A fidelidade ideológica nas psicografias

(Autor: Senhor dos Anéis)

Suponhamos a seguinte situação. Um jovem de classe média de São Paulo curte punk rock e é um fã entusiasmado dos Ramones. Mas, dotado de uma sensibilidade mediúnica, passa a sentir a presença espiritual de dos dois integrantes originais da banda, o vocalista Joey Ramone e o baixista Dee Dee, por conta da afinidade de ideias.

O jovem médium estabelece contato com eles e, manifestando vontade de fundar sua própria banda junto a uns três colegas, recebe dos dois espíritos a proposta de uma canção inédita, na qual o jovem se oferecerá para que eles pudessem "escrever" as letras e músicas.

Digamos que esses espíritos sejam mesmo os dos dois antigos membros dos Ramones. E que o resultado da contribuição mediúnica condiz com as caligrafias originais que Joey e Dee Dee escreviam em suas vidas. Mas, num contexto como o do "espiritismo à brasileira", até que ponto essa mediunidade pode ser viável? Até como fará sentido uma coisa dessas?

Vamos levar em conta, nesse caso fictício, de que a letra em questão não se relaciona em momento algum com a temática utilitarista de "fé, amor e caridade" que as mensagens supostamente espirituais necessariamente investem, como que numa expressão monotemática que soaria estranha para espíritos não só como Joey e Dee Dee, mas também para tantos outros, de Vinícius de Moraes a Ronnie James Dio, passando por Jimi Hendrix, Renato Russo ou mesmo John Lennon.

Então, no contexto brasileiro, isso se consiste num problema, porque, de acordo com o "espiritismo" brasileiro, com suas diretrizes de ranço católico ditadas pela FEB, letras psicografadas que falem apenas de temas "comezinhos" como os que os Ramones gravaram aqui na vida terrena, na melhor das hipóteses, são "perda de tempo".

Para a FEB, o que deve haver são letras "psicografadas" que sejam monotemáticas, panfletos do além sobre as necessidades "fraternais" do espiritolicismo, podendo ser recados de moralismo mais retrógrado desde que sintonizados com as "leis do amor fraterno". Não vale Vinícius de Moraes chegar com um poema de amor sensual. É "inútil" para o "pragmatismo" mediúnico.

Falta de critérios científicos

Em compensação, a mediunidade, mesmo com esse rigor "religioso", tornou-se não apenas uma "brincadeira", mas também um festival de fraudes e embustes em que espíritos inferiores se aproveitam para jogar com a boa-fé dos que buscam algum lugar ao sol pela fé religiosa.

Se na própria adaptação da doutrina espírita no Brasil, foram jogados fora o método e as preciosas lições do professor Allan Kardec, em prol de um delirante e risível misticismo medieval do "doutor" Roustaing, na mediunidade isso influiu de forma ainda mais desastrosa, sobretudo guiada pela ingenuidade e submissão (aos barões da FEB) do caipira mineiro Chico Xavier.

Ignorando Kardec - reduzido a uma figura a receber bajulações viscosas e hipócritas - , ignora-se todo o processo científico da mediunidade, que envolve conceitos de magnetismo do alemão Franz Anton Mesmer e outros conhecimentos ligados à Psicologia e até à Antropologia, já que se tratam de espíritos de humanos, o que diz muito nas relações entre antropologia e espiritualidade.

Kardec era muito mais identificado ao contexto científico da época, em que se projetaram, na França do último quartel do século XVIII ao decorrer do século XIX, diversas correntes do pensamento técnico, filosófico e científico que transformaram a humanidade.

O "espiritismo" de Jean-Baptiste Roustaing, todavia, ignorou essa vocação científica e investiu num misticismo anacrônico oriundo do catolicismo medieval, em que, introduzido no Brasil pela FEB depois do fracasso da deturpação da doutrina kardequiana na própria França, levou o "espiritismo" brasileiro levar tal deturpação às últimas consequências.

Daí o ato dos passes mediúnicos que, sem a pesquisa dos conceitos de Mesmer, se reduz a um mero ato de sacudir as mãos nas cabeças das pessoas. Sem a pesquisa científica e o espírito observador, a mediunidade também se transforma numa valsa do fantasma doido, banalizando a simples intenção da comunicação com os finados.

Há espíritos zombeteiros que se transformam em entes queridos e ditam romances mediúnicos da mais enjoada pieguice. Há pessoas na Terra que escrevem romances de ficção e atribuem a falsos espíritos que só existem na sua imaginação. E há até mesmo obras lamentáveis como um romance, felizmente condenado ao esquecimento, em que um feminicida, um homem que matou a própria esposa, era descrito como um "coitadinho"...

Isso sem falar de supostas celebridades escrevendo romances espiritualistas. Houve de tudo: suposto Olavo Bilac escrevendo poemas pseudo-rebuscados sem a habitual técnica do poeta parnasiano. Houve um suposto Eça de Queiroz escrevendo sobre um suposto espírito de Getúlio Vargas.

Houve até um suposto Juscelino Kubitschek, narrando igualzinho ao ex-presidente, que "disse sem hesitar" num discurso em Jataí que construiria Brasília, quando os fatos históricos mostram completamente o contrário.

Isso sem falar do ambicioso livro "Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" cuja narrativa é de uma infantilidade que nem mesmo os desenhos do Meu Pequeno Pônei conseguem ter. E, pasmem, é definido oficialmente pelo "iluminado espiritismo brasileiro" como um "documento sério" de predestinação histórica da nação brasileira.

Daí a insegurança de um brasileiro exercer sua mediunidade. Ela está desmoralizada diante dos rumos que o espiritismo nas mãos da FEB sucumbiu. Em nome de uma suposta finalidade de ajudar as pessoas, cria-se uma verdadeira bagunça, em que a falsidade ideológica encontra fértil terreno para seduzir e iludir as pessoas, sobretudo as mais sofredoras nas amarguras da vida.

Se desconfia-se de que Chico Xavier não teria psicografado considerável parte de seus livros (era impossível uma personalidade como ele, praticamente um pop star, lançar mais de dez livros (!) em apenas um ano), ou que a mensagem atribuída a Marilyn Monroe não teria partido da saudosa atriz, então a coisa está séria.

Como o jovem fã de punk rock, num contexto social e psicológico bem diferente do melífluo cenário espiritólico, vai poder psicografar uma parceria entre Joey e Dee Dee Ramone? A mensagem terá que ser "espiritualista"? E se não tiver?

Será preferível entrar em contradição com a obra terrena em favor de uma "mensagem de amor"? Ou será preferível a "inutilidade" dos assuntos comuns para se manter fiel à expressão deixada entre nós? O segundo caso parece mais coerente, mas foge aos ditames místico-religiosos do espiritolicismo. Mediunidade, no Brasil, é mais um problema do que um ato de amor, fé e caridade.

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OBS de Kardec McGuiver: Kardec falou que a identificação de autoria das mensagens dos espíritos raramente pode ser comprovada com exatidão e quando isso ocorre, deve se observar o conteúdo das mensagens e compará-lo com as ideias defendidas em vida pelo suposto autor.

Mas não é isso que acontece, pois vemos muitas mensagens piegas e de conteúdo dogmático sob as denominações de gente famosa que nada tem a ver com o conteúdo as mensagens atribuídas, e muitas vezes sem o nível de qualidade comum aos que o suposto autor fazia. 

Em muitos casos, o nome do famoso é utilizado para dar pompa a essas mensagens, para atrair interesse pelo livro. E pior: muitos desses nem psicografados são, embora a maioria seja ditada por espíritos zombeteiros, já que existe picaretas do lado de lá, também.

O certo é que a dúvida é o melhor preventivo para evitarmos sermos enganados por desencarnados e encarnados interessados em lucrar usando a nossa ingenuidade.

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