Como os deturpadores do Espiritismo conseguem dominar seus críticos?

(Autor: Professor Caviar)

Poucos percebem e muito menos gente consegue admitir que a deturpação da Doutrina Espírita tem seus próprios meios de sedução. Por exemplo, diante da acusação de deturpação, eles apelam para exibir, em seus textos, fotos como esta, do Getty Images, com crianças pobres sorridentes.

Críticas à deturpação existem, mas poucos têm coragem de denunciar os deturpadores. É como se denunciasse o crime, mas absolvesse o criminoso. Deturpar o legado de Allan Kardec em prol de um igrejismo ultraconservador e ainda por cima se passar por "rigorosamente fiel ao legado kardeciano" torna-se fácil pelo malabarismo de palavras do qual os "espíritas" são hábeis em fazer.

E como se dá isso? Como os deturpadores da Doutrina Espírita conseguem dominar seus contestadores de forma a transformá-los em seus adeptos? Muitos acreditam ser o "trabalho do bem" ou as "mensagens de amor", mas isso é bom demais para ser verdade. Isso consiste, na verdade, na maior armadilha que já havia sido advertida nos tempos de Kardec. Não foi por falta de aviso que os brasileiros se rendem aos deturpadores.

Vendo o caso do produtor de TV Humberto de Campos Filho, cujo pai foi um eminente escritor usurpado por Francisco Cândido Xavier, nota-se que duas das práticas consideradas eticamente duvidosas, o assistencialismo e a fascinação obsessiva, esta um tipo de obsessão já mencionado em O Livro dos Médiuns, foram observadas.

Humberto Filho, um dos herdeiros que processaram Chico Xavier e que chegou a dizer que as obras "espírituais" não teriam sido escritas por seu pai, foi convidado para assistir a uma doutrinária em Uberaba. Foi uma emboscada. No final, Chico Xavier usou do artifício da fascinação obsessiva para dominar a vítima, através de um abraço. Um deslumbrado Humberto de Campos Filho narra a seguinte passagem no livro Irmão X, escrito em 1997:

"(...) É fácil imaginar minha emoção. Sei que meus olhos estavam inundados pelas lágrimas quando nos abraçamos, comovidamente. De início, foi o Chico que falou, dizendo coisas tocantes e carinhosas. À certa altura, era outro alguém... Talvez meu pai?... E o que ouvi teve o efeito de um impulso que fez disparar uma sucessão de soluços, que pareciam que jamais iriam parar.

   No dia seguinte, um sábado, ainda com a impressão de que meu espírito havia tomado um banho de luz, fomos participar da distribuição de mantimentos (...)".

Um típico relato de fascinação obsessiva e uma falsa impressão de luminosidade espiritual. Um efeito enganoso das paixões religiosas, uma impressão inicial na qual não se repete, sendo apenas uma sensação de "paz" que parece altiva, mas é mórbida, como uma espécie de êxtase religioso, um perigoso feitiço.

Em seguida, Chico Xavier mostrou a Humberto Filho cozinheiras fazendo sopas e, depois, uma ostensiva caravana pela cidade do Triângulo Mineiro para apenas doar mantimentos. Um espetáculo todo para um mero assistencialismo, doação de alimentos que se escasseiam em duas semanas.

Imaginem a situação. Pessoas pobres recebem alimentos doados por religiosos, uma eventualidade que não é assim tão frequente, e tudo isso se esgota em duas semanas. Enquanto os "espíritas" ainda continuam comemorando, os pobres voltam à condição miserável de antes. Os donativos se esgotam, mas a propaganda permanece, alimentando a vaidade do "filantropo" que comemora demais o quase nada que fez.

O que parece "bondade plena" é um grande papelão que os brasileiros em geral acabam cometendo, na obsessão doentia em idolatrar figuras religiosas um tanto retrógradas. Daí a gafe de considerar Divaldo Franco o "maior filantropo do Brasil" quando ele não ajudou sequer 1% da população de Salvador, quanto mais para o Brasil. É festa demais para quase nada!

O que faz as pessoas se renderem fácil aos figurões "espíritas", na verdade, são dois mitos: o da religiosidade e seus mitos fantasiosos ligados a ideias de beleza e paz, e a ideia de bondade que se subordina ao caráter institucional da religião.

De um lado, a fantasia de ideias supostamente associadas a uma concepção de superioridade emocional. Coisas agradáveis, ainda que incoerentes e até absurdas. De outro, uma concepção de bondade e caridade que não parece espontânea, porque tem sempre um vínculo institucioal, o da seita religiosa, sendo a esta subordinada. Mesmo quando se fala que a bondade "está no alcance de qualquer um", o sentido se aproxima mais da franquia de um empreendimento social do que de um sentimento que qualquer um, em tese, pode ter.

Isso faz com que os deturpadores da Doutrina Espírita sejam poupados, mesmo quando se critica a deturpação. Existe até mesmo a falácia de que a catolicização do Espiritismo é válida por causa da "afinidade com os ensinamentos cristãos", argumento que claramente se utiliza das mesmas alegações católicas do Cristianismo, herdadas da Idade Média.

Muitos dos críticos da deturpação do Espiritismo ainda têm formação católica e se sentem ainda muito inseguros em se desapegar desta educação recebida na infância. Aprenderam ideias de bondade, amor e caridade que foram restritas a instituição e personalidades religiosas. Têm dificuldade de entender que tais qualidades escapam ao âmbito da religião e de seus mitos, e mesmo quando se diz que a bondade está acima de qualquer religião, ela não deixa de se subordinar a pelo menos uma delas.

O grande desafio, portanto, é deixar de lado essas percepções equivocadas, abrindo mão de ídolos religiosos do "espiritismo" brasileiro que, na verdade, usam clichês de bondade, amor, caridade e humildade para se promoverem, enquanto deturpam o pensamento de Kardec trazendo coisas fantasiosas e sem embasamento científico, como "colônias espirituais" e "crianças-índigo". As pessoas levam gato por lebre e, achando que estão tomadas de "luz" e da "mais saudável emotividade", acabam sendo enganadas diante das ilusões causadas pela paixão religiosa, essa orgia sem sexo, sem dinheiro e sem drogas, mas, ainda assim, tão mórbida e doentia.

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