baptiste Roustaing e seu "profetismo" em Os Quatro Evangelhos do que de qualquer conceito kardeciano, além de também não refletir o estilo de Humberto de Campos, suposto autor espiritual desse livro.

Indo para o foco deste trabalho, observa-se a alegação de Ismael de que os postulados científicos serão "esclarecidos", preparando a "civilização do futuro". Note-se que há uma suposta intenção de promover o "esclarecimento" e a instituição de "verdades novas" nos "centros culturais" do Velho Mundo, dando a crer que Ismael, em tese, defende a "amplitude do Conhecimento" para promover a solidariedade entre os povos.

No entanto, vamos para o livro Estante da Vida, atribuído ao mesmo Humberto de Campos, mas sob o disfarce jurídico de Irmão X, e verificamos um trecho no qual se criminaliza a Ciência, sendo ela tida como culpada de tamanhos conflitos e dores vividos pela humanidade:

“O mundo atual sofre o risco de ser destruído pela sua própria grandeza no campo da inteligência. O perigo mais insidioso, talvez, é que numerosas conquistas científicas, realizadas com intentos de paz, possam ser empregadas, de um instante para outro, nos objetivos de guerra. As descobertas na biologia molecular são utilizáveis no desenvolvimento de agentes letais e aquelas que se relacionam com as drogas abrem horizontes à ofensiva psicoquímica. Sabe-se que as armas biológicas, em forma de “spray”, são de fácil confecção, com possibilidades de espalhar a peste sobre homens e animais. A chamada “febre de coelhos”, conduzida por uma tonelada de “spray”, através de nuvens, dirigidas pelo vento, pode anular a resistência de milhões de pessoas. Um homem só, carregando pequena maleta de “vírus”, é capaz de contaminar as reservas de água endereçada à manutenção de grande cidade, conturbando-lhe a vida. Está demonstrando ainda que, com recursos microbianos, é possível, em pouco tempo, enlouquecer populações maciças. Uma tonelada de ácido lisérgico distribuída entre os habitantes de qualquer grande metrópole, através de canais alimentares, poderá torná-los esquizofrênicos, durante o tempo que isso venha a interessar ao inimigo. Químicos ilustres já asseveram que o mundo de hoje dispõe de venenos tão poderosos que bastarão alguns quilos deles para estabelecer a perturbação mental de nações inteiras. Fala-se agora que não é impossível operar ruturas na camada de ozônio que circunda a Terra, de modo a queimar lentamente as criaturas domiciliadas nas regiões que ficaram desprotegidas contra os raios solares infravermelhos. Além de tudo, comenta-se a possibilidade da criação de bombas nucleares semoventes, aptas a caminharem com os implementos próprios e que serão detidas tão-só pela explosão de um artefato atômico. Esses engenhos sinistros transportariam a sua própria carga e, se colocadas no rumo de determinadas zonas inimigas, reclamariam a utilização de um foguete interceptador significando autodestruição para qualquer grupo alinhado em defensiva..."

Tido como um suposto relato de um repórter sobre os males dos avanços da Ciência, o texto é usado no diálogo do referido capítulo para justificar a supremacia do "sentimentalismo religioso" - na verdade, a subordinação da bondade e da emotividade humana a dogmas e mitos religiosos - sobre a Ciência.

Isso mostra uma abordagem medieval sobre a aparente valorização da Ciência e do Intelecto pela obra de Chico Xavier. A aparente "reprovação" do "médium" à Idade Média apenas corresponde, aos políticos que fizeram o golpe político-jurídico de maio de 2016 - Michel Temer, Sérgio Moro etc - , à "reprovação" da ditadura militar. Rejeita-se a tirania do passado, mas se defende uma nova tirania.

Por isso, podemos seguramente definir a literatura de Chico Xavier como neo-medieval. E, em seu conteúdo, observamos que, em sua ideologia, a Ciência só é aceita nos seus limites estritos de atividade, como a Medicina pesquisar a cura para o câncer, ou quando é para endossar devaneios religiosos, como, no "espiritismo" brasileiro, aceitar a delirante tese de que Chico Xavier "previu" descobertas científicas dos últimos anos. 

Quando a Ciência passa a desafiar dogmas religiosos e questiona mitos e irregularidades existentes no "movimento espírita" em suas ideias, atividades e produtos, ela é amaldiçoada e criminalizada. O próprio Chico Xavier, tão longamente investigado pelos pastiches literários e por fraudes na mediunidade, sempre se comportou como um censor: "Não questiones", "não julgues", "não contestes". Tudo isso para salvar sua pele de qualquer denúncia ou questionamento.

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