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O Espiritolicismo e os Resíduos Medievais do Catolicismo

(Autor: Alexandre Figueiredo)

O que chama muito a atenção, na comparação entre a doutrina espírita lançada pelo pedagogo Allan Kardec e o que se convencionou a denominar "espiritismo" no Brasil, é uma grande diferença entre um e outro que faz com que ambos se contradigam e se divirjam drasticamente em vários aspectos.

Essa diferença contrastante se deve nas raízes ideológicas trazidas pelas duas doutrinas, o Espiritismo original, kardequiano, e o "espiritismo" à brasileira, chiquista, por causa de seu maior representante, o católico (assumido) Chico Xavier.

Enquanto a doutrina de Allan Kardec se baseava no contexto de seu tempo, o chamado "Século das Luzes" onde havia uma onda de correntes de pensamento filosófico, que acompanhavam uma série de avanços tecnológicos provenientes da Revolução Industrial, e outros avanços de ordem social consequentes da Revolução Francesa e da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 (um dos primeiros documentos a tratar de direitos humanos sob a perspectiva moderna).

Isso fez com que a base doutrinária da doutrina kardequiana se baseasse na busca do conhecimento científico, além de um conteúdo humanista e progressista, sempre fundamentada no debate e no aperfeiçoamento dos conhecimentos através da pesquisa e do raciocínio questionativo.

O próprio Kardec, quando ainda usava seu nome de batismo, Hippolyte Leon Denizard Rivail, sendo conhecido como o professor Rivail, sempre teve como hábito perguntar e questionar as coisas. Mesmo os fenômenos do mundo espiritual não foram encarados por ele com deslumbramento, mas antes com curiosidade e senso investigativo.

Esse espírito questionador, de não se satisfazer com respostas prontas, o professor Rivail levou para suas obras da doutrina espírita. E, consciente das limitações tecnológicas e sociais do seu tempo, Kardec nunca definiu o Espiritismo como uma doutrina fechada, mas uma doutrina que se transformasse juntamente com a sociedade.

Isso desmente que o Espiritismo codificado por Kardec seja antiquado. Mas, naquela época, até mesmo os meios de comunicação eram rudimentares. Hoje temos Internet, mas antes a única forma de reprodução da imagem era pela incipiente fotografia, que mesmo assim era confundida por muitos cidadãos daquela época - meio do século XIX - com um feitiço macabro. Daí que muito do Espiritismo kardequiano estava em aberto.

O que não significa, por outro lado, que a pretexto de atualização se possa distorcer a doutrina de Kardec, como foi feito a partir da própria França, quando aparentes discípulos do professor lionês quiseram "pasteurizar" a doutrina depois da morte de seu codificador. Essa distorção ainda se tornou pior no caso brasileiro, nas razões a serem apresentadas a seguir.

Afinal, a doutrina espírita de Allan Kardec era a bússola de um caminho evolutivo do campo do conhecimento. Se o Espiritismo kardequiano teria de ser transformado, era através dos avanços naturais da ciência e da sociedade. O próprio Kardec admitia isso, e sempre se dispôs a oferecer um amplo debate sobre a doutrina.

HERANÇA MEDIEVAL

Já o "espiritismo à brasileira", do contrário da influência da intelectualidade francesa, é consequência de um cacoete que persiste até hoje no Brasil, que é o de lançar fenômenos novos em bases antigas e até retrógradas, edifícios de ideias construídos em estruturas de prédios parcialmente destruídos.

O "espiritismo" brasileiro, que não só aproveitava as distorções que atingiram o espiritismo francês como levava às últimas consequências através da ênfase na obra de Jean-Baptiste Roustaing (e não na de Allan Kardec), que na verdade fazia parte de um movimento de dissidentes católicos que se reuniram para fundar a Federação "Espírita" Brasileira (FEB).

A FEB não somente introduziu o rustanismo (ou roustainguismo) no Brasil como acabou atraindo, com sua orientação católica, espíritos que eram ligados a antigos padres jesuítas, além de indígenas e negros que estiveram sob o jugo escravista dos membros da Companhia de Jesus. O principal deles era o famoso padre português Manuel da Nóbrega, austero líder jesuíta, que neste "novo" papel passou a usar o nome de Emmanuel.

Essa herança jesuíta fez com que o "espiritismo à brasileira", que passou a se aproveitar dos dotes mediúnicos - mas não necessariamente espíritas - de um humilde católico, Francisco Cândido Xavier, o mineiro Chico Xavier, servisse como uma "desforra" à determinação do fim das missões jesuítas do Brasil pelo primeiro-ministro português Marquês de Pombal. Curiosamente um dos primeiros jesuítas se chamava (São) Francisco Xavier, canonizado como santo. Tudo a ver.

Pombal, querendo reconstruir Portugal depois do trágico terremoto de 1750, impôs restrições de investimentos na colônia brasileira, vista de forma negativa pelos portugueses por atribuírem a ela os desperdícios financeiros que a nação portuguesa investia, em detrimento do próprio país europeu, castigado pelo repentino terremoto e sofrendo muitos apertos para se recuperar dos danos físicos e humanos causados pela tragédia natural.

Entre as restrições, Pombal determinou o fim das missões da Companhia de Jesus no Brasil - a essas alturas Manuel da Nóbrega havia, há muito, falecido - e o retorno de seus integrantes a Portugal. Nenhum dinheiro seria mais investido para a manutenção das missões no país sulamericano.

Os jesuítas ainda seguiam ideais do catolicismo medieval, carregados de dogmas obscurantistas, de valores sociais machistas, racistas e escravistas, além de usar métodos de persuasão que, primeiro, absorviam superficialmente as características dos povos dominados - como indígenas e negros - , para depois devolvê-los modificados pela doutrinária católico-medieval. Foi dessa maneira que os jesuítas passaram a dominar as tribos indígenas.

Com a doutrina espírita, isso não foi diferente. Os "jesuítas do espaço" procuraram absorver elementos superficiais e genéricos da doutrina de Allan Kardec, acrescidos das "devidas" distorções feitas por Roustaing, e nelas inseriram ritos, hábitos e crenças tipicamente católicos. Inclusive deturpando processos mediúnicos e transformando as descobertas de Allan Kardec numa brincadeira de envergonhar até mesmo aqueles que, na França, se divertiam com os espetáculos das "mesas girantes".

Daí a baixa credibilidade do "espiritismo à brasileira", que não conseguiu sequer se constituir numa alternativa sólida ao catolicismo. Este, dentro dos seus limites ideológicos, pelo menos soube se modernizar, ao passo que o "espiritismo" de Chico Xavier aproveitava no que havia de mais ultrapassado do catolicismo, temperando-o com doses de pieguice e moralismo.

Até mesmo a "carta Lentuli", suposta prova de existência do fictício e estereotipado Publio Lentulus - suposta encarnação anterior do padre (Em)Manuel da Nóbrega - , datada do século XIII, era renegada até por católicos medievais, mas veio a ser "prova indiscutível" da existência do suposto senador romano segundo a ótica do "espiritismo" chiquista (ou espiritólico).

Se nem o catolicismo aceita como verídico um desses documentos, a aceitação espiritólica só mostra o quanto o dito "espiritismo" brasileiro é cheio de equívocos. Equívocos que caracterizam essa doutrina confusa e ultrapassada, feita de restos do catolicismo medieval e dotada de uma espiritualidade caricata da qual Allan Kardec é apenas um nome a ser bajulado, quando no fundo suas lições acabaram sendo ignoradas e até mesmo rejeitadas.

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OBS de Kardec McGuiver: Aquilo que os brasileiros conhecem como "Espiritismo" na verdade é uma salada sincrética composta pelos restos de outras crenças, em sua maioria católicas. Católicas, mas do pior Catolicismo, aquilo que nem os católicos de hoje querem mais saber.

O Catolicismo enxertado no "Espiritismo" brasileiro é o medieval, defendido por uma falange de espíritos de padres jesuítas que, de acordo com a lei de atração, usam a vulnerabilidade católica dos fundadores da FEB e dos seguidores de Chico Xavier (um católico) para exercer sua influência e impedir o avanço intelectual de seus seguidores, barrando de vez a entrada dos conceitos de fé raciocinante estudados por Allan Kardec (cujo nome só serve de atestado de "autenticidade" para as bobagens seguidas pelos seguidores da versão deturpada do Espiritismo, ainda bem forte em nosso país) confundindo e travando qualquer tentativa de progresso intelectual.

Para conhecer os métodos de manipulação ideológica que estragou o Espiritismo no Brasil, é preciso conhecer os jesuítas, grandes responsáveis por toda essa farra que transformou Allan Kardec num grande desconhecido, ignorado por muitos usam o nome dele em vão.

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