Quem teria sido o "Malcolm Muggeridge" de Chico Xavier?


(Autor: Senhor dos Anéis)

Quando surgiu o mito de Chico Xavier? Estimamos a data de 1944 e o fim do caso Humberto de Campos, quando herdeiros queriam saber se era verdadeira ou não a psicografia atribuída ao falecido escritor maranhense. No entanto, não há um dado oficial, uma reportagem, uma pessoa que pudesse ter elaborado o mito que até hoje é exaltado nas mídias sociais da Internet.

Podemos inferir que Antônio Wantuil de Freitas, presidente da Federação "Espírita" Brasileira, queria relançar o mito de Francisco Cândido Xavier, "arranhado" quando o anti-médium mineiro virou réu no processo movido por herdeiros de Humberto de Campos. A possibilidade para isso se deu pelo fato de que os juristas, no contexto da Justiça da época, não entenderam a razão do processo.

O mito de Madre Teresa de Calcutá foi derrubado depois que livro e documentário de Christopher Hitchens, entre 1995 e 1997, denunciaram irregularidades da missionária. As denúncias são de impressionante pertinência, entre elas o seu entusiasmo por Ronald Reagan, presidente dos EUA que, nos anos 80, patrocinou a carnificina feita para eliminar movimentos sociais na América Central.

Associada também ao descaso contra seus próprios assistidos - ela desviava dinheiro para o Vaticano e participava de esquema de lavagem financeira de magnatas corruptos - , a missionária foi investigada também por acadêmicos de universidades canadenses, que corroboraram os dados trazidos por Hitchens.

O mito da Madre Teresa foi construído de maneira verossímil pelo jornalista inglês Malcolm Muggeridge, da BBC. A BBC não tinha cumplicidade no projeto, e apenas deu autonomia para Malcolm trabalhar à vontade na construção do mito, que foi pertinente por evocar estereótipos e estigmas de humildade e bondade tão populares na sociedade.

Já o mito de Chico Xavier deveria ser também investigado, sem qualquer tipo de complacência. Afinal, sua trajetória e seu mito foram trabalhados de maneira confusa, com graves escândalos, como a participação nas fraudes da falsa médium Otília Diogo, e declarações do anti-médium a favor da ditadura militar.

No aspecto positivo, Chico e Teresa são fortemente comparados e vistos como iguais - só para dizer um jargão e uma alegoria fantasiosa tão própria deles, "almas-gêmeas" - , mas recebem tratamento desigual quando o caso é contestá-los.

MITO DE MADRE TERESA DE CALCUTÁ FOI DESTRUÍDO A PARTIR DA LEMBRANÇA DE QUE ELA CORTEJAVA POLÍTICOS SANGUINÁRIOS, COMO RONALD REAGAN.

Chico Xavier chega a ser visto como "progressista" e "ativista" por causa de ideias que, na verdade, fazem apologia ao sofrimento humano e defendem a resignação diante do infortúnio, sem reagir com queixas. Como Madre Teresa, também defendeu a condescendência com os tiranos e exploradores e a aceitação do poder deles sem questionamentos.

Só que Madre Teresa, ao defender tudo isso, foi duramente contestada pela opinião pública do exterior, a ponto dela ser chamada de "anjo do inferno". Já Chico Xavier continua sendo uma pretensa unanimidade, juntando milhares e milhares de seguidores no Facebook, YouTube e outras mídias sociais.

Cabe investigar quem criou o mito de Chico Xavier. Podemos aqui auxiliar os pesquisadores trazendo três etapas da divulgação de sua imagem pela mídia, três fases de uma construção ideológica que transformou Chico Xavier num quase-deus, divinizando-o de maneira nunca imaginada para qualquer figura religiosa e que ao anti-médium se reservaram qualidades surreais e relatos fantasiosos.

Sabe-se que a principal etapa foi a última, em que Chico Xavier passou a ser visto como "filantropo", cuja intensificação mitológica se deu justamente depois do documentário que "inventou" Madre Teresa que, para quem não sabe, havia começado sua "filantropia" quase que na mesma época que o baiano Divaldo Franco.

1932-1944 - UM SIMPLES PARANORMAL

Os primeiros vestígios da divulgação de Chico Xavier na imprensa vieram em 1932. Nesta época, Humberto de Campos estava ainda vivo, e ele havia feito resenhas para um estranho livro de poemas intitulado Parnaso de Além-Túmulo, cujo título, evocando a palavra "parnaso", já sugeria algo antiquado, por causa de um movimento há muito fora de moda chamado Parnasianismo.

Humberto teria "reconhecido" as qualidades "mediúnicas" de Chico Xavier, mas ainda é preciso uma análise cuidadosa para verificar se esse "reconhecimento" era uma fina ironia ou um relato de boa-fé. Há indícios de que tenha sido ironia.

APOIO A FERNANDO COLLOR DADO POR CHICO XAVIER É UMA DAS PROVAS DO PERFIL CONSERVADOR DO ANTI-MÉDIUM MINEIRO.

O que se sabe é que Humberto se revoltou com a hipótese de que os livros de "autores mortos" pudessem concorrer, comercialmente, com a literatura dos autores vivos desviando a atenção dos leitores por causa da literatura supostamente sobrenatural.

Chico Xavier não teria gostado das críticas e muito provavelmente usou o nome de Humberto de Campos como uma revanche contra a resenha pouco generosa ao livro. Chico Xavier era um ávido leitor de livros e adorava imitar os estilos dos autores de seu tempo e os mais antigos.

Chico, usando um suposto sonho que teve com Humberto (Chico, às vezes, fazia relatos de sonhos, vide a "profecia" da "data-limite"), resolveu se apropriar de seu nome e prestígio para lançar livros supondo que era o "espírito Humberto de Campos" que se comunicava, embora num estilo totalmente diferente do que o alegado autor havia feito em vida.

O ápice desta fase foi o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho que poucos sabem ter sido uma encomenda do Estado Novo para dar fim à repressão policial ao "movimento espírita". Era, portanto, um trabalho ufanista que, pretensamente revelador, nada revelava e reproduzia uma abordagem da História do Brasil presente nos mais simplórios livros didáticos de então (1938).

Chico Xavier e Antônio Wantuil escreveram o livro ufanista a quatro mãos, extraíram diversos plágios aqui e ali - uma passagem do cômico livro de Humberto, O Brasil Anedótico, foi reproduzida, com as palavras e frases trocadas - e botaram tudo no crédito do autor maranhense, sob a desculpa que seu "espírito" havia se manifestado em "tão patriótica" publicação.

Ele havia lançado também outros livros atribuídos a outros autores espirituais, como Emmanuel (possivelmente sob o ditado do seu obsessor, o jesuíta Padre (Em)Manuel da Nóbrega, um dos poucos contatos realmente mediúnicos de CX), o fictício André Luiz (calcado na literatura de George Vale Owen e possivelmente com sugestões diversas, inclusive do então admirador, o adolescente Waldo Vieira), entre outros.

Emmanuel e o suposto Humberto de Campos eram os autores ditos "espirituais" mais constantes. Mas até o livro Nosso Lar, atribuído a "André Luiz", que combina arremedo de ficção científica com pregações religiosas, é anterior à entrada de Chico Xavier no banco dos réus.

Quanto a Humberto de Campos, a obsessão continuou, e Chico arrumou a "solução" do suposto espírito, magoado com o processo judicial, mudar seu nome para o pseudônimo "Irmão X", paródia do codinome Conselheiro XX que Humberto havia lançado em vida.

1944-1975 - O "PORTA-VOZ DOS MORTOS"

Depois que o julgamento de Chico Xavier não deu em coisa alguma e até permitiu que ele e Wantuil escrevessem juntos uma carta atribuindo a Humberto de Campos - supostamente magoado com seus herdeiros - , eles combinaram levar adiante a mitificação de Chico Xavier, transformando-o num corajoso "porta-voz dos mortos", numa espécie de "carteiro de Deus", como o anti-médium se definiu.

Se apropriando de "novos espíritos", ele passou a usar vários anônimos. Um deles foi a jovem Irma de Castro Rocha, a Meimei, falecida prematuramente em 1946 por grave doença, e atraiu o viúvo da moça, Arnaldo Rocha, que com ela viveu em Belo Horizonte, para ser um dos palestrantes "espíritas" de Minas Gerais. Do contrário dos demais anônimos, reservados às cartas, Meimei era reservada aos livros, seja como "autoria solo" seja em publicações "coletivas".

Arnaldo, falecido em 2012, participava de alguns rituais de suposta materialização de espíritos e suposta psicofonia de Chico Xavier, um "dom" estranhamente pouco difundido. Num dos supostos rituais de materialização, foi montada uma maquete iluminada em luz neon, com o "manequim vestido como se fosse o Cristo Redentor, com uma imagem impressa do desenho do rosto de Emmanuel - hoje disponível na Internet - colada na cabeça do boneco.

Uma voz em off, dada por um locutor escondido nos bastidores, que falava em um microfone para os autofalantes de um "centro espírita", pedia para Chico Xavier parar com essas práticas, dizendo que as materializações iriam causar problemas futuros e que a missão de Chico eram apenas os livros.

Apesar disso, Chico continuou apoiando fraudes de materialização, assinando atestados de pretensa legitimação e, no caso mais grave, o da farsante ilusionista Otília Diogo, o anti-médium aparecia alegremente nos bastidores, conversando com Waldo Vieira e outros que prepararam o espetáculo, denunciado pela revista O Cruzeiro em 1970.

Paralelamente a esses incidentes, como também das cartas atribuídas a pessoas comuns falecidas, havia a crise do roustanguismo no "movimento espírita", que se tornava aguda sobretudo quando esta orientação era defendida por uma direção altamente centralizada da FEB, por Francisco Thiesen e seu parceiro Luciano dos Anjos.

Era a época em que Chico Xavier, pouco após o desfecho do caso Otília Diogo, ganhou entrevista no programa Pinga-Fogo (TV Tupi de São Paulo) e Antônio Wantuil de Freitas se retirou de cena, doente, para morrer em 1974.

Para reagir ao centralismo da FEB abertamente roustanguista, as federações regionais adotaram uma postura, tendenciosa e falsa, de suposta fidelidade a Allan Kardec, recurso feito para evitar que vários líderes "espíritas" fossem prejudicados com o desgaste da reputação de Jean-Baptiste Roustaing no Brasil.

1975-ATUALMENTE: O "FILANTROPO"

Com a ascensão dos pseudo-kardecianos, que contaram com a adesão de Chico Xavier e Divaldo Franco, o "movimento espírita" tornou-se uma "lavagem de porco" doutrinária, misturando arremedos de cientificismo com pregações místicas e religiosas das mais pretensiosas.

Chico Xavier continuava como "médium escrevente", há muito tendo deixado de lado a pouco convincente "psicofonia" e tendo abandonado as fraudes de materialização. Concentrava seus trabalhos nos livros e na divulgação de cartas, fazendo o "serviço" de atender famílias diversas e celebridades.

O mito passou a ser associado à "filantropia" de divulgar mensagens de pessoas mortas, em maioria jovens, como suposta prova de vida espiritual e um meio não só de "tranquilizar" os entes que deixaram, mas também atrai-los para o "movimento espírita", por meio das doutrinárias e outras atividades nos "centros".

Sem Wantuil, Chico tentava atrair para si o amigo José Herculano Pires (honesto seguidor do pensamento de Allan Kardec), o que confundiu os chiquistas quanto ao vínculo de Xavier com o pensamento kardeciano. Sabe-se que Herculano Pires, juntamente com seus colaboradores, são responsáveis pela tradução mais correta da obra de Allan Kardec para a língua portuguesa.

Depois da dúbia relação com os Diários Associados - O Cruzeiro agindo contra, a TV Tupi a favor - , Chico Xavier começou a ser retrabalhado pelos noticiários de TV, em especial a Rede Globo de Televisão, cuja corporação, as Organizações Globo, deixou para trás a hostilidade que sentia para o anti-médium.

Com isso, reportagens passaram a supor uma pretensa militância humanista de Chico Xavier, trabalhado da mesma forma que Malcolm Muggeridge da BBC, provavelmente a partir do final dos anos 1970. A filantropia era vaga e confusa, já que as doações em dinheiro dadas por CX e as casas por ele assistidas não eram mencionadas de forma clara, mas de maneira vaga e genérica.

Chico Xavier continuava conservador, a ponto de ter apoiado o candidato à Presidência da República, Fernando Collor, em 1989. Apesar de condicionado, o apoio acabou rendendo uma sorte grande a Collor, como se este tivesse sido um protegido de Emmanuel. Apesar desse pano-de-fundo direitista, Chico Xavier ainda é visto equivocadamente como "progressista" até por setores das esquerdas.

Mesmo assim, a "mediunidade" das supostas "cartas espirituais" tentava ser trabalhada, pela mídia, como a "maior caridade" de Chico Xavier. Era uma forma de transformá-lo num "mensageiro da paz", num pretenso "humanista" e até o recurso de "frases de sabedoria" atribuídas a Madre Teresa passaram a ser também a "qualidade" do anti-médium mineiro.

Nos últimos tempos, a "filantropia" foi acrescida de qualidades surreais, como a atribuição de falsos pioneirismos científicos e supostas profecias, além de seus seguidores verem (erroneamente) Chico como um "filósofo" e "ativista", dando um verniz mais "substancial" para a devoção e divinização do anti-médium, que continua bastante intensa nas mídias sociais. Reflexo de um Brasil ainda muito, muito conservador.

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