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Visibilidade é um dos piores problemas do Brasil

(Autor: Professor Caviar)

O Brasil vive um gravíssimo problema. No âmbito das ideias, persiste a mania em querer valorizar as ideias através de quem as expõe e não por meio delas em si.

Isso significa que o princípio de "quem diz" é que dá o sentido de uma ideia, que não tem um sentido autônomo, o que faz com que, em nome do status quo trazido pelo mercado da visibilidade, verdadeiras asneiras são determinadas como "verdades indiscutíveis" ou "decisões acertadas" porque partiu de pessoas que possuem algum privilégio, seja a fama, a fortuna, o poder político, as medalhas ou diplomas.

Isso cria sérios problemas. A cultura brasileira passou por um processo de degradação que poderia ser facilmente contestada por um grupo de jornalistas culturais e artistas empenhados. No entanto, criou-se um lobby de intelectuais e acadêmicos, dotados de muito diploma e prestígio no seu meio, que usaram a falácia de que aceitar a degradação cultural é "romper o preconceito", mesmo diante da visão terrivelmente preconceituosa de que a essência da cultura popular é o "mau gosto", e aí a degradação se firmou de vez.

O mercado da visibilidade traz ao Brasil as piores personalidades, os políticos mais corruptos, os intelectuais mais irresponsáveis, os artistas mais fúteis ou medíocres, e permite a ascensão e a consolidação de canalhas, canastrões e demagogos. Gente que nada faz de relevante, mas precisa recorrer as aparências para tudo.

Isso influi, é claro, na Doutrina Espírita, que Allan Kardec desenvolveu com muito trabalho, a ponto dele se adoecer com isso - e, mesmo assim, ele escreveu A Gênese e seus últimos artigos já sofrendo de aneurisma e até tendo febre, mas com a mínima disposição e lucidez possível para esclarecer as coisas com seu habitual brilhantismo - , que no Brasil se reduziu a uma palhaçada igrejista da pior espécie.

Com tantas irregularidades que o "movimento espírita" fez ao longo de 131 anos, seja pela roustanguista Federação "Espírita" Brasileira, seja por ramificações e dissidências igualmente contaminadas pelos ideais da "casa-máter do espiritismo" (como a FEB se autoproclama), a falta de visibilidade de seus contestadores permitiu que um mito como Francisco Cândido Xavier se agigantasse a ponto de fazê-lo quase o "senhor absoluto do Brasil".

Chico Xavier não chegou a tanto, mas ficou bem próximo. Seus seguidores o consideram um quase Deus, já não mais um semi-deus, mas um vice-Deus. E tudo isso porque, de escândalo em escândalo, causado por sua canastrice mística, paranormal e até intelectual, Chico Xavier pôde derrubar obstáculos porque o jogo de interesses criou condições para isso.

PRIMEIRAS CONFUSÕES DE CHICO XAVIER FORAM COM OBRAS LITERÁRIAS

Os primeiros escândalos causados por Chico Xavier estão por conta de seus livros de pastiches literários. Dois deles causaram revolta nos meios literários: Parnaso de Além-Túmulo, de 1932, e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de 1938.

O primeiro causou polêmica pelos pastiches literários que apresentou de diversos poemas atribuídos a diferentes autorias de nomes falecidos. Humberto de Campos chegou a fazer uma resenha irônica em que, aparentemente, "reconhecia" a semelhança dos poemas "espirituais" com os poemas dos autores alegados deixados em vida, mas se incomodava com a concorrência da "literatura do além" sobre a literatura produzida em vida.

E é aí que entra o segundo livro, não o primeiro que Chico Xavier, por pura revanche - ele não gostou da resenha de Humberto para Parnaso de Além-Túmulo - , produziu usando o nome do autor maranhense, assim que este faleceu, dois anos após a resenha, em 1934.

Para se vingar, Chico Xavier "transformou" Humberto de Campos num padre, mudando todo o estilo de escrita do autor maranhense. que "deixava de falar" sobre aspectos culturais de sua vida de escritor e membro da Academia Brasileira de Letras para se reduzir a um suposto "repórter do além-túmulo" dotado de profundos preconceitos católicos. Detalhe: em vida, Humberto de Campos era ateu.

Isso irritou o meio intelectual, que já estava revoltado com os deslizes estilísticos de Parnaso de Além-Túmulo, livro que ainda causou estranheza porque, sendo uma suposta obra acabada de "espíritos benfeitores", no entanto passou por remendos e reparações em cinco edições e em cerca de duas décadas.

Especialistas sérios em literatura, conhecedores de estilos diversos, apontaram, entre outras coisas, que um suposto "Olavo Bilac espírito" não expressava o rigor métrico e a desenvoltura poética do original, e que Chico Xavier havia confundido Antero de Quental com Augusto dos Anjos na hora de imitar seus estilos.

O escândalo quase deixou-se passar em branco, porque houve uma indagação de que Chico Xavier seria capaz de fazer pastiches de diversos estilos literários. Alguns escritores, como Agrippino Grieco e Monteiro Lobato, se abstiveram de dizer se Chico Xavier fez pastiches ou não. A FEB inventou que eles "confirmaram" a suposta mediunidade do mineiro, mas também não foi assim. Foi abstenção, não havendo "sim" nem "não".

No entanto, nomes como Alceu Amoroso Lima - escritor católico que escrevia sob o pseudônimo de Tristão de Athayde (ou Tristão de Ataíde, numa grafia mais atual) - , revelaram que Chico Xavier tinha a colaboração de uma equipe editorial da FEB e a ajuda de consultores literários a serviço da instituição.

E por que todo esse barulho foi abafado? Seria apenas porque Chico Xavier, então um jovem caipira tomado como "ingênuo", personificava fantasias religiosas e sentimentais relacionadas a estereótipos de "bondade" e "humildade", que se somariam aos estereótipos de "velhice" e "maturidade" ao longo dos anos?

Não necessariamente, embora esses estereótipos tivessem sido tardiamente fortalecidos. Mas, naquela ocasião, o que pesou mesmo foi o abismo que separava o grande público, predominantemente analfabeto ou precariamente instruído e a classe média em boa parte sem profundidade cultural dos meios intelectuais que praticamente não dialogavam muito com a sociedade.

Nesse cenário, os críticos literários não tinham muita projeção. Eles poderiam revelar muitas mentiras e fraudes, mas não tinham condições para isso. Um Osório Borba praticamente só falava para seus colegas, ele que poderia revelar irregularidades diversas sobre Chico Xavier. Attila Paes Barreto, então, quase não tinha visibilidade para também fazer suas revelações.

Por outro lado, Antônio Wantuil de Freitas turbinou o mito de Chico Xavier com mais episódios sensacionalistas. A usurpação do nome da bela jovem Irma de Castro Rocha, a Meimei, sob o consentimento do viúvo da moça, Arnaldo Rocha (falecido há poucos anos), a sequência da apropriação do nome Humberto de Campos, mal disfarçado pelo pseudônimo Irmão X, e as fraudes de materialização, psicofonia e outras aberrações.

O mito de Chico Xavier foi desenvolvido às custas de muito sensacionalismo e confusões, criando uma imagem de pretenso "humilde bondoso" que passava por cima de tantos escândalos, como se fosse a fantasiosa batalha da "bondade" contra as "tentações do questionamento e da crítica".

Até as Organizações Globo, "livres" dos católicos mais-do-que-ortodoxos (leve-se em conta que, ideologicamente, Chico Xavier era um católico tão ortodoxo quanto o reacionário Gustavo Corção), descobrirem o "médium" mineiro, seu mito surfava sobre ondas gigantescas de questionamentos, investigações, inquéritos e escândalos dos mais aberrantes.

MITO "FILANTRÓPICO"

Depois que Malcolm Muggeridge, jornalista da BBC de Londres, fez em 1969 um documentário que definia a Madre Teresa de Calcutá uma "santa viva", a FEB e a Globo, antes mutuamente hostis, fizeram as pazes e iniciaram um casamento feliz que fez Chico Xavier ser visto como "ícone da fraternidade" sob o mesmo script que havia glorificado a Madre Teresa que deixava doentes à própria sorte e autorizava o uso de seringas contaminadas para tratamento dos enfermos.

As Organizações Globo que relançaram o mito de Chico Xavier e enfatizavam seus estereótipos de "fraternidade" e "solidariedade" tinha altíssima visibilidade e detinha o monopólio de audiência no Brasil dos anos 70 e 80, o que favoreceu criar a atual "unanimidade" em torno do anti-médium mineiro.

Os jogos de interesses que haviam no período militar construíram todo um cenário de visibilidade e prestígio que impede que pessoas dotadas de inteligência questionadora e honestidade ideológica se ascendam na opinião pública. Somos um dos países mais injustos e corruptos no que se diz à construção de reputações e privilégios pessoais, e um dos piores países no mundo na formação de formadores de opinião, na maioria pessoas incompetentes, mentirosas e enganadoras.

Não temos uma pessoa no nível do falecido escritor Christopher Hitchens, que teve a coragem de questionar o mito de Madre Teresa de Calcutá e seus irregulares cuidados com os enfermos, deixados subnutridos, sem remédios adequados e sem higiene, apenas morrendo "aos poucos" num alojamento qualquer nota. A Madre Teresa que recebia medalhas de tiranos, que viajava com magnatas corruptos, e que agora tenta ser "salva" por um filme recente que enfatiza suas "cartas".

Hitchens poderia ter sido amaldiçoado pelo trabalho que fez, mesmo com provas e estudos sérios sobre os bastidores da "santa viva" (Madre Teresa só morreria em 1997, após as denúncias de Hitchens), mas ele não só foi reconhecido pela opinião pública mais séria como acadêmicos canadenses confirmaram as denúncias apresentadas.

E aqui, o que ocorre? Ocorre é o outro lado, de acadêmicos criando núcleos de fachada que, como havia lembrado o blogue E-Farsas, eram "centros espíritas" disfarçados de instituições científicas, que apenas tentam criar uma roupagem científica para apoiar Chico Xavier.

FALSOS PIONEIRISMOS CIENTÍFICOS

E aí vemos Alexander Moreira-Almeida, por exemplo, um acadêmico da Universidade Federal de Juiz de Fora, que parece o irmão do Ali Kamel, aquele jornalista ultraconservador da Rede Globo que, só por não gostar das críticas que recebe, sai por aí processando jornalistas a pretexto de ter sofrido "danos morais".

Moreira-Almeida tem uma visibilidade tremenda, é um acadêmico dotado de muito poder e pose. Um sujeito que não consegue trazer provas convincentes sobre o tal "pioneirismo científico" do fictício André Luiz, por simplesmente não pesquisar obras dos anos 1940 sobre a glândula pineal - que ele se limitou a dizer que eram "raras e conflituosas" - , entre as quais livros de Wolfgang Bargmann, especialista alemão da área, e mesmo assim é considerado um "renomado pesquisador".

A visibilidade também permitiu que outro "espírita", o radialista Gerson Simões Monteiro, presidente da Rádio Rio de Janeiro, colunista do jornal Extra (das Organizações Globo) e poderoso dirigente do "movimento espírita" fluminense, inventasse que Chico Xavier "descobriu" vida em Marte, através de livrinhos de 1935 e 1939.

Foi a ampla visibilidade e prestígio de Gerson, ou melhor, a "lei de Gerson espírita" que permitiu esse asneirol. Chico Xavier foi tido como "descobridor" da vida em Marte, quando todos os aspectos dessa "descoberta", como presença de água, construção de canais artificiais e civilizações adiantadas, já eram fartamente discutidas antes de Chico Xavier nascer, em pleno século XIX!

Só o astrônomo estadunidense Percival Lowell havia escrito três livros, entre 1895 e 1908 - leva-se em conta que Chico Xavier nasceu em 1910 - , com os mesmos elementos que só a imaginação fértil de Gerson Monteiro acreditava ter vindo da "mente pioneira" de Chico Xavier e seus amiguinhos "do além". 

Tudo o que se julgava "pioneiro" em Chico Xavier estava em livros de Percival Lowell publicados quando o mineiro nem havia nascido. Mas quem é que tem visibilidade suficiente para desmentir os delírios de Gerson Monteiro e sua "lei de Gerson espírita"? Se a mentira está em quem tem mais visibilidade, então a ideia trazida pelo nazista Josef Göebbels, de que uma mentira contada milhares de vezes se torna "verdade", encontra terreno fértil no Brasil.

A "Lei de Gerson", atribuída "folcloricamente" a um jogador com esse nome, consistia em levar vantagem em tudo, através do "jeitinho brasileiro", essa praga que faz com que a visibilidade e o prestígio estejam quase sempre nas mãos de incompetentes. E é por isso que o Brasil se tornou escravo dos deformadores de opinião. Lamentavelmente.

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