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A origem do termo "anti-médium"

(Autor: Professor Caviar)

O que é um "anti-médium"? O termo já começa a ser fartamente divulgado na Internet, embora mesmo nos círculos espíritas autênticos - que rejeitam a deturpação da Doutrina Espírita - o termo é considerado "estranho" e, por isso, incompreensível.

Sabe-se que, na forma dominante do "espiritismo" brasileiro, ou seja, a forma deturpada da doutrina igrejista brasileira, mesmo com todos os aparatos de falsa lealdade a Allan Kardec, a figura do médium teve seu sentido completamente distorcido.

Nos tempos em que Kardec ainda era conhecido como o professor Hippolyte Leon Denizard Rivail, a figura do médium era geralmente uma pessoa discreta, quase anônima, que se limitava a registrar mensagens espirituais de pessoas falecidas.

O médium, conforme relatam os registros da trajetória de Kardec, era uma figura que nem se destacava, senão como um singelo prestador de serviços que, sem que se fizesse alarde à sua figura pessoal nem ao seu trabalho, por mais exótico que possa parecer, era apenas um intermediário da comunicação entre vivos e mortos.

Portanto, médium, palavra de origem latina, corresponde ao sentido de "meio", "intermediário", mas nesse caso "meio" não é "centro", mas uma parte menor que liga outras partes, no caso o falecido e as pessoas que estão vivas na Terra.

Na Teoria da Comunicação, médium, que no caso deu origem à "mídia" - quando um grupo de homens realiza um trabalho de comunicação de mensagens a outro que as recebe, e recorrem a um "meio" para transmiti-las, seja impresso, auditivo ou visual - , equivale a um canal usado entre o emissor e o receptor de determinada mensagem comunicativa.

Portanto, a ideia do médium espírita seria a de ser um mero canal, alguém sem muita importância senão como um mero transmissor de mensagens, sem que se sujeite a ser o centro das atenções nem o detentor das mensagens comunicativas.

"MÉDIUNS-ESTRELAS"

No Brasil, o sentido de médium foi deturpado pela Federação "Espírita" Brasileira. Adotando a linha roustanguista que distanciou o iniciante "movimento espírita" das raízes do pensamento kardeciano, em troca de um misticismo igrejista muito mal disfarçado, a FEB queria trabalhar um suposto médium que construísse seu estrelato unindo sensacionalismo paranormal e histeria religiosa.

Foi aí que veio Francisco Cândido Xavier, um católico paranormal de limitados dons mediúnicos. Apesar dessas limitações, ele foi trabalhado para ser um "super-médium" e, por meio de sua pessoa, o sentido de médium como intermediário foi simplesmente rompido.

Isso se deve porque Chico Xavier mostrava tanto irregularidades no seu trabalho quanto causava sensacionalismo pela relação de suas qualidades pessoais com a exploração exótica de sua personalidade.

Chico causava escândalos por conta de plágios e pastiches literários facilmente identificados pelos críticos literários mais renomados. Só que o Brasil tinha valores religiosos ferrenhos, que ainda apostam na supremacia do sobrenatural e do místico, e Chico, em vez de ser desmascarado de vez, era protegido pelos estereótipos de bondade e humildade que o cercaram desde o início.

Os escândalos, de um lado, e sua imagem glamourosa para os padrões do conservadorismo da devoção religiosa, faziam com que Chico Xavier construísse seu estrelato de forma atrapalhada, cheia de confusões e até de impasses, mas que não o impediram de se transformar num mito quase totalitário no imaginário dos brasileiros.

Com isso, a função de médium foi para o beleléu. E, de carona, ainda veio outro suposto médium, Divaldo Pereira Franco, de qualidades semelhantes embora de um perfil diferente, apoiado na figura verossímil do professor à moda antiga, com discurso rebuscado e uma aparente elegância de posturas.

Apesar dessas diferenças, o marketing religioso foi igual a ambos, Chico Xavier e Divaldo Franco, no sentido de derrubar o valor intermediário do médium espírita. Alçados a um estrelismo descomunal, eles simplesmente deixaram de ser médiuns, pois deixaram de ser intermediários para serem os centros do "espetáculo espírita". 

Daí o termo anti-médium, que sugere a ideia de anti-intermediário. Chico e Divaldo viraram os centros das atenções, e, mesmo quando alguém recorre a eles para a comunicação com um ente querido falecido, o próprio fato de escolhê-los ou então optar por "genéricos", seja um José Medrado, um Carlos Baccelli, um Ariston Teles. O "médium", virando grife, deixa de ser intermediário.

FRAUDES

O que agrava ainda mais são as acusações de fraudes a esses "médiuns-estrelas", como pastiches literários e as "cartas marcadas" denunciadas por Waldo Vieira depois que ele rompeu com Chico Xavier. Indícios de plágios ou uso de "leitura fria" (recurso de manipulação da mente em que o entrevistador faz o entrevistado dar informações complexas) são observados, com provas contundentes contra os "médiuns".

Isso piora completamente as coisas. As irregularidades fazem com que a mediunidade simplesmente deixe de existir e o que se atribui como trabalho dos "médiuns" não passa de algo que estes criam da própria mente e põem crédito de autoria a alguém falecido. Pode ser um famoso como Humberto de Campos ou Raul Seixas, como pode também ser um "anônimo" como Jair Presente.

As mensagens acabam soando parecidas entre si, pouco importando o indivíduo, e os apelos de propaganda religiosa se tornam um recurso para acobertar as fraudes, sob o pretexto de que "mensagens boas" não poderiam ser fraudes porque não soam ofensivas.

Aí temos uma série de ruídos de Comunicação. "Ruído" é, na Teoria da Comunicação, todo elemento que pode interferir no processo comunicativo. No caso das fraudes na mediunidade, o ruído se dá quando o "canal" (o "médium"), se passa pelo "emissor" da mensagem (o falecido), pois é o "intermediário" que rompe os laços com o "emissor" (ou simplesmente nunca estabeleceu laços com este) para ele mesmo "emitir" por conta própria a mensagem tida como "espiritual".

Outro ruído é o destaque que o "médium" ganha com o sensacionalismo. Ele acaba chamando muito a atenção, para o bem e para o mal, e sua fama obtida, não só através da idolatria à sua pessoa, mas também dos efeitos negativos de escândalos e polêmicas, faz com que o "médium" perca sua função intermediária, porque virou o centro das atenções.

Mais um ruído é quando, às custas do marketing religioso do "espiritismo", aliado a um pseudo-cientificismo "filantrópico", os "médiuns" viram dublês de pensadores, tornando-se pseudo-sábios, falsos filósofos, que se aproveitam da histeria religiosa de seus seguidores para impor ideias e frases de efeito que estes consideram "lições de sabedoria".

Isso derruba em si o sentido intermediário dos "médiuns". Eles deixam de ser médiuns, porque deixam de ser intermediários, ao se consagrarem como "centros de atenções" quando tentam se passar por pretensos pensadores, criando uma falsa roupagem intelectual através de frases e livros prontos, supostamente de ideias elevadas ou inteligentes.

Quase ninguém vê Chico Xavier e Divaldo Franco como "intermediários". Quando Chico Xavier atendia as pessoas, o foco era ele, não os falecidos. Os falecidos eram só "um detalhe" e, se observarmos as fraudes que haviam por trás, os mortos nem aparecem. Que intermediação se espera se o emissor não aparece e o canal toma o seu lugar?

Divaldo Franco, então, nem de longe é "intermediário", com seu tom professoral de falso filósofo, de pretenso intelectual da filantropia, com sua verborragia que seria ridícula se viesse das bocas de políticos em campanha ou de acadêmicos alucinados, mas é tida como "maravilhosa" por vir, pura e simplesmente de... Divaldo Franco.

É assim que se consagra o termo "anti-médium". Pois os "médiuns" acabam mesmo se opondo à condição de intermediários. Eles querem ser o centro das atenções, virar dublês de "filósofos", fazendo seus seguidores crerem que eles estão promovendo a caridade e a sabedoria. Mas não estão.

O que eles estão fazendo é criando um jogo de aparências para permitir o estrelato pessoal. Cria-se um arremedo de filosofia, de filantropia, de ciência, de ativismo, com ideias que no fundo se revelam bastante conservadoras e retrógradas, para dissimular a má mediunidade, a recusa tanto em seguir o trabalho mediúnico verdadeiro quanto em assumir uma postura intermediária.

Isso é muito mau. A comunicação espírita é comprometida severamente, com danos que, em muitos casos, se tornam irreparáveis. Por conta do estrelismo dos "médiuns", as pessoas que perderam entes queridos ficam incomunicáveis com os mesmos, porque a farsa "mediúnica" bloqueia os contatos, pela natureza de suas atividades desonestas e tendenciosas.

Daí que os procedimentos e recomendações presentes em O Livro dos Médiuns, uma das obras mais mal compreendidas - para não dizer severamente desprezadas - de Allan Kardec, não encontram respaldo no "movimento espírita" e nem poderiam encontrar, diante da desonestidade doutrinária que transforma a mediunidade em uma mentira. Uma "mentiunidade".

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