Chico Xavier, Teologia do Sofrimento e Império Romano

(Autor: Senhor dos Anéis)

A ilustração acima mostra pessoas jovens carregando uma cruz. A aberrante imagem parece bonita aos olhos do discurso religioso, no qual seus ideólogos tentam fazer crer que é uma "simpática (?!) metáfora". Mas a verdade é que ela trás um significado muito mais sombrio do que se imagina.

Muita gente não percebe a influência, forte e dominante, na Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica, no "espiritismo", que acaba sobressaindo até mesmo aos postulados kardecianos, cada vez mais deturpados ou desprezados. A Teologia do Sofrimento não se limita a ser uma corrente menor do Catolicismo, estando presente em quase todo o "movimento espírita" no Brasil e em iniciativas vinculadas a este em outros países.

É chocante dizer, mas a verdade é que Francisco Cândido Xavier tornou-se o maior ideólogo da Teologia do Sofrimento de toda a história brasileira, mais do que muito católico assumido. Nem João Mohana, considerado um dos principais divulgadores católicos, teve esse destaque nas ideias que fazem apologia ao sofrimento humano.

A Teologia do Sofrimento está explícita na obra de Chico Xavier e em seus depoimentos. Antes que os seguidores de Xavier, revoltados, apelem para dizer "ele nunca falou que defendia a Teologia do Sofrimento", é bom prestar atenção em suas ideias, e no pensamento pessoal do "médium" expresso em supostas psicografias atribuídas a Humberto de Campos, Casimiro de Abreu, Auta de Souza e outros.

Chico falava que as pessoas deveriam "sofrer sem mostrar sofrimento", e chegou a comparar as desgraças humanas a um exercício de escola. Isso é abertamente o conteúdo da Teologia do Sofrimento, que sempre apela para a aceitação das desgraças pessoais como um "atalho para Deus".

E a Teologia do Sofrimento, considerada uma "teoria cristã", na verdade é fruto de uma visão medieval que resultou num grave erro de interpretação. Defende-se o martírio de Jesus de Nazaré como se fosse uma "coisa boa", e seus pregadores falam em "carregar a cruz" com uma certa alegria e estranho otimismo.

Só que, se observarmos a coisa no âmbito da Teoria da Comunicação, o ponto de vista desta teoria é bem macabro. Como se considera o martírio de Jesus de Nazaré algo "positivo", como um "ingresso para o Paraíso", então a posição não é a favor de Jesus ou ao lado dele, mas ao lado dos tiranos do Império Romano que o mandaram ser crucificado, sem o julgamento de Pôncio Pilatos, que foi mera ficção: pelo raciocínio das autoridades romanas, condenar alguém é "pá-pum".

Pois se o foco é defender o sofrimento de Jesus, então é preciso uma análise mais lógica e coerente, antes de se apelar para o sado-masoquismo desse moralismo religioso que tanto prevalece no inconsciente das pessoas.

Pensamos bem. Vamos em partes:

1) A condenação de Jesus de Nazaré à cruz parte de autoridades do Império Romano, grupos de aristocratas poderosos que se incomodaram com as livres pregações que a vítima fazia, nas suas visitas de casa em casa.

2) Portanto, a decisão de crucificar Jesus é uma atitude de interesse das autoridades do Império Romano, que decidiram isso prontamente (o "julgamento" nunca existiu, pois não há documento histórico que indicasse tal ocorrência, e, no contexto sociológico e político da época, as condenações eram sumárias, como indicam os mais coerentes historiadores do período).

3) Apoiar a condenação de Jesus não é estar ao lado da vítima, mas, pelo contrário, ir contra Jesus. A Teologia do Sofrimento, portanto, é uma corrente anti-cristã, por ela defender uma medida adotada por tiranos contra alguém, e não se pode aceitar essa condenação sob o pretexto de "ser um caminho para Deus".

4) Apoiar a condenação de Jesus como um "atalho para Deus" ou um "passaporte para o Céu" é uma atitude que, com certeza, legitima a decisão de autoridades romanas, concordando com a tirania e suas medidas, e não o contrário.

Diante disso, temos que raciocinar mais adiante:

1) Chico Xavier, por suas frases, de maneira mais do que explícita fez apologia ao sofrimento humano, em várias vezes pregando para aceitar o sofrimento na "esperança de obter bênçãos eternas". Isso é defender a Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica.

2) Através de Chico Xavier, o "espiritismo" brasileiro assumiu a causa da Teologia do Sofrimento, se não no discurso, ao menos na prática.

3) A Teologia do Sofrimento faz apologia da condenação de Jesus de Nazaré como "exemplo" para as pessoas "sofrerem para atingir o Céu".

4) Como se defende o martírio de Jesus de Nazaré, se aplaude quem decidiu por isso, no caso as tirânicas autoridades do Império Romano.

Logo, o "espiritismo" deturpado acaba, mesmo sem aparente propósito, se tornando anti-cristão. Defendendo o sofrimento humano a partir do "exemplo de Jesus", o "espiritismo" prega a Teologia do Sofrimento, se identificando com o Catolicismo da Idade Média e, portanto, tornando legítimos os interesses de dominação trazidos pelas autoridades do Império Romano.

Esse raciocínio exato e lógico faz com que se veja a coisa de forma realista, fora da imagem glamourizada do martírio sofrido por alguém. Na medida em que se defende esse martírio, as pessoas acabam apoiando a desgraça alheia. E, com isso, acabam, sim, legitimando o poder do Império Romano, trazendo a perspectiva de que o projeto "espírita" do Coração do Mundo tende a ser uma teocracia imperialista.

Desta forma, a "profecia da Data-Limite" de Chico Xavier traz algo ainda mais sombrio: o "espiritismo", que não é mais do que o Catolicismo jesuíta medieval redivivo, deseja ser uma religião dominante e construir um império, através da nação brasileira, sob o lema "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", uma expressão "bonita", mas que esconde um projeto totalitário de uma nação com poderes nela concentrados sob o pretexto de predestinação divina.

O projeto, portanto, que emula perspectivas já presentes no livro Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing, combina tanto o poder do Império Romano quanto a supremacia do Catolicismo da Idade Média. 

O problema não são os relatos bonitos dos enunciados da "Pátria do Evangelho". O problema é o "obstáculo a ser combatido". O Catolicismo medieval também falava em "união pelo Cristo" e em nome dela cometeu atrocidades sanguinárias contra quem não compartilhava de seus propósitos. E o "espiritismo" tem uma desculpa pronta no caso de cometer genocídios: "reajustes espirituais" e "resgates coletivos".

Daí para o "espiritismo" defender Jair Bolsonaro é um pulo. Daí ser um grande perigo esse coquetel de ideias moralistas, fanatismo religioso e outras fantasias, mitos e catarses que escondem uma sociedade desumana e cruel por trás de tantas belezas retóricas da fé extrema.

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