"Funk" seria uma espécie de chiquismo musical?


(Autor: Professor Caviar)

Os "espíritas" geralmente elegem como sua "trilha sonora" músicas qualquer nota que podem variar de uma obra semi-erudita até canções pop românticas de letras "positivas". Eles falam até em "arte moral", "música astral", e outras coisas e até cooptaram músicos mais sofisticados de MPB para fazerem trilhas sonoras dos filmes "espíritas" mais conhecidos.

A verdade, porém, é que, se existe um estilo musical que se encaixa perfeitamente no imaginário "espírita", esse estilo é o "funk". Se observarmos os discursos de defesa do "funk" com as pregações de Francisco Cândido Xavier, até parece que o "funk" correspondeu a um capítulo perdido no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.

Lembramos disso porque um rapaz que nos escreveu dizendo que fez um tratamento no "centro espírita" Leon Denis, em Bento Ribeiro, Rio de Janeiro, passou a ser paquerado pelas chamadas "periguetes" de "bailes funk". "Funk" nunca foi a opção deste rapaz, de personalidade muito diferente e alheia a esse universo social.

Mas não é uma incoerência misturar "funk" e Chico Xavier? Isso não é coisa de quem não gosta de um e de outro e quer bater em dois "coelhos" numa surra só? Não. A proximidade do "funk" com o "espiritismo" que é feito no Brasil é muito mais real do que se imagina, até porque o inconsciente "espírita", mais voltado à degradação da vida humana por causa desse papo de "aceitar o sofrimento", é bem mais próximo de um funkeiro do que de alguém dotado de melhor cultura.

É só perceber o que Chico Xavier defendia, por exemplo. Ele pregava a aceitação do sofrimento, como caminho para a "redenção humana". E o "funk"? Pregava a aceitação da miséria, da ignorância, da inferioridade social, e, a partir da afirmação de suas debilidades, o "funk" receberia as "bênçãos" do sucesso comercial, do apoio das elites, das verbas estatais, da visibilidade plena.

Não é preciso dizer que vários nomes do "funk", como DJ Marlboro, MC Leonardo, Valesca Popozuda e outros também compartilham da mesma imagem "santificada" de Chico Xavier. Praticamente "canonizados" pela maioria das referências que se observa na busca do Google, eles também revelam outra semelhança com o "bondoso médium": a glamourização da pobreza e a mitificação da humildade.

A ideia do pobre "ingênuo e feliz" se observa tanto na ideologia "filantrópica" de Chico Xavier quanto da ideologia "ativista-cultural" do "funk". Um pobre ao mesmo tempo "inofensivo" e "pueril", resignado com sua situação, na qual espera apenas um mínimo de prosperidade econômica sem sair das condições simbólicas de pobreza, como a ignorância e o baixo padrão de vida.

Apenas aspectos formais de emancipação são considerados: a liberdade sexual, os serviços de água e saneamento, o salário maior, o consumismo. Mas os funkeiros e seus admiradores continuam na pobreza vocabular, moral, ideológica, dentro de uma engenhosa fórmula mercadológica na qual os pobres "deixam de ser pobres" na forma, mas não na essência.

No "espiritismo", há algo semelhante. O sofredor, o "pobre em espírito e matéria", também é convidado a obter "bênçãos" sem romper com seu padrão de vida. Ele é aconselhado a se resignar com sua situação e a obedecer os desígnios do "alto", representado pela arbitrariedade das circunstâncias que lhe são adversas, e só pode obter algum benefício dentro desses limites.

Outro aspecto é a blindagem midiática. Tanto Chico Xavier quanto o "funk" receberam blindagem da Rede Globo de Televisão. A forma de ver a "pobreza", de agrado das elites que veem isso como um freio ao ativismo social mais intenso - aquele que mexe nos privilégios elitistas, como os movimentos por reforma agrária - , é semelhante tanto no "médium" quanto no estilo musical.

Isso faz com que, tanto no "funk" quanto em Chico Xavier, a visão de "pobreza" seja higienizada. A ideia não é defender a emancipação real das classes populares, como se observa nos movimentos esquerdistas, mas uma "emancipação controlada" que não represente ruptura com aspectos simbólicos da pobreza e nem simbolize uma ameaça aos interesses das elites dominantes.

Embora certos intelectuais de esquerda acreditassem, tanto em relação ao "médium" mineiro quanto ao ritmo carioca, num suposto potencial progressista, o que se observa é que tanto Chico Xavier quanto o "funk" são melhor acolhidos pelas elites endinheiradas, de socialites, colunistas sociais e aristocratas em geral, pela maneira paternalista com que tratam o povo pobre e pela promessa de deixar as classes populares numa situação subserviente, resignada e, principalmente, domesticada.

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