Quando O Cruzeiro sentiu Muggeridge antes da Rede Globo

É verdade que o mito "filantrópico" de Francisco Cândido Xavier já era trabalhado desde cedo, mas ele se tornou mais explícito ao longo dos anos, sobretudo para abafar casos de deturpação doutrinária em relação ao pensamento kardeciano quanto casos de fraudes em atividades ditas "mediúnicas".

É verdade, também, que o grosso dessa campanha em promover Chico Xavier como "ícone da caridade" se deu no final dos anos 1970, através das Organizações Globo, por inspiração no documentário da BBC sobre Madre Teresa de Calcutá feito por Malcolm Muggeridge, Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de 1969.

Mas observa-se que, de maneira relativa, a sombra de Malcolm Muggeridge e a "luz" que ele acreditava ser da força de Deus e não das poderosas máquinas da Kodak, foi incorporada pelos Diários Associados sob o respaldo da Federação "Espírita" Brasileira já meses depois de Chico Xavier ter dado entrevista no programa Pinga Fogo, da TV Tupi de São Paulo.

É o que se nota nessas duas páginas publicadas pela revista O Cruzeiro, a partir de 10 de novembro de 1971, a revista que costumava bater pesado no "médium", e um ano antes havia feito reportagem desmascarando a farsante Otília Diogo, que fazia pseudo-materializações como "irmã Josefa" e outros, depois que um material contendo os referidos disfarces foi encontrado. Os repórteres de O Cruzeiro chegaram a receber ameaças de "espíritas" mineiros, pelas denúncias divulgadas.

Geralmente a TV Tupi é mais generosa com Chico Xavier do que o frequentemente desconfiado O Cruzeiro, o que é curioso diante dessas posturas de veículos dos Diários Associados. E aqui se vê a publicação de duas das edições em que o "colaborador" Chico Xavier transmite mensagens "edificantes", dentro daquele igrejismo devotado que conhecemos.

Tudo isso é reflexo do mito de Madre Teresa de Calcutá, que o imaginário religioso brasileiro cultua e buscava ter um equivalente próprio. E aí veio o farsante Chico Xavier, plagiador de trechos de obras literárias, criador de pastiches estilísticos cercado de uma plêiade de editores da FEB e consultores literários a serviço da federação, bancar o "filantropo" como exímio mercador de palavras bonitinhas, um grande vendilhão das "boas palavras".

No texto de 24 de novembro, ainda tem uma foto com Chico Xavier carregando um bebê no colo, um apelo conhecido da campanha publicitária da Madre Teresa. Isso é um recurso para manipular e sensibilizar as pessoas, algo típico das campanhas políticas, mas como o Brasil se apega ao deslumbramento religioso, fica por isso mesmo.

Chico Xavier publica vários textos ditados pelo seu tirânico mentor, o jesuíta Emmanuel, mas adota as identidades de outros espíritos, ilustres ou amigos. Nota-se que ele chegou a usar o nome de Cornélio Pires, conhecido contador de causos e compositor caipira, que havia sido tio de José Herculano Pires, um dos que combatiam a deturpação "espírita" e que, dentro do lema "amigos, amigos, negócios à parte", era amigo do anti-médium mineiro.

As mensagens não tem lá muita serventia. Sempre apelos para se ter calma, se conformar com a vida que leva e esperar ajuda do "Alto". Mensagens inúteis em prol da resignação com tudo, da servidão, do infortúnio e da vida "qualquer nota". Para alguém como Chico Xavier, defensor entusiasmado da Teologia do Sofrimento, apelar para o conformismo dos sofredores é uma grande habilidade.

São falsos ensinamentos que O Cruzeiro, neste momento infeliz, definiu como "verdades eternas". Sim, são "verdades eternas" de quem plagiou livros e fez pastiches literários, mas que, com o apoio da grande mídia virou "símbolo de amor e bondade". Temos nossa "Madre Teresa de Calcutá", agora falta surgir um Christopher Hitchens.

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