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Você canonizaria Antônio Wantuil de Freitas e Roberto Marinho?

(Autor: Eusébio Nogueira, via e-mail)

Suponhamos que você seja um seguidor extremado de Francisco Cândido Xavier e, por isso, se incomoda com o menor questionamento feito a ele, sentindo profundo mal-estar, por acreditar no "médium" mineiro como a forma materializada de "bondade", "caridade" e "perfeição humana".

Aí, fazemos uma pergunta bastante desafiadora: você iria canonizar o antigo dirigente "espírita", Antônio Wantuil de Freitas, que foi presidente da Federação "Espírita" Brasileira, e o empresário Roberto Marinho, que havia comandado as Organizações Globo durante décadas?

Aí você responde com outra pergunta: "O que Wantuil de Freitas e Roberto Marinho têm a ver com Chico Xavier?", como se sentisse enrolado com um questionamento complexo "sem relação aparente" com um ícone associado à "bondade", à "caridade" e à "paz".

Respondemos, então, prontamente: "Tudo". Se fizermos uma análise de fatos verídicos, veremos que os dois, em separado, contribuíram para desenvolver o mito de Chico Xavier que você (no caso, o chiquista apaixonado) tanto aprecia como se fosse "sinônimo de perfeição e amor ao próximo".

Voltamos a 1932. Chico Xavier, um jovem funcionário público, lança um livro esquisito de poemas de supostos autores espirituais. intitulado Parnaso de Além-Túmulo, no qual se observa "autores" fugindo de seus estilos pessoais.

Por exemplo, vemos um "Olavo Bilac" que, com todo o "discurso ufanista" que apelava para a ideia do Brasil como "coração do mundo" e "pátria do Evangelho", perdeu o seu famosíssimo esmero de construção métrica dos versos.

Nota-se um "Casimiro de Abreu" e um "Castro Alves" caricatos, e um "Augusto dos Anjos" parecendo "Antero de Quental", e uma "Auta de Souza" que deixava seu lirismo meigo de jovem poetisa de lado para "fazer versos" à maneira de Chico Xavier. E todos eles "levantando" as mesmas bandeiras moralistas e igrejistas do "médium" mineiro.

Era como se os falecidos não falassem por intermédio de Chico Xavier, mas ele é que falasse por meio de outros nomes mais ilustres, como se o ultraconservadorismo católico do "médium" mineiro pudesse ser compartilhado aqui e ali por qualquer um.

EXÓTICO CATÓLICO PARANORMAL

Curiosamente, dentro das polêmicas de Parnaso de Além-Túmulo, reforçadas pela resenha irônica de Humberto de Campos, que pouco depois faleceu e foi "sequestrado" por Chico Xavier - que passou a dar outro estilo para o "espírito Humberto", para se vingar de tal artigo - , O Globo fazia uma abordagem morna sobre o suposto médium.

Por volta de 1935, O Globo - que mostrou uma imagem surpreendentemente assustadora do "médium", olhando de frente para a câmera, mostrando um semblante pesado num sorriso traiçoeiro - trabalhava Chico Xavier como um pitoresco católico dotado de paranormalidade. Nada do "filantropo" que conhecemos, mas um exótico católico paranormal, um indivíduo que dizia "falar com os mortos".

Nessa época, enquanto havia a estranha reedição de Parnaso de Além-Túmulo - uma "obra acabada da espiritualidade superior" que fez vários reparos em duas décadas - , Chico Xavier havia inventado um sonho com Humberto de Campos para justificar a sua apropriação sobre o escritor maranhense, que "deixaria de lado" seu estilo pessoal e "voltaria" escrevendo como se fosse um padre, com qualidade literária considerada inferior ao que o escritor havia produzido em vida.

Isso tudo revelava irregularidades que causaram indignação por parte dos críticos literários. A revolta era tanta que muitos escritores começaram a chamar Chico Xavier de charlatão e oportunista, enquanto outros apenas se abstiveram em dizer se a "mediunidade" era verdadeira ou não. Nenhum literato declarou ser autêntica a "psicografia" de Chico Xavier, embora o "movimento espírita" usasse as abstenções de forma tendenciosa, em favor de tal hipótese.

Claro, essa tese absurda de confundir o "nem sim nem não" com o "sim", como se não negar fosse necessariamente o mesmo que afirmar, Chico Xavier passou a ser um mito trabalhado pelo presidente da Federação "Espírita" Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, de maneira engenhosa.

Chico e Wantuil enfrentaram os tribunais por causa do processo movido pelos herdeiros de Humberto de Campos, no qual tiveram a sorte de ver os juízes não entendendo a petição - que pedia para a Justiça analisar as "psicografias" de Chico Xavier que usavam o nome do falecido escritor - e ainda sendo intimidados pela "imagem bondosa" do "caipira humilde", num contexto em que o Brasil era escancaradamente religioso e a Justiça bem mais desigual e movida pelas aparências do que hoje.

Livres por causa de um empate jurídico, que se não autenticou a "psicografia" também não condenou os infratores, Chico e Wantuil passaram a ser parceiros de uma campanha midiática da FEB, que fez o "médium" mineiro, potencial vendedor de best sellers literários da entidade, ser trabalhado como "mensageiro da paz" através de seus dons mediúnicos, bem mais limitados do que se diz serem.

PRETENSO "SUPER-MÉDIUM"

Com publicações levianas como o livro poético - que ainda levaria dez anos para elaboração de sua sexta e definitiva edição, de 1945 a 1955 - , da obra do suposto "Humberto de Campos" (renomeado "Irmão X") e das pegações moralistas ditadas pelo jesuíta Emmanuel (padre Manuel da Nóbrega), das quais há até ironias com o movimento feminista, Chico Xavier, que apenas "falava" com alguns entes falecidos e escrevia obras ditadas por alguns deles, foi promovido a "super-médium".

Só que Chico Xavier fez afastarem-se os bons espíritos que poderiam ver nele um canal para a comunicação do além. Como Chico passou a fazer falsas psicografias, cometendo plágios e pastiches literários aqui e ali, ele fez sua limitada mediunidade perder boa parte do respaldo das almas benfeitoras, constrangidas com as desonestidades que o mineiro fazia.

Daí que a tendenciosa imagem de "super-médium", que não fazia só psicografia nem apenas evocava "personalidades ilustres", mas também psicofonia, além de difundir conhecimentos supostamente científicos através de livros como Novas Mensagens (1939), Nosso Lar (1943), Missionários da Luz (1945) e Nos Domínios da Mediunidade (1955), nunca passou de uma farsa publicitária.

Wantuil de Freitas construiu o mito de Chico Xavier nesse sentido, visando fortalecer a venda dos livros para enriquecer os cofres da FEB, aumentar o poder da instituição - que depois entrou em conflito com federações regionais - e os privilégios de seus líderes e astros sob a desculpa do "pão para os pobres".

É claro que o método Wantuil era confuso e enfrentou escândalos diversos, além da fúria dos críticos literários que publicaram ou ameaçaram publicar artigos e livros revelando a farsa de Chico Xavier. De repente, um certo dia, Wantuil teria se simpatizado com a umbanda, como denunciou recentemente o blogue O Franco Paladino (nada a ver com Divaldo Franco), e possivelmente ter feito algum "despacho" para "abrir o caminho" para Chico Xavier.

A reboque disso, a FEB ainda teria cometido uma provável "queima de arquivo", eliminando o sobrinho de Chico Xavier, Amauri Pena, que iria denunciar as fraudes "mediúnicas" feitas, o que poderia derrubar a federação mais uma vez.

Wantuil era roustanguista convicto, e sempre demonstrou a preferência por Jean Baptiste Roustaing, autor de Os Quatro Evangelhos - que fazia de seu subtítulo um lema, "A Revelação da Revelação" - e, nos últimos anos, esta postura teve seu auge até depois dele deixar a presidência da FEB, no começo da década de 1970.

Saindo de cena Wantuil, o roustanguismo acirrou sua crise com a denúncia de que a FEESP, federação regional paulista, tramava uma tradução mais perniciosa que a da FEB da obra de Kardec, "roustanguizando" os livros kardecianos. Junta-se a isso as crises internas da federação brasileira, ascendeu-se uma nova postura, antes de atuação mais latente, a postura "dúbia", que Carlos Imbassahy, o pai, denunciava sob o rótulo tendencioso de "kardecistas autênticos".

Segundo Imbassahy, era uma forma de antigos roustanguistas sobreviverem às crises internas da FEB e darem ouvidos às federações regionais, marginalizadas pela alta cúpula da FEB. A escolha pela suposta fidelidade a Allan Kardec pelos "espíritas autênticos" não era uma ruptura real com o roustanguismo, mas antes uma postura oportunista, a do "roustanguismo sem Roustaing" e com doses de pseudociência.

Esta é a postura que vale atualmente no "movimento espírita", e que surgiu em 1975, um ano após a morte de Wantuil e com a crise que assolava os Diários Associados, maior divulgador de Chico Xavier no país, através da TV Tupi.

Se observava a debilidade econômica dos Diários Associados, que tiveram que diminuir seu espólio, deixando a revista O Cruzeiro morrer aos poucos (mas, em 1975, ela mudava sua linha editorial e estética para bem distante dos tempos áureos) e acabando com a TV Tupi, vendendo o que podia vender de afiliadas (como a TV Itapoan, de Salvador, e a TV Itacolomi, de Belo Horizonte).

Por isso, a FEB resolveu apelar para a Rede Globo de Televisão para relançar o mito de Chico Xavier sem mais a sombra do seu mentor terreno, Wantuil. E a Globo teve a ideia de usar como fonte o documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de Malcolm Muggeridge, produzido em 1969 sobre Madre Teresa de Calcutá.

O documentário tinha todos os ingredientes, que combinavam sensacionalismo midiático e deslumbramento religioso, de trabalhar um mito associado à "caridade". Madre Teresa aparecia passando a mão nas cabeças dos doentes, carregando bebês no colo, falando com velhos enfermos, sendo acolhida pela multidão, dizendo frases de efeito.

Tudo isso foi trabalhado para Chico Xavier, relançando um mito que, durante a Era Wantuil, era trabalhado de maneira confusa, em muitos casos mais pitoresca e, por isso, causando mais controvérsia do que deslumbramento.

Com o trabalho "limpo" de Muggeridge, implantado pelo jornalismo manipulador da Rede Globo - emissora que era favorecida na época e que havia se tornado um mito durante a ditadura militar - , recriou-se o mito de Chico Xavier nos mesmos moldes que Madre Teresa de Calcutá, com todos os recursos publicitários imagináveis.

Por isso, antes de Fernando Collor e do "funk carioca", dois subprodutos das Organizações Globo, o mito de Chico Xavier, inventado por Antônio Wantuil de Freitas, foi reinventado por Roberto Marinho, trabalhando todos os ingredientes anteriores, mas dando ênfase ao verniz de "filantropia" que fascina as pessoas.

Daí que Wantuil inventou Chico Xavier, fez seu mito se fortalecer às custas de muita polêmica e persuasão. Mas foi a Rede Globo que fez as pessoas dormirem tranquilas ao desenhar o mito do "médium" brasileiro sob o aparato da "bondade", da "humildade", do "amor" e da "caridade".

Resta saber se Antônio Wantuil de Freitas e Roberto Marinho também merecem ser santificados por tudo isso.

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