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"Espiritismo" brasileiro deve gratidão a J. B. Roustaing

(Autor: Professor Caviar)

Os espíritas só fizeram disfarçar, mas nunca abandonaram o roustanguismo. A influência igrejeira de Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing, é notória em praticamente tudo o que se fez sob o nome de Espiritismo no Brasil.

As pessoas têm o terrível cacoete de adotar as ideias e renegar o idealizador, quando ele goza de repercussão negativa. Somos um país de anti-discípulos, de pessoas que seguem as ideias de alguém que diz renegar, enquanto fingem seguir outra pessoa cujas ideias discordam na sua essência.

A crise que envolve o "espiritismo" brasileiro não é resultante das críticas e denúncias que se faz na Internet, mas das contradições que deixaram de ser aceitas como antes. O fracasso que começam a sentir os palestrantes que, até pouco tempo atrás, podiam dizer uma coisa e depois dizer outra sob aplausos e nenhum questionamento, é notório, e eles começam a se irritar e até "atirar pedras" aos questionadores.

Paciência. As pessoas estão informando mais e o festival de fingimentos aqui e ali deixou de acontecer. Por trás das belas palavras a respeito de "amor e fraternidade", conceitos que se chocavam uns aos outros, ideias mistificadoras, juízos de valor e ideias de um moralismo retrógrado eram servidas, mostrando o quanto os erros cometidos pelo "movimento espírita" não são errinhos que se deixa passar, porque eles põem em sério prejuízo o legado trabalhoso de Allan Kardec.

Tudo virou uma grande brincadeira, uma grande zoeira, na qual os "espíritas" brasileiros fazem e pensam o que querem, dentro apenas dos limites de um igrejismo místico, trazendo as piores energias, porque, diante da desonestidade doutrinária e de tantas dissimulações e contradições, os "espíritas" atraem justamente os espíritos mais traiçoeiros, brincalhões e toda sorte de almas inferiores e embrutecidas que acabam tomando as rédeas da doutrina. E os seguidores é que pagam caro por isso, enquanto os palestrantes "espíritas" fazem turismo e ganham medalhas por aí.

É sério. Se o "espiritismo" inspira mau agouro ao ponto daqueles que recorrem a tratamentos espirituais em busca de pão e levam serpentes, não é porque os "rancorosos" dizem. As más energias são atraídas por um monte de dissimulações, contradições, omissões, fingimentos e tantas coisas negativas que os "espíritas" fazem, na surdina.

Sim, porque a promessa de um "céu eterno" para aqueles que investem no espetáculo das palavras doces e da aparente filantropia, lançando mão de apelos tendenciosos como Ad Passiones (apelo à emoção) e Assistencialismo (filantropia que só traz benefícios pontuais e restritos), faz dos "espíritas" uma facção de arrivistas, ambiciosos, dissimuladores e mistificadores.

O igrejismo que se tornou a opção do Espiritismo no Brasil deturpou gravemente o legado de Kardec. É bom lembrar que, se os festejados "médiuns" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco deturparam a Doutrina Espírita, não foi sem querer e nem por acidente ou boa-fé. Eles sabiam muito bem do que estavam fazendo, senão a deturpação não teria resultado em centenas de livros e/ou palestras.

Isso não dá para escapar. A deturpação revela que a raiz roustanguista do "espiritismo" brasileiro continua firme, e uma árvore roustanguista não pode gerar frutos kardecianos, como oficialmente se alardeia por aí. Questionar essa "raiz roustanguista de frutos kardecianos", um absurdo fora de lógica, é que anda tirando o sono dos "espíritas" que antes estavam acostumados a aplausos e, por enquanto, contam com a blindagem da grande mídia (a partir da própria Rede Globo, que está por trás do mito de "bondade extrema" atribuído a Chico Xavier).

O próprio Chico Xavier adaptou para a realidade brasileira o pensamento de J. B. Roustaing em suas obras. O roustanguismo estava todo ali, nos livros do "médium" brasileiro. Conta, também, o espírita autêntico Herculano Pires que Divaldo Franco também sempre foi roustanguista, apesar do "médium" baiano alegar que "não teve tempo" de ler Os Quatro Evangelhos. Deve ser um lapso de memória, porque sabemos que, na verdade, o "médium" baiano não teve tempo é de ler a obra de outro autor francês.

O roustanguismo envolve valores moralistas, religiosidade conservadora, misticismo e devaneios materialistas do mundo espiritual. Se os brasileiros veem como "valores espíritas" ideias como "resgates coletivos", "reajustes espirituais", "colônias espirituais" etc, agradeçam a J. B. Roustaing. Se os "espíritas", em não-assumida inclinação à Teologia do Sofrimento, pedem para os sofredores aguentarem as adversidades extremas em nome das "bênçãos da vida futura", agradeçam de joelhos a Jean-Baptiste Roustaing.

Se o "espiritismo" brasileiro está cheio de espíritos e padres jesuítas, agradeçam a Roustaing. Se as sessões "mediúnicas" são um espetáculo que mistura sensacionalismo com devoção religiosa, agradeçam a Roustaing. Se o "espiritismo" virou um igrejismo, não há como escapar nem fingir que odeia a "vaticanização", mas é dever agradecer a Roustaing. É dever de todo "espírita" brasileiro que presta reverência a Chico Xavier, Divaldo Franco, Emmanuel, João de Deus, Joana de Angelis, Adolfo Bezerra de Menezes, e tantos e tantos associados, agradecer a Roustaing por tudo isso.

Não se pode fingir que, acreditando em valores igrejeiros e enxergando o Espiritismo como se fosse uma versão informal do Catolicismo, se presta "fidelidade absoluta e respeito rigoroso" a Allan Kardec, tão deturpado e levianamente interpretado mediante as paixões religiosas dos "espíritas". Portanto, não há como praticar o igrejismo e se esconder sob o rótulo de "seguidor fiel de Kardec" porque está claro que muitas das ideias e práticas realizadas pelo "espiritismo" brasileiro são explicitamente herdadas por J. B. Roustaing.

O Brasil é um país de muito pretensiosismo, e antes as pessoas, em vez de levar vantagem abraçando novidades que no fundo não lhes agradam muito, devem assumir seus lados conservadores e retrógrados, deixando de lado a costumeira mania de deturpar novidades ao sabor das ideias conservadoras, quando é muito mais sincero assumir um conservadorismo retrógrado do que fingir seguir uma vanguarda que lhe causa muito incômodo.

Se os "espíritas" brasileiros assumirem que muitos dos postulados de Allan Kardec lhes incomodam e causam até irritação, eles estariam sendo pelo menos sinceros em seu conservadorismo retrógrado, porque a prática mostra o quanto o "espiritismo" brasileiro se transformou numa versão repaginada, quase que uma reconstituição do velho Catolicismo medieval jesuíta, apenas mesclado com alguns aspectos do misticismo ocultista e feiticeiro. 

Na prática, o "espiritismo" no Brasil acolheu abordagens católicas que o Catolicismo, que com todo o seu misticismo, busca adaptar aos novos tempos, descartou, e as pessoas não percebem o ridículo que é se declarar "espírita" sem perceber que sua religião se tornou um clone mofado da Igreja Católica. E se o "espiritismo" brasileiro é bastante catolicizado, agradeça a J. B. Roustaing.

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