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Os pobres que Chico Xavier ofendeu

(Autor: Professor Caviar)

O "espiritismo" é a doutrina das contradições. Prega o desapego, mas estimula o apego extremo a Chico Xavier. Prega a espiritualidade, mas é materialista até mesmo na sua abordagem dos mundos espirituais. Prega que o sofrimento é libertação, quando ele é flagelo e escravidão. E, mesmo pedindo para que ninguém julgue, faz julgamentos de forma precipitada, infundada e injusta.

Pois é isso que Francisco Cândido Xavier fez. Ele, tido como sinônimo de bondade e humildade, teve inúmeros momentos sombrios que mancham sua imagem tão adocicada e desesperadamente defendida pelos seus seguidores. Um episódio relacionado à tragédia de um circo de Niterói, no início da década de 1960, é ilustrativo desse aspecto macabro da obra do anti-médium mineiro.

Vamos ao episódio. Em Niterói, era anunciado um grande espetáculo em um circo localizado na Praça dos Expedicionários, entre a Av. Feliciano Sodré e o começo da Av. Jansen de Mello, então sob o status de rua. Atualmente um viaduto da Ponte Rio-Niterói passa sobre o local, mas na época ele não existia.

O Gran Circo Norte-Americano, de propriedade de Danilo Stevanovich e seus familiares, com sessenta artistas, vinte empregados e 150 animais, prometia um dos maiores espetáculos circenses na região. Iniciando sua temporada no dia 15, prometia o apogeu de sua temporada para o dia 17, a uma semana antes do Natal.

A TRAGÉDIA DO CIRCO, QUE COMOVEU O MUNDO

Só que as sementes da tragédia vieram através de um dos empregados avulsos. Eles eram designados para os trabalhos de montagem da grande estrutura circense e depois dispensados. Um deles, Adilson Marcelino Alves, o Dequinha, foi demitido pelo dono e ficou profundamente revoltado com isso. No dia 15, Dequinha, que sofria problemas mentais, ainda tentou entrar no circo de graça mas o tratador de elefantes o impediu.

No dia 16, Dequinha, que ainda perambulava ao redor do circo, encontrou o arrumador Maciel Felizardo, que teria sido responsável pela demissão, e entrou em discussão. Maciel o agrediu e Dequinha deixou o local, anunciando que iria se vingar daquilo.

Reunindo-se, no Ponto Cem Réis, no começo do Fonseca, com José dos Santos, o Pardal, e Walter Rosa dos Santos, o Bigode, decidiram bolar um violento atentado, um incêndio que iria destruir completamente o circo. Um dos capangas o advertiu de que a lotação estaria esgotada e a tragédia seria enorme, mas Dequinha ficou irredutível e disse que aquilo era uma vingança contra aqueles que o demitiram.

No final da tarde de domingo, 17 de dezembro de 1961, quando se apresentava um grupo de trapezistas, o fogo se iniciou numa das lonas do circo, e tão rapidamente ele se espalhou, gerando pânico entre as pessoas. Sem tempo para fugirem, muitos frequentadores do circo morreram asfixiados, queimados ou pisoteados. Animais também foram mortos. 

O número oficial foi de 323 vítimas fatais, mas fontes chegaram a garantir que foram 500, número que poderia ter sido bem maior, se contar com aqueles que morreram nos hospitais e em consequência das queimaduras do incêndio. A segunda-feira, dia 18, era bem movimentada mas extremamente triste, de investigações criminais, assistência às vítimas e cobertura jornalística.

A tragédia repercutiu na imprensa do mundo inteiro e as vítimas foram instaladas num pronto-socorro instalado provisoriamente no Estádio Caio Martins. O presidente João Goulart e o primeiro-ministro Tancredo Neves (na época, era regime parlamentarista no Brasil) visitaram os locais da tragédia e do atendimento das vítimas. 

Outros agiram em solidariedade às vítimas. O cirurgião Ivo Pitanguy foi chamado para tratar das vítimas de queimaduras. O empresário José Datrino e o palhaço George Savalla Gomes, o Carequinha, também assistiram as vítimas. José Datrino virou o Profeta Gentileza e Carequinha doou dinheiro para a construção de um novo cemitério, o de São Miguel, em São Gonçalo, para parte das vítimas que vieram daquele município para assistir à festa tragicamente interrompida.

JUÍZO DE VALOR E PRESUNÇÃO DE REENCARNAÇÃO

Cinco anos depois, Chico Xavier - que em 1961 lidava com outra tragédia, a morte do seu sobrinho Amauri Xavier Pena, em circunstâncias misteriosas, e já residia em Uberaba há dois anos - , usando o nome de Irmão X, pseudônimo do suposto espírito de Humberto de Campos, usado para evitar novos processos judiciais (o uso do nome do escritor gerou um processo em 1944), decidiu fazer seu juízo de valor em relação ao caso do circo de Niterói.

No livro Cartas & Crônicas, de 1966, o suposto Irmão X, que seguia o estilo sacerdotal e choroso que nada tinha a ver com o verdadeiro Humberto de Campos, mas correspondia à escrita pesada e grandiloquente trazida por Chico Xavier, fez um julgamento bastante infundado: supôs que todas as vítimas da tragédia teriam vivido na Gália, no ano de 177 da nossa era.

A Gália era um território correspondente à atual França e integrava o Império Romano do Ocidente, cuja capital era Roma. A cultura da Gália foi popularizada mundialmente pelas obras de quadrinhos de Asterix, criação de Albert Uderzo e René Goscinny. Chico Xavier ainda citou a cidade de Lion, berço de Allan Kardec, para sua suposição.

Conta o livro Cartas & Crônicas que haviam não só líderes e aristocratas que mandavam seus soldados recolherem hereges de casas e ruas para juntá-los em um estádio para espetáculos de incêndios - em outras ocasiões, as vítimas eram devoradas por leões famintos - , mas também espectadores que se divertiram diante de tão sádica punição.

Segundo o livro, as pobres vítimas do incêndio de Niterói teriam sido todas reencarnações desse povo sanguinário, e estariam pagando pelo ocorrido, séculos depois. Esta hipótese, que causa controvérsias até mesmo dentro do chamado "movimento espírita", é infundada por vários motivos. O livro não faz parte da "bibliografia básica" recomendada pelos adeptos de Chico Xavier.

A tese é infundada porque é muito duvidoso atribuir punições coletivas a pessoas que, em tese, não teriam relações entre si. Geralmente, as consequências humanas são individuais, não grupais. A tese de "resgate coletivo" é apenas um dos mitos "plantados" pelo "movimento espírita", cuja doutrina não valoriza a individualidade humana.

Além disso, ela contraria o tão alardeado ideal de misericórdia dos "espíritas" e mostra Chico Xavier num surto vingativo, no qual o nome de Humberto de Campos, já levianamente usurpado pelo anti-médium, é envolvido em tamanha acusação, que tão severamente ofende os humildes espectadores, que foram alegremente assistir a um espetáculo, sofreram uma tragédia repentina e ainda têm o dissabor de serem acusados de "pagarem pelo que fizeram em outra vida".

Chico Xavier cometeu uma grande falta de respeito às vítimas do circo. E logo o homem marcado pela sua "humildade infinita", era dado a surtos do tipo "morde-e-assopra", no qual primeiro condena levianamente as pessoas, para depois expressar perdão. Primeiro chama as pessoas de desgraçadas e culpadas, para depois dizer que elas "merecem nossa misericórdia".

CASO SEMELHANTE JÁ RENDEU PROCESSO JUDICIAL

Um caso semelhante ao de Chico Xavier ocorreu em 2009. O médico e suposto médium, Woyne Figner Sacchetin, que vive em São José do Rio Preto, havia escrito o livro O Voo da Esperança, do qual, usando o nome do suposto espírito de Alberto Santos Dumont, o famoso Pai da Aviação, atribuiu a um acidente com um avião da TAM, ocorrido dois anos antes.

No dia 17 de julho de 2007, um avião da TAM, do voo 3054 para Porto Alegre, ao passar por um trecho final de uma pista no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, teve uma das asas se chocando com um depósito de cargas da própria empresa aérea. O choque causou uma explosão, Todas as 187 pessoas da aeronave, passageiros e tripulantes, morreram, assim como doze pessoas que estavam no solo, junto ao local da explosão.

Woyne atribuiu a ocorrência a um "reajuste moral" das vítimas, que Woyne, usando o nome do generoso engenheiro e aviador (que nunca escreveria um livro desses nem se perderia com tais acusações), afirmou "terem sido algozes da Gália". "Não havia espíritos inocentes", arrogou-se a dizer o "médium", em severo tom moralista.

O livro de Woyne chegou a receber processo judicial por danos morais movido pelos familiares de três das vítimas, a mãe de Carmem Caballero e duas das filhas desta. O processo reivindicou também o recolhimento dos exemplares do livro. mas ele está disponível até em downloads gratuitos na Internet. Poderia-se mover processos judiciais diante da ofensa à memória de Alberto Santos Dumont, mas não houve informações de alguma ação neste sentido.

Já Chico Xavier, protegido pelo seu carisma, saiu impune naquele ano de 1966. As vítimas do incêndio no circo eram pobres e de precária escolaridade, não tinham dinheiro nem consciência de que poderiam contratar advogados defensores para processar o anti-médium por danos morais, diante de acusação tão perniciosa quanto maliciosa e sem qualquer fundamento, uma vez que Chico nunca entendeu, de fato, da Doutrina Espírita.

A data difere da do livro de Chico Xavier. Se Cartas & Crônicas atribui à Gália do ano 177 de nossa era, O Voo da Esperança se arrisca a atribuir como data o ano 58 antes de Cristo. Vamos comparar as duas obras, em trechos selecionados, e se verá que o dedo acusador de Chico Xavier e o de Woyne eram semelhantes, e só mesmo o estrelismo de Xavier o tenha feito permanecer na impunidade, numa época, 1966, em que ele se ocupava em apoiar as fraudes da ilusionista Otília Diogo. Vejamos:

"Durante a noite inteira, mais de mil pessoas, ávidas de crueldade, vasculharam residências humildes e, no dia subsequente, ao Sol vivo da tarde, largas filas de mulheres e criancinhas, em gritos e lágrimas, no fim de soberbo espetáculo, encontraram a morte, queimadas nas chamas alteadas ao sopro do vento, ou despedaçadas pelos cavalos em correria.

Quase dezoito séculos passaram sobre o tenebroso acontecimento... Entretanto, a justiça da Lei, através da reencarnação, reaproximou todos os responsáveis, que, em diversas posições de idade física, se reuniram de novo para dolorosa expiação, a 17 de dezembro de 1961, na cidade brasileira de Niterói, em comovedora tragédia num circo".

(CARTAS & CRÔNICAS)

"Do outro lado de uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, em prédio pertencente à mesma empresa de aeronave, estavam alguns dos soldados do batalhão dos Leões, participantes das carnificinas na Gália, trabalhando em um posto de gasolina, ao lado da companhia aérea, quase esmagando um táxi na avenida [...] Ontem vocês queimaram seres humanos, hoje vêem seus corpos queimados"

"É a lei da ação e reação [...] A providência divina, em sua sabedoria infinita, não colocou neste avião espíritos inocentes, mas almas seriamente comprometidas com um passado de erros [...]"

"Esse grupo, de mais de duzentas pessoas, comprometidas com o passado de falta de compaixão para com os semelhantes [...]".

(O VOO DA ESPERANÇA)

Como se vê, esse é um exemplo de como Chico Xavier pode ser também traiçoeiro e perverso. O homem festejado como o "que mais agiu em favor dos humildes" veio com essa acusação tão violenta, infundada e imoral. Aos olhos de Chico Xavier, os pobres coitados envolvidos na tragédia eram tão somente condenados de uma punição. Chico Xavier se nivelou a Dequinha.

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