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Seguindo Michel Temer, "espiritismo" brasileiro caminha para trás

(Autor: Professor Caviar)

O que tem a ver o "médium" Francisco Cândido Xavier com a terceirização e as reformas previdenciária e trabalhista? Muita coisa. A onda de retrocessos de âmbito político e econômico sinalizadas pelo governo Michel Temer já na sua condição de presidente interino, no ano passado, têm muita relação com o plano ideológico conservador em que se situa o "espiritismo" brasileiro, cada vez mais desmascarado em seus postulados, a anos luz distantes de Allan Kardec.

Fala-se que os retrocessos do governo Michel Temer, radicalizando de forma ainda mais grotesca os retrocessos propostos pelos dois governos Fernando Henrique Cardoso - que, em parte, culminaram com a tragédia da Plataforma P-36 da Petrobras, em 2001, fruto dos efeitos da precarização do trabalho que hoje Temer quer efetivar - , não somente cancelarão as conquistas históricas trazidas a partir da Era Vargas como eliminarão até mesmo as conquistas relativas, um tanto anteriores, como uma Lei Áurea que pouco contribuiu na ressocialização dos escravos, mas pelo menos pôs fim ao sistema de exploração de mão-de-obra desumano feito pelos senhores de engenho.

Hoje a escravidão tende a voltar através da terceirização do mercado de trabalho. Fala-se em aumentar horas de jornada de trabalho, enquanto os salários seguem sentido inverso, perdendo encargos e garantias. Direitos como férias e décimo-terceiro salário podem ser extintos. A instabilidade no trabalho pode aumentar, até porque as demissões sem justa causa não serão mais punidas pela lei. Os cruéis retrocessos de Michel Temer, que já em casa mantém uma relação conjugal com uma mulher com idade para ser sua neta, nos padrões patriarcalistas do século XIX, tendem a fazer o Brasil descer de marcha-a-ré e sem freio numa ladeira.

E o que o "espiritismo" nos mostra? A cada vez mais os "espíritas" se tornam insensíveis aos sofrimentos e aflições humanas. Se limitam a dizer às pessoas para aceitarem as desgraças, mudarem os desejos e necessidades, e se conformarem com a situação com otimismo e alegria. Contraditoriamente, apelam para ninguém se suicidar, mas para os "espíritas" pouco importa se são preservadas as condições de infortúnios que fazem alguém pensar em se matar. Os "espíritas" ignoram que ninguém comete suicídio por diversão.

Reduzidos à pregação da Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica pega emprestado pelo "movimento espírita", a doutrina igrejista que evoca Kardec apenas no discurso também andou para trás. Que os "espíritas" nunca conseguiram esconder seu apreço ao Catolicismo jesuíta do Brasil colonial, a ponto do próprio "mentor" de Chico Xavier ter sido um jesuíta - Emmanuel, na verdade o padre Manuel da Nóbrega - e vários supostos espíritos de jesuítas eram evocados para proteger "casas espíritas" nos vários cantos do Brasil, isso é fato.

O que não se esperava é que, ainda na vigência da "fase dúbia" (que, em tese, promete recuperar as bases kardecianas originais, mas, na prática, mantém o igrejismo herdado pelo deturpador pioneiro Jean-Baptiste Roustaing), começasse a crescer uma outra tendência, que lembra mais uma recuperação dos valores roustanguistas.

É por isso que se denomina neo-roustanguismo as pregações pela Teologia do Sofrimento observada em pregadores como Orson Peter Carrara, Rogério Coelho, o periódico "Correio Espírita" e até o suposto espírito lusitano do "poeta alegre" divulgado em "Artigos Espíritas". Seguindo Chico Xavier, que introduziu a teologia no "movimento espírita", eles também recuperam a visão de Roustaing de que a encarnação é uma espécie de punição na qual resta à pessoa aceitar as desgraças para encurtar seu caminho para o "céu".

Estabelecendo uma conexão com o governo Temer, o "espiritismo" acha ótimo os projetos lançados pelo presidente. Os apelos para "aceitar o sofrimento" condizem muito bem com a aprovação dos "espíritas" à precarização do trabalho, à perda dos direitos, a degradação do salário e da qualidade de vida, porque, para os "espíritas", a vida humana é algo "qualquer nota". Além disso, os "espíritas" apelam para os outros até a "amar o sofrimento", mas nunca aceitariam viver aquilo que aconselham para os outros. "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço", diz o ditado popular.

É um retrocesso que remete à Idade Média e contraria frontalmente a obra kardeciana. Frontalmente e de forma mais explícita possível. E mostra que no Brasil a Doutrina Espírita sucumbiu ao domínio absoluto dos "inimigos internos" que personificam todas aquelas ameaças alertadas pelo pedagogo francês em seu tempo. E o pior é que os brasileiros preferem aceitar uma única mentira, que é o sistema de valores duvidosos propagado pelo deturpador brasileiro Chico Xavier.

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