Se já existe um Catolicismo, para que outro?

(Autor: Professor Caviar)

A hipocrisia que toma conta do "movimento espírita" e seu aparato de belas palavras, belas imagens e pretensa filantropia, faz com que contradições diversas prejudiquem a verdadeira compreensão do legado de Allan Kardec.

Há, quando muito, apenas um entendimento pedestre e pedante, e, mesmo assim, cheio de equívocos, pois se é "fiel a Allan Kardec" traindo ele o tempo inteiro, através de um igrejismo gosmento, piegas, enjoado, nojento.

O reles entretenimento de palavras enfeitadas e uma quantidade industrial de publicações "espíritas" que só fazem multiplicar a "fase dúbia" nas mentes das pessoas, enganadas pela ilusão de supostamente estarem "compreendendo perfeitamente" a obra kardeciana, quando o que assimilam não passa de igrejismo, de vaticanização.

A situação é tão patética que o que vemos sob o rótulo de "espiritismo" é, na verdade, um outro catolicismo. É só ver muitas e muitas páginas "espíritas", atividades em "centros espíritas" e mesmo nas obras de Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, e se verá, explicitamente, que tudo isso é Catolicismo. E dos medievais.

Chico Xavier e Divaldo Franco puxaram tudo isso. Uma série de ritos, dogmas e apelos à emoção que muitos estão acostumados, até aqueles que começam a criticar a deturpação espírita e poupam estes dois deturpadores. É uma overdose de emotividade que remete mais ao fanatismo católico, com todo aquele discurso de belas palavras, belas imagens, derramamento de lágrimas, comoção, devoção etc.

Isso tudo é Catolicismo, só que um Catolicismo um tanto vagabundo e cafajeste, no qual o apelo à emoção - Argumentum Ad Passiones, conhecido tipo de falácia - é a arma utilizada o tempo todo, como sentinelas a reprimir qualquer despertar da Razão, quando ela tenta desmascarar as irregularidades imensas que sangram mortalmente o legado kardeciano no Brasil.

O mais preocupante é que o "espiritismo" brasileiro pegou o espólio que a Igreja Católica propriamente dita passou a achar obsoleto. O "espiritismo" brasileiro é calcado no Catolicismo jesuíta do período colonial, e isso é comprovado com a multidão de jesuítas que são evocados como "mentores" ou "patronos" das chamadas "casas espíritas".

Note-se que os ritos, dogmas, eventos, abordagens etc do "espiritismo" brasileiro, sempre motivados pelo Ad Passiones, remetem mais ao velho Catolicismo, por mais que o Catolicismo propriamente dito de hoje continue sendo ritualístico e dogmático. Mas, enquanto a Igreja Católica se modernizou, mesmo dentro de seus limites ideológicos, o "espiritismo" se regrediu, se distanciando dos postulados kardecianos e migrando para os braços do imperador Constantino.

A diferença que existe é que o "catolicismo espírita", ou espiritolicismo, ou "espiritismo evangélico" - há também o eufemismo "espiritismo cristão" - , dispensou parte da pompa católica. As "casas espíritas" raramente reproduzem a imponência dos templos católicos, e os palestrantes não usam as vestes de padres e sacerdotes. 

Os cultos "espíritas", conhecidos como "doutrinárias" - às vezes definida, de maneira hipócrita, como "estudos" - , também não apelam para o senta-e-levanta das missas, e não há o "biscoito" da hóstia, se limitando apenas a haver a "água fluidificada" (termo que soa redundante), equivalente da "água benta" católica que é oferecida nos finais das doutrinárias.

Tudo tem que ser feito para forjar uma aparência de simplicidade. Afinal, o "espiritismo", como em toda empreitada oportunista, precisa criar um suposto diferencial, até por questão de conveniências e interesses arrivistas. A ênfase descomunal da "caridade" e da "emoção" também são apelos para atrair a adesão de pessoas emocionalmente frágeis.

Por outro lado, o verniz de "inteligência" e a falsa apreciação dos postulados originais de Allan Kardec mostram que o "espiritismo" tenta também atrair a atenção de um público mais intelectualizado, incluindo progressistas, agnósticos e ateus. Mas isso é só fachada, pois até eles são entregues a um igrejismo extremado, hipnótico, manipulador, mistificador.

Isso deixa de ser Espiritismo. Virou um outro Catolicismo. Um "catolicismo à paisana", quase uma versão pirata da Igreja Católica. E isso mostra o caráter de hipocrisia que existe no Brasil, pois o "espiritismo" que temos é católico até a medula. Mas se já temos uma Igreja Católica, para que precisamos de outra? Os "espíritas" deveriam, ao menos, perder a vergonha de serem católicos.

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