Apoiado por "espíritas", governo Michel Temer sofre grave crise


(Autor: Equipe Dossiê Espírita)

2016. Com a saída de Dilma Rousseff e a ascensão do vice Michel Temer ao poder - implantando um projeto político oposto ao da titular afastada do poder - , os "espíritas" vieram com um novo discurso: pediram para os sofredores "amarem o sofrimento", "abrirem mão de suas próprias necessidades e talentos" e "perdoarem os abusos dos algozes".

De repente o "espiritismo" saiu do armário e vestiu a camisa da Teologia do Sofrimento (corrente medieval da Igreja Católica), que apenas era mais explícita na obra pessoal de Francisco Cândido Xavier (mesmo aquelas que supostamente levam os nomes de personalidades mortas, famosas ou não).

Eram apelos por vezes taxativos, que pediam para o sofredor deixar de reclamar da vida e conhecer as "belas lições" das desgraças acumuladas. Uns até diziam para as pessoas "olharem os passarinhos", ver o "rio tomando seu curso" etc. A frequência com que os "espíritas" faziam tais apelos chamava a atenção e sugeria uma imagem subliminar.

Embora os "espíritas", aparentemente, não tenham dado ênfase ao apelo de "orar pelo novo governante para que ele governe pensando no próximo e baseado nos princípios cristãos", o "espiritismo", no fundo uma religião ultraconservadora, deixou subentendido seu apoio ao governo do presidente Michel Temer, hoje em crise por causa de denúncias dadas por empresários do grupo JBS, que controla vários setores, como alimentos (em especial carnes), higiene pessoal e calçados.

Algumas posturas sinalizam isso. Periódicos como "Correio Espírita" e "médiuns independentes" (sem vínculo com a FEB) como Robson Pinheiro associaram as passeatas do "Fora Dilma" a supostos processos de "regeneração" e "despertar da humanidade", mesmo quando tais manifestações exibissem cartazes nazistas, apelos pela "intervenção militar" (eufemismo para golpe militar) e seus grotescos líderes juvenis estimulassem seus seguidores até a baixarem as calças em plena rua.

A situação fez o "espiritismo" cair a ficha e revelou o lado sombrio da "fase dúbia", a contraditória etapa do "movimento espírita", vigente desde a saída de Antônio Wantuil de Freitas da FEB em 1971 e sua morte em 1974, na qual os "espíritas" igrejeiros fingiram abandonar o roustanguismo para prometer uma nunca praticada "recuperação das bases kardecianas originais".

A "fase dúbia", que se autoproclamava "kardecista" (termo que se tornou pejorativo entre os espíritas autênticos, que preferem a denominação "kardeciana") e prometia "kardequizar" (termo que subentende um igrejismo dissimulado, sugerindo uma corruptela do termo "catequizar"), reduziu a apreciação das ideias originais de Allan Kardec à palavra morta (ou desencarnada?) da teoria, mas a prática não só continuava sendo igrejeira e catolicizada como ela se acentuou mais neste sentido.

A catolicização se acentuou sobretudo nas atividades "espíritas" de entretenimento, como a veiculação de romances, novelas e canções "espíritas" que mais parecem versões informais do Catolicismo, aliadas de uma ótica "espiritualista" que lembra mais os contos de fadas, com dramalhões moralistas dignos dos mais piegas folhetins televisivos.

O "espiritismo" acabou entrando no "espírito do tempo" (olha o trocadilho), no qual empresários, celebridades e até esportistas passaram a deixar claros seus preconceitos sociais e suas intenções de reverter as conquistas sociais do povo, defendendo retrocessos sociais profundos que façam mais as pessoas sofrerem do que serem beneficiadas de maneira profunda e definitiva.

Se, por exemplo, o publicitário Nizan Guanaes passou a defender as medidas impopulares de Michel Temer e o empresário da "moderna" loja Riachuelo (que agora usa a insólita logomarca RCHLO), Flávio Rocha, defendendo a precarização do emprego, vemos Divaldo Franco sorridente acusando, no seu juízo de valor, os refugiados do Oriente Médio de terem sido "tiranos colonizadores" em encarnação anterior.

O "espiritismo" mostrou a que veio, como se fosse uma versão "modesta" da Cientologia, e provou ser na verdade um subproduto de uma sociedade ao mesmo tempo ultraconservadora e dissimulada, metida a moderna, como se pudesse subordinar o futuro ao passado mais retrógrado. Tornou-se a religião do neo-conservadorismo, até mais do que as seitas neopentecostais, que podem ser "neo" pentecostais, mas seu conservadorismo, pelo menos, é assumidamente "velho".

Já o "espiritismo" é o "velho" travestido de "novo". A gente até pergunta se o governo Temer é um governo "espírita". Todos os ingredientes estão lá: um moralismo castrador, a precarização da vida na perspectiva de "melhorias futuras", a renúncia aos próprios projetos de vida, a restrição da qualidade de vida, etc. Temer chegou a citar a frase "Não fale de crise, trabalhe!", lembrando Emmanuel: "Não reclame! Trabalhe e ore!".

O "espiritismo" brasileiro chegou ao ponto de, com seu moralismo e igrejismo extremos, regredir aos moldes do Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia. Na prática, rebaixou-se a uma versão repaginada do Catolicismo medieval, porque se comporta mais como um "outro Catolicismo", sem as formalidades da Igreja Católica, mas também com velhos valores católicos que os católicos propriamente ditos abandonaram. O "espiritismo" vive do lixo descartado pela Igreja Católica.

E, diante da crise aguda do governo Temer, o próprio "espiritismo" vive também uma grave crise. Com uma série grande de contradições que não se resolvem, os "espíritas" tentam apelar, além dos aparatos de Ad Passiones (imagens e textos que apelam para a emoção) e Assistencialismo (caridade que pouco ajuda e só promove o "benfeitor" da ocasião), para uma "solução" que na verdade foi a fonte do próprio problema, a "promessa de estudar melhor a obra de Kardec".

Essa promessa já foi feita na "fase dúbia", diante da crise do roustanguismo, do fim da Era Wantuil e das crises no "movimento espírita" que reduziram o poderio da FEB e fizeram roustanguistas históricos "virarem kardecistas" para agradar personalidades como Herculano Pires e Deolindo Amorim, espíritas autênticos que denunciaram a deturpação.

Pois essa promessa é que deu com os burros n'água. Os deturpadores prometeram "estudar melhor Kardec" e continuaram praticando seu igrejismo, enquanto fingiam compreender a teoria kardeciana. Agora que suas contradições vêm à tona, fazem a mesma promessa, como cães que correm atrás do próprio rabo. Só que será a mesma coisa de hoje, e as contradições nunca se resolverão. Daí a crise aguda do "espiritismo" brasileiro, no Brasil do governo "espírita" de Michel Temer.

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