Chico Xavier e Madre Teresa: seus mitos e (graves) problemas

Esta semana, Madre Teresa de Calcutá, falecida em 1997, teve o processo de canonização anunciado pelo Vaticano. Na espera de sua santificação na condição de "beatificada", já que o processo não foi levado adiante pela revelação de que não existiu "milagre" no caso Mônica Besra (doente de câncer que não se curou pela "medalha" da freira, mas por ter feito tratamento com remédios indicados por médicos), Madre Teresa ganhou nova oportunidade através de um novo caso de "milagre".

A estória é digna de conversa de pescador. Um engenheiro de 35 anos de idade em 2008 (portanto, hoje tem 42), morador de Santos, estava em lua-de-mel com sua esposa quando se sentiu mal. Internado num hospital local, foi diagnosticado com hidrocefalia (acúmulo de líquido no cérebro) e seu estado foi considerado gravíssimo. Foi levado às pressas para um hospital de Santos e uma cirurgia de emergência havia sido marcada para o dia seguinte.

Aí o dia fatídico chega e o homem acorda, lúcido, se levantando sozinho e indo tomar café, como se nada tivesse acontecido. A alegação foi que, enquanto o homem estava internado, sem aparentes esperanças de sobrevivência e dependendo de uma cirurgia de alto risco para se curar, a esposa foi a uma igreja em São Vicente, próxima a Santos, pediu ajuda a um padre, ele lhe deu a medalha da Madre Teresa de Calcutá, pediu para ela rezar pela "missionária" e depois a mulher foi para o hospital pedir para que colocassem a medalha sob o travesseiro do marido.

Uma equipe de médicos tentou estudar o caso e, em unanimidade, disse que a cura foi "cientificamente inexplicável", e atribuíram o feito ao "milagre" causado pelas orações e pela medalha com a imagem de Madre Teresa.

O caso é tido como "verídico". Cerca de 15 testemunhas colaboraram para um documento de 400 páginas que foi enviado para o Vaticano, pedindo a canonização da Madre Teresa. Representantes da Santa Sé acataram o pedido e marcaram a canonização para setembro de 2016. Triunfo do marketing religioso.

Isso lembra muito aqueles mendigos que, desejando obter grana para comprar cachaça, arrumam uma fotocópia vagabunda de algum texto com foto, sobretudo de criança, e vão para as ruas pedir aos transeuntes que lhes deem uma contribuição financeira para ele comprar um remédio ou financiar uma cirurgia caríssima no exterior, especializada em curar doenças graves.

Tudo parece lindo e comovente, não fosse o lado sombrio de Madre Teresa de Calcutá, levado a público a partir do livro A Intocável Madre Teresa de Calcutá (The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice), de 1995, escrito pelo jornalista inglês Christopher Hitchens.

Nele algumas denúncias são divulgadas sobre Madre Teresa de Calcutá: condições desumanas nos alojamentos dos doentes e enfermos, posição reacionária em relação ao aborto, defesa da Teologia do Sofrimento e alianças com magnatas corruptos e com políticos tiranos para arrecadar dinheiro para a "caridade", que era desviado para os cofres do Vaticano.

Quanto aos enfermos e pobres, destaca-se como irregularidades o alojamento em leitos desconfortáveis - primeiro, apenas colchões, depois, camas de péssima qualidade - , péssima alimentação que os mantinha subnutridos e fracos, uso de seringas infectadas sucessivas vezes e a concessão de paracetamol e aspirina como únicos remédios para a dor.

Enquanto ela deixava os pobres e enfermos nesta condição desumana, que acreditava ser o "caminho mais rápido para Deus", Madre Teresa chegava a se solidarizar com ditadores do nível do sanguinário Papa Doc, do Haiti, e com Ronald Reagan, presidente dos EUA que patrocinou o "banho de sangue" que eliminou ativistas sociais de qualquer espécie (até religiosos!) em execuções feitas pelos esquadrões da morte nos países da América Central.

Ela chegou a se aliar a magnatas corruptos para arrancar dinheiro de instituições e governos e criar um patrimônio financeiro que poderia fazer as "casas dos enfermos e moribundos" que ela criou em Calcutá serem muito melhor estruturados. Mas ela não fez e nem se interessava por isso, porque dizia que o sofrimento que os enfermos sofriam era "algo bonito para Deus", só para fazer trocadilho com o título de um documentário de Malcolm Muggeridge, o homem que "inventou" o mito de Madre Teresa.

CHICO E TERESA

Isso lembra muito Chico Xavier. Aliás, o mito do "médium" Francisco Cândido Xavier já era trabalhado pela Federação "Espírita" Brasileira, que transformou o pitoresco católico ortodoxo, mas dotado de esquisita paranormalidade, em "porta-voz dos mortos". Mas o mito sempre teve problemas diante da exploração sensacionalista cheia de muitos escândalos.

Chico Xavier só passou a ser conhecido como "filantropo", "lápis de Deus", "carteiro do além-túmulo" e outras coisas bonitinhas quando a FEB tomou conhecimento do documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God) que Muggeridge fez em 1969 sobre Madre Teresa. Aliás, a FEB e a Globo, por diversas razões.

A FEB queria trabalhar de forma "limpa" o mito de Chico Xavier, sem os escândalos e denúncias que manchassem a imagem do "médium", defendido pela instituição por ser um "rei midas" dos livros ditos "mediúnicos". que enchiam a federação de muito, muito dinheiro, além de atrair muitas pessoas para a "doutrina".

A Rede Globo, por sua vez, queria trabalhar um mito religioso para fazer frente a pastores neopentecostais em ascensão nas emissoras concorrentes - como R. R. Soares e Edir Macedo - , mas sem ser necessariamente um "católico de batina", porque precisava de um ícone que não fosse necessariamente um padre ou sacerdote e que fosse trabalhado para ter aceitação em várias correntes religiosas e, se possível, até entre os ateus.

E qual a fonte utilizada pela Globo para, em parceria com a FEB, trabalhar o mito de Chico Xavier? O documentário de Malcolm Muggeridge, é claro! Se observarmos a cobertura jornalística da Globo dada a Chico Xavier, sua diretriz é explicitamente inspirada no documentário sobre Madre Teresa, o mito de Chico Xavier, nesta fase, foi trabalhado nos mesmos moldes da freira albanesa.

Isso não é difícil de se constatar. Muggeridge trabalhou elementos conhecidos da "caridade" de Madre Teresa, depois bastante consagrados: ela segurando um bebê no colo, ela falando com velhos miseráveis, ela acolhida pela multidão, ela observando criança carente tomando sopinha, ela dizendo frases de efeito, entre recados moralistas e frases apenas corretas.

Tudo isso foi trabalhado em Chico Xavier. Tudo. Rigorosamente, com os mesmos elementos. Até os sorrisos patéticos de cada um na velhice eram enfatizados. E ambos igualmente adeptos da Teologia do Sofrimento, aquela ideologia que diz que o sofrimento humano é necessário para atingir as "graças de Deus". Segundo essa ideologia, quando mais alguém sofrer, mais ele estará "mais próximo dos céus". É o martírio humano promovido para uma espécie de "corrida para o Paraíso".

Vamos até comparar duas declarações, uma da Madre Teresa de Calcutá, outra de Francisco Cândido Xavier, para verificarmos a semelhança profunda dessas visões a favor do sofrimento humano, uma verdadeira demonstração de sadismo para pessoas que não são favorecidas pela sorte na vida.

"Tem algo de belo em ver os pobres aceitarem sua sorte, sofrerem como na Paixão de Cristo. O mundo ganha muito com o sofrimento deles", havia dito uma impiedosa Madre Teresa de Calcutá, na sua visão hipócrita de comparar os martírios das pessoas com o martírio de Jesus, o que a transforma não numa discípula do crucificado, mas de seu condenador, Pôncio Pilatos.

"Precisamos aprender a sofrer sem mostrar sofrimento, atravessar dificuldade sem passar na pauta dos outros... Estamos matriculados na prova; vamos ver qual será a nota", disse um sádico Chico Xavier sobre o sofrimento humano, apelando para que se escondesse dos outros o próprio sofrimento e fingir que está tudo bem. Nem o Amigo da Onça seria capaz de tanta crueldade.

Aí tanto Madre Teresa quanto Chico Xavier são adorados pelos fanáticos de suas religiões. No exterior, em que pese o processo de canonização - se bem que isso é uma avaliação que, no fundo, expressa o juízo de valor de uma elite de sacerdotes que não reflete a humanidade em geral - , a opinião pública é menos trouxa em aceitar de mão beijada um mito como o da freira que gostava de ver pobres e enfermos sofrerem.

Já no Brasil, Chico Xavier é objeto de fanatismo até nas mídias sociais, e aí já dá para perceber como o Facebook brasileiro é uma verdadeira podridão. Mas até o YouTube vem com o fanatismo chiquista em doses cavalares, com centenas de documentários surreais e um exército de fanáticos que curtem tudo que for favorável a Chico Xavier e descurtem (e esculhambam, espumados de raiva animal) vídeos que são desfavoráveis ao mito do "bondoso médium".

Madre Teresa ainda tem nos "espíritas" a sua multidão solidária. Os mesmos que seguem Chico Xavier admiram fervorosamente Madre Teresa e consideram ambos "grandes exemplos de amor e caridade". 

A freira albanesa chega a ser adotada pelo "movimento espírita" como se fosse da doutrina, e houve até suposta psicografia de Robson Pinheiro, que acreditamos não ter escrito por ela porque ela, no além, pagando pelo que fez na Terra, não iria escrever um livro tão "sereno" de "mensagens edificantes". No além-túmulo, ela já teria sido desmascarada e sofrido os efeitos de seus atos.

Graves problemas cercam Chico Xavier e Madre Teresa. Chico, pelos plágios e pastiches literários e pelas cartas "mediúnicas" que teriam sido fraudulentas. Teresa, pela exploração desumana aos pobres e enfermos. Ambos, pelas ideias reacionárias que defendiam em suas "belas frases", sempre aconselhando as pessoas a nada questionar, nada duvidar e aceitar qualquer absurdo numa boa.

Mas o maior problema é a idolatria de seus seguidores fanáticos, que nunca se convencem da veracidade das irregularidades de seus ídolos religiosos. Eles preferem a ilusão, as fantasias que sempre favorecem Chico e Teresa, preferem o sonho lindo de seus mitos do que a realidade de pessoas farsantes e traiçoeiras.

Se Chico Xavier e Madre Teresa eram pessoas problemáticas e preocupantes, mais problemáticos e preocupantes são seus fanáticos seguidores, que se acham "donos da verdade" com suas ilusões religiosas, pessoas que se dizem "dotadas de amor e misericórdia" mas explodem em raiva e ódio quando são contrariadas.

Se não fossem esses fanáticos, é possível que os dois mitos tivessem caído no esquecimento, e a sociedade pudesse buscar bons exemplos não em pretensas figuras filantrópicas, mas de práticas cotidianas feitas sem a prisão da fé e de suas prepotentes fantasias.

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