Wantuil fez mandinga para favorecer Chico Xavier?

(Autor: Professor Caviar)

Consta-se que a mandinga é um recurso que certos arrivistas usam para levar vantagem fácil, geralmente conquistando situações acima de suas capacidades e até acima de seus méritos. 

Se, por exemplo, um empresário de "funk" quer ser considerado "artista de vanguarda" e um político corrupto, convertido em pretenso radialista, quer se passar por "intelectual de esquerda", só a mandinga é um recurso para empurrar tais canastrões a serem anfitriões das festas da vida humana nas quais eles normalmente não passariam de repugnantes penetras.

Segundo conta Jorge Rizzini no livro J. Herculano Pires, o Apóstolo de Kardec - o termo "apóstolo", um jargão católico, é meio infeliz, mas a publicação é bem intencionada - , o então presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, havia se inclinado à umbanda na década de 1950.

Ambicioso, Wantuil, mentor terreno de Francisco Cândido Xavier, queria alçar altos voos no seu poder de dirigente e sob a cumplicidade do suposto médium e beato de Pedro Leopoldo e Uberaba. E ele havia recorrido à umbanda, provavelmente, com este propósito.

Wantuil havia afirmado, em entrevista, em 1953, ao radialista Geraldo Aquino no programa Hora Espiritualista João Pinto de Souza, na Rádio Clube do Brasil (depois Rádio Mundial e CBN AM 860), que visitou vários terreiros de umbanda e concluiu seu "estudo inesperado" sobre o "Espiritismo de Umbanda".

Anos mais tarde, Wantuil, através do Conselho Federativo Nacional da FEB, estabeleceu, em comunicado a todos os "centros espíritas" do Brasil, ideias confusas como "fenômeno mediúnico com ou sem doutrina é Espiritismo", "doutrinariamente falando, toda prática mediúnica é espírita" e "Umbanda é Espiritismo, mas não é Doutrina Espírita". E mais: "todo umbandista é espírita, mas nem todo espírita é umbandista".

Isso teve um propósito, é verdade. Em abordagens inferiores de umbanda e outros cultos afro-brasileiros, os despachos, mandingas e outros feitiços são usados para abrir caminho para ambiciosos com muita facilidade e sem o menor esforço. No sentido metafórico, é como se um homem insatisfeito em poder andar, desejasse voar bem alto e bem longe de sua área e de seus talentos.

A FEB estava desmoralizada com o caso Humberto de Campos, que quase pôs a perder o mito de Chico Xavier. Os herdeiros haviam recorrido da decisão do empate, e Wantuil tentava ganhar tempo empurrando seu pupilo para todo tipo de apelo: usurpando a jovem professora Irma de Castro Rocha (Meimei), forjando trabalhos de psicofonia (estranhamente uma "faceta" esquecida da carreira do suposto médium). apelando para o Assistencialismo, e lançando "livros científicos" sob o nome de "André Luiz".

Wantuil já sentiu o perigo do seu pupilo ser reduzido a pó com o lançamento, em 1944, do livro O Enigma Chico Xavier Exposto à Clara Luz do Dia, trabalho de jornalismo investigativo de Attila Paes Barreto. Havia a ameaça do crítico literário Osório Borba também escrever um livro denunciando as irregularidades mediúnicas.

Em 1954, as desconfianças em torno das fraudes de materialização fez com que um espetáculo grotesco da "materialização de Emmanuel" - em que uma maquete que lembra a do Cristo Redentor sem a cabeça de Jesus Cristo, mas com um molde no qual se colou a foto de Emmanuel - se encerrasse com a voz do locutor em off, que se atribuía ao "espírito" do jesuíta, "aconselhando" Chico Xavier a parar com essa prática, por considerar "arriscada".

Eram tantos impasses que é bem provável que Wantuil tivesse recorrido à umbanda para "abrir caminho" para ele e seu pupilo. Diferente da mitificação "limpa" feita sob patrocínio da Rede Globo, a mitificação de Chico Xavier sob a batuta de Wantuil era confusa e inclinada a sensacionalismos e sujeita a escândalos diversos. A gota d'água teria sido o caso Otília Diogo (1963-1964), uma farsa de materialização que sugeriu que Chico Xavier "desobedeceu" os "conselhos" de um Emmanuel supostamente materializado.

Diante de tantos escândalos, Wantuil tinha "trabalho" a fazer, em todos os sentidos. Talvez a mandinga tenha afastado Osório Borba de cumprir sua promessa, pois o crítico literário faleceu em 1960 sem dar indício da produção do prometido livro-denúncia. Wantuil também teria pedido para seus capangas "cuidarem" do sobrinho de Chico, Amauri Xavier, que ameaçava denunciar não só o tio, mas toda a FEB. 

Amauri teria falecido por queima-de-arquivo, primeiro vítima de campanha difamatória, com tantos crimes inventados e sem provas, depois agredido por funcionários de um sanatório no interior de São Paulo (que existe até hoje), e, "liberado" da internação, ter sido envenenado em 1961. A mandinga teria favorecido que o horrendo desfecho de Amauri nunca fosse devidamente investigado nem sequer relatado, e, oficialmente, o jovem faleceu por "hepatite", precoce demais para quem apenas era alcoólatra, que normalmente tende a morrer entre 35 e 50 anos. Amauri morreu aos 27.

Os "despachos" também favoreceram, de certa forma, Wantuil e Chico. O presidente da FEB se aposentou, faleceu doente e permaneceu num ostracismo no qual os "espíritas" não exaltam nem depreciam. Wantuil está escondido no memorial da FEB, junto a Jean-Baptiste Roustaing, cujo nome "desapareceu" até das fileiras igrejistas. 

Chico Xavier, por sua vez, passou incólume e seu mito cresceu como bola de neve, e ele, maior deturpador de toda a história do Espiritismo, ainda pôde ganhar cadeira cativa quando veio a "fase dúbia", depois da morte de Wantuil. A "fase dúbia" consistia em camuflar o igrejismo com falsas promessas de recuperação das bases doutrinárias originais do Espiritismo.

Agora só falta perguntar se também existe galinha preta nas colônias espirituais...

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