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Rede Globo adotou Chico Xavier para concorrer com R. R. Soares

(Autor: Professor Caviar)

O mito de bondade de Francisco Cândido Xavier, que encanta muita gente, foi um fenômeno espontâneo e naturalmente desenvolvido pelo imaginário popular?

Não! Em primeiro momento, o mito de Chico Xavier foi construído pela Federação "Espírita" Brasileira com o intuito de vender livros e aumentar o poder da instituição.

Mas, em segundo momento, Chico Xavier foi trabalhado como um mito religioso para consolidar sua imagem para a posteridade, unindo os interesses comerciais da FEB com interesses estratégicos da grande mídia dominante.

Sabe-se que o mito de Chico Xavier como "filantropo" foi alimentado a partir dos anos 1970, embora esse mito tivesse sido latente nas décadas anteriores. Mas só depois é que ele foi reforçado pelo poder midiático das Organizações Globo, com base em documentário da BBC sobre Madre Teresa de Calcutá.

E por que o mito de Chico Xavier precisou ser reforçado? Pelo ponto de vista da FEB, depois da morte de Antônio Wantuil de Freitas, ex-presidente da federação e mentor terreno de Chico Xavier - foi Wantuil quem inventou toda essa imagem "adorável" que conhecemos - , havia a necessidade de realimentar o mito que aquecia o mercado literário "espírita" de maneira atualizada e revista, sobretudo tentando livrar Chico Xavier da sombra de sua maior influência, o advogado francês Jean-Baptiste Roustaing, cujo livro Os Quatro Evangelhos foi uma das primeiras fontes para a produção literária do anti-médium mineiro.

Já pelo ponto de vista das Organizações Globo, que desfez a antiga hostilidade em relação a Chico Xavier, que era fruto da presença de católicos mais-do-que-ortodoxos na empresa, era uma maneira de enfrentar a cruzada de pastores midiáticos que começaram a crescer no país.

Havia o crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus, em 1977, mas Edir Macedo não parecia tanto ser o maior pastor midiático do país. Seu cunhado, R. R. Soares (Romildo Ribeiro Soares), tinha mais traquejo como animador de auditórios pentecostais, algo que depois foi melhor defendido por Macedo, que virou empresário da mídia, ao adquirir a Record.

O crescimento das seitas chamadas neopentecostais, derivadas da Igreja Nova Vida, do pastor canadense radicado no Brasil, Robert McAllister e fundada em 1960, tornou-se uma pedra no sapato na vocação católica da Rede Globo, que precisava criar um ícone católico mais flexível, sem que deixasse o lado católico propriamente dito (a rede transmite desde 1968 a Santa Missa em Seu Lar).

Dessa forma, os produtores da Globo descobriram o documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), que o jornalista Malcolm Muggeridge fez sobre Madre Teresa de Calcutá, e, aproveitando os recursos discursivos do filme, resolveram criar uma adaptação brasileira. Mas ela não deveria ser com um padre, porque aí seria escancarar demais as coisas.

E aí, o que os executivos da Globo fizeram? Trabalharam um mito considerado "ecumênico", até pela finalidade de fazerem frente aos neopentecostais - a essas alturas, a IURD gerou uma dissidência chamada Igreja Internacional da Graça de Deus, de R. R. Soares, que alugava espaços nas programações de televisão e rádio - , sem que se limite a uma roupagem meramente católica.

Daí que o escolhido foi Chico Xavier, que representava estereótipos que o imaginário social conservador associava à velhice, bondade e humildade. E aí os produtores tomaram como base o documentário de Muggeridge de 1969 para trabalhar o mito de Chico Xavier.

Tudo que Muggeridge fez de Madre Teresa de Calcutá foi aproveitado: Chico Xavier chegando a uma casa religiosa acolhido pela multidão. Chico Xavier abraçando bebê no colo. Chico Xavier conversando com velhinhos miseráveis. Chico Xavier dizendo frases bonitinhas de pretensa sabedoria. Qualquer semelhança com Madre Teresa não é mera coincidência. Tudo isso veio da imaginação fértil do católico conservador que era o inglês Malcolm Muggeridge.

Foi um trabalho engenhoso que conseguiu manipular as mentes fracas e os corações moles das pessoas, que transformaram Chico Xavier numa pretensa unanimidade. O charlatão dos plágios literários e da usurpação dos nomes dos mortos virou o "maior ícone de caridade" no Brasil, mesmo sendo uma pessoa retrógrada que mais parece ter vindo dos cafundós da República Velha. 

E isso mostra o quanto a sociedade está vulnerável a tomar como crenças suas algo que na verdade é construído pelo poder midiático com o objetivo de concorrer com seitas religiosas visando manter privilégios e interesses comerciais dos mais nefastos. A sociedade acredita em Chico Xavier sem saber das armadilhas em que caiu com essa idolatria.

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