Paixões terrenas e materialistas motivam adoração a Chico Xavier

(Autor: Professor Caviar)

O que leva os brasileiros a sentirem uma obsessiva adoração por Francisco Cândido Xavier? Por que a idolatria a Chico Xavier se torna uma mania para a qual críticas são desencorajadas? Por que o maior deturpador da Doutrina Espírita é poupado de qualquer crítica, qualquer escândalo?

Oficialmente, as pessoas explicam essa idolatria pela imagem "espiritualizada" que o "mineiro humilde e bondoso" expressou em sua vida. Só que sabemos que isso se torna enganoso, porque Chico Xavier, na verdade, havia sido um charlatão que fez pastiches literários, inseriu plágios em seus livros, usurpou os nomes dos mortos, famosos ou não, e, sobretudo, fez tudo errado em relação às lições de Allan Kardec.

E, por que, com tantos e tão graves e aberrantes erros, Chico Xavier foi poupado e inocentado? Por que mesmo ateus e kardecianos autênticos têm medo de fazer alguma crítica enérgica ao "médium" brasileiro? Por que questionamentos, contestações ou mesmo processos judiciais nunca foram levados adiante e mesmo delitos feitos de propósito por Chico Xavier, como a apropriação indébita do nome de Humberto de Campos e sua participação na fraude da ilusionista Otília Diogo, nunca resultaram em qualquer punição?

As pessoas, como que em transe hipnótico, ficam repetindo o mantra de que Chico Xavier era "bondoso" e "ajudou muita gente". Não conseguem explicar isso, mas reagem, às vezes com choradeira, em outras com inimaginável fúria, contra aqueles que contestam Chico Xavier, que virou a personificação do "coitadinho", do "bom velhinho" que achava que seria vitorioso na derrota e que reagiu com silêncio às críticas e escândalos acreditando que a omissão iria lhe trazer justiça.

O que faz os brasileiros pensarem assim sobre Chico Xavier? Alguma inclinação para a verdadeira caridade e solidariedade? Não! São as paixões terrenas e materialistas que, por incríveis que possam parecer, motivam a idolatria a Chico Xavier, e não um suposto espiritualismo que seus seguidores tanto se gabam em dizer que têm.

Isso é ofensivo? Não, definitivamente. Afinal, são justamente as paixões materiais, que evocam um estereótipo de "bom velhinho", que motivam essa idolatria extrema, assim como as impressões terrenas de um "velhinho frágil", ou, antes, um "jovem caipira inocente", associados a gestos e aparências que, sob o âmbito da matéria, sugerem elementos de "humildade" e "fragilidade".

São paixões materiais, que evocam valores moralistas e ideias contraditórias. A ideia do "bom velhinho" é material, pelo aspecto físico de Chico Xavier. Os valores moralistas, pela ideia de não fazer críticas, não questionar e nem reclamar, já que o anti-médium era ideologicamente conservador e preferia que orássemos pelos tiranos e corruptos do que irmos para a rua protestar contra suas arbitrariedades.

A contradição em Chico Xavier, por sua vez, se expressa pela montanha-russa discursiva que contrapõe elementos de fraqueza e força, ignorância e sabedoria, silêncio e voz, pobreza e riqueza, um jogo de contrastes discursivos que seduz muitas pessoas, sobretudo no contexto brasileiro em que muitas pessoas adoram se contradizer, dizendo uma coisa e fazendo outra.

Aliás, é irônico que seja o mesmo Brasil em que um ex-presidente como Luís Inácio Lula da Silva seja amaldiçoado até por suas virtudes. Se Lula cumprimenta simpático certas pessoas, elas reagem com fúria e maledicência. Se Chico Xavier participa feliz de uma fraude de materialização e assina embaixo, as pessoas o inocentam dizendo que ele agiu "com boa-fé".

Por que isso ocorre? Paixões terrenas, materialistas! É a imagem material do "velhinho frágil", contra a imagem do "velho roliço e durão", que corrompe as impressões das pessoas, em ambos os casos deslumbradas com as aparências.

Um Lula que lembra o Brutus dos desenhos animados do Popeye do começo dos anos 1960, exibidos na televisão até hoje, é hostilizado com a mesma cegueira com que Chico Xavier, "frágil e indefeso", é adorado e poupado de críticas até em relação aos erros claramente feitos por ele. Até a defesa da ditadura militar, dada num programa de TV de grande audiência, os seguidores de Chico Xavier deixam passar, sem observar que ele defendeu os militares quando até parte da direita passava a se opor ao regime (como Alceu Amoroso Lima e Carlos Lacerda).

Paixão terrena não é só a adoração de festas e rituais pagãos, ou a tentação do sexo ou da gula. O pior da cupidez e do sensualismo não está apenas em bacanais tomados de álcool, drogas e promiscuidade, mas também na cegueira religiosa e ritualística, que também mostra seus aspectos fúteis de exotismo e morbidez.

É o caso das supostas comunicações com os mortos, duplo ritual de morbidez em que há desde a prática fraudulenta de psicografias - mensagens atribuídas aos mortos que apresentam sempre o estilo do "médium" de ocasião - até mesmo a evocação exótica dos mortos prematuros, a ostensividade que isso dá e o sensacionalismo que isso representa. 

A forma com que as famílias dos entes falecidos são privadas do sossego de sua privacidade e o modo com que Chico Xavier estabelece sua fama às custas do sofrimento dessas famílias também revela um sensualismo que muitos dos jovens falecidos, belos moços e moças ceifados prematuramente nos infortúnios trágicos da vida, acabam expressando com a imagem exótica das pessoas de curta vida.

Dos famosos, a exploração indevida da pessoa de Humberto de Campos é um exemplo de como se torna fútil essa apropriação quando ela é protegida por pretextos "divinos" e "caridosos". Entre os anônimos que se tornam "famosos do além", a forma fútil com que se usou o nome da jovem falecida Irma de Castro Rocha é algo de profundo desrespeito, assim como, dos famosos menos conhecidos, se observou na poetisa Auta de Souza.

São aberrantes irregularidades que deveriam fazer de Chico Xavier uma figura destinada ao esquecimento e ao desprezo público. Ele poderia ter se encerrado no ostracismo, como um esquisito católico parnormal se ele tivesse sido condenado pelos terríveis pastiches literários que fez, pela farsa do caso Humberto de Campos, pelos plágios literários grotescos etc. Quando muito, ele só voltaria como um verbete pitoresco do Guia dos Curiosos.

É irônico que os seguidores e simpatizantes de Chico Xavier acreditem que ele "nunca se irritou" e "nem cometeu fraudes", quando, por acidente, uma seguidora que publicou um livro sobre suas cartas, Suely Caldas Schubert, deixou vazar a "inconcebível" tese de que Parnaso de Além-Túmulo era feito com ajuda de editores da FEB, já que Chico Xavier escreveu agradecendo lideranças desta federação pelo trabalho de revisão editorial que o "médium" não podia fazer do livro. E, no caso de Jair Presente, em 1974, Chico se irritou quando amigos do falecido jovem duvidavam da veracidade das cartas atribuídas a ele, chamando o ceticismo dos que conviveram com Jair de "bobagem da grossa".

Mas os estereótipos de "bondade" e "humildade" em torno de Chico Xavier fizeram crescer demais seu mito, se tornando tão gigante que tornou-se difícil combater. Apegadas às paixões materiais das impressões terrenas à pessoa de Chico Xavier, seus seguidores e simpatizantes se tornam prisioneiros e escravos da imagem "bondosa" do anti-médium, e, hipnotizados pela sedutora imagem de "velhinho frágil e simpático", não aceitam que ele fosse criticado ou contestado com coisa alguma.

Dessa forma, as pessoas acabam ficando presas em valores conservadores, velhos estereótipos morais e religiosos, e aceitam omissões e erros levando em conta o status de alguém. E que o discurso dominante a respeito de "bondade" e "humildade", através da contradição que isso significa, acaba elevando o status quo de ídolos religiosos, representando o poder opressivo que a fé religiosa faz quando usa pretensos paradigmas de "amor e bondade" para intimidar as pessoas e atrofiar seu senso crítico. E isso não traz benefícios, por escravizar as almas diante dos mitos forçados do "amor".

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