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Bela, recatada, do lar e..."espírita"

(Autor: Professor Caviar)

O texto a seguir não é necessariamente sobre Marcela Temer, a esposa do possível futuro presidente da República, Michel Temer - recentemente testando o futuro mandato com a viagem da presidenta Dilma Rousseff, ameaçada de perder o mandato, à sede da ONU, nos EUA - , e nem aqui se está levando em conta se ela é ou não "espírita", mas sobre o texto da revista Veja que causou intensa polêmica na semana passada.

A reportagem de Veja, revista muito famosa pelo seu reacionarismo extremo, expressa um machismo retrógrado que fez muitos especialistas comentarem que o texto "Bela, Recatada e do Lar" poderia ter sido escrito no Brasil colonial ou mesmo antes, na Idade Média, em português arcaico, pelo ponto de vista machista retrógrado.

Pouco importa se Marcela Temer é católica, evangélica ou "espírita", não se leva em conta isso. Leva-se em conta o fato de que a futura primeira-dama - muito mais jovem que o marido, com diferença etária de 43 anos - simboliza, na reportagem, a imagem da mulher submissa, apegada ao lar e à família, com um marido sisudo e poderoso, "ocupado demais" com formalidades, e que vive "à sombra" dele.

Marcela é descrita como uma mulher que usa "vestidos até os joelhos", sempre "foi recatada", leva e traz o filho, Michel Temer Jr., à escola, e passou o último Carnaval apenas curtindo uma praia no Litoral Norte paulista com o marido e o filho.

Só faltava mesmo Marcela nem ser conhecida pelo nome, mas como "sra. Michel Temer, nascida Marcela", para o machismo ser completo. A reportagem causou revolta e muitas mulheres famosas resolveram fazer poses de mulheres sensuais, boêmias ou trabalhadoras, usando jocosamente o título do texto de Veja.

Evidentemente, algumas musas do "funk" - ritmo que tenta reverter seu conservadorismo descomunal (ele também se empenha em regredir o povo pobre aos padrões dos tempos da discutível Lei Áurea) com um discurso falsamente progressista - , buscando autopromoção e fingindo anti-machismo, também embarcaram na onda, tentando investir na tese absurda de que se pode ser feminista e mulher-objeto ao mesmo tempo.

O QUE DIZ O "ESPIRITISMO" DE CHICO XAVIER

Pois aí entra Francisco Cândido Xavier, que muitos brasileiros tão ingenuamente acreditam ter sido "progressista", suas supostas encarnações anteriores eram só "femininas", se esquecem que o "médium" tinha pontos de vista extremamente conservadores, como a defesa da ditadura militar num momento em que ela se mostrava ainda mais repressiva.

Um trecho de Emmanuel, cujos pontos de vista eram sempre corroborados por Chico Xavier, é observado no livro O Consolador, de 1941. Nele, nota-se o conteúdo machista no comentário de Emmanuel, escrito de maneira bastante irônica e reacionária, num tom não muito diferente do machismo do texto de Veja. É só ler o trecho:

"A ideologia feminista dos tempos modernos, porém, com as diversas bandeiras políticas e sociais, pode ser um veneno para a mulher desavisada dos seus grandes deveres espirituais na face da Terra. Se existe um feminismo legítimo, esse deve ser o da reeducação da mulher para o lar, nunca para uma ação contraproducente fora dele. É que os problemas femininos não poderão ser solucionados pelos códigos do homem, mas somente à luz generosa e divina do Evangelho". 

Sim, isso mesmo. Um ponto de vista machista, servido de bandeja, com as palavras originalmente escritas, para que ninguém fique acusando Chico Xavier de não ter publicado isso. Chico concordava com Emmanuel, levando em conta a provável influência espiritual deste jesuíta, o Padre Manuel da Nóbrega dos anos coloniais. Afinal, há até quem duvide da existência de Emmanuel.

O termo "feminismo legítimo" é apenas uma expressão irônica, já que ele proíbe que a mulher exerça seus "deveres espirituais" fora do lar. Em outras palavras, a mulher não pode trabalhar fora, não pode viver fora dos limites ideológicos da família - a "boa filha" que se torna a "boa esposa" se casando com um homem dotado de poder e prestígio -  , não pode sequer optar em ser solteira ou mesmo lésbica.

É lamentável que muitas pessoas consideradas esquerdistas ainda fiquem complacentes com Chico Xavier e fiquem assustadas quando pessoas reacionárias citam frases do "médium" em dado momento. Se esquecem que Chico Xavier era ultraconservador, defendeu a ditadura, era adepto da Teologia do Sofrimento e tudo o mais. É por isso que o Brasil nunca vai para a frente. Com um "progressista" como Chico Xavier, quem necessita de um reacionário?

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