O preço caro da "gratuidade espírita"

(Autor: Professor Caviar)

O "movimento espírita" tem uma economia estranha. Cria um "modesto" comércio das "boas mensagens", com seminários, produção de livros e outros produtos (como filmes, por exemplo). Em muitos casos, esses produtos passam a se tornar gratuitos sob o pretexto de espalhar a "boa palavra" fazendo jus ao rótulo de "religião da bondade".

Um dos principais mitos do "espiritismo" brasileiro é que ninguém cobra coisa alguma para atender as pessoas. À primeira vista, isso parece ser um diferencial em relação às demais religiões. Mas não é bem assim. O "espiritismo" brasileiro cria uma fachada de "gratuidade", porque sabe que tem outros meios de obter dinheiro, numa sutileza e astúcia que os "espíritas" se esforçam em dissimular.

Francisco Cândido Xavier, em tese, não cobrava para atender as pessoas. Aparentemente, tudo era de graça, era só a pessoa recorrer e era atendida sem que um tostão fosse cobrado do "cliente". Só que sabemos que essa religião mistificadora estabelece outros preços caros para as pessoas, vide, por exemplo, a Teologia do Sofrimento e a própria má energia inerente às contradições e confusões praticadas pela doutrina brasileira, distante do seu alegado mestre, Allan Kardec.

Outro mito que cerca Chico Xavier é que ele doava dinheiro das vendas de seus livros "para a caridade". E, além disso, aparentemente ele recusava receber cachê por qualquer coisa. Seus seguidores caem em delírio, porque acham que o simples ato de recusar cachê é "caridade", mas a verdade é que o simples fato de recusar alguma remuneração não representa, por si só, generosidade.

Chico Xavier já vivia um conforto surpreendente e era cortejado pelas elites. A exemplo de Madre Teresa de Calcutá, investigada pelo hoje falecido jornalista inglês Christopher Hitchens. Chico Xavier cortejava aristocratas (o mesmo ocorre com Divaldo Franco, bajulador de poderosos em suas palestras solenes). Além disso, assim como se denuncia que a freira arrecadou dinheiro para os cofres do Vaticano, indícios mostram que Chico Xavier enriqueceu a Federação "Espírita" Brasileira.

COMO OS "ESPÍRITAS" ARRECADAM DINHEIRO?

O "espiritismo" brasileiro já causa estranheza ao se proclamar a "religião da bondade". Pelo menos é o que a doutrina brasileira demonstra em sua retórica. Mas bondade não tem religião. E é muito estranho que a seita mistificadora busque desenvolver uma roupagem de aparente gratuidade e despretensão.

Se os atendimentos são "gratuitos" - embora, sabemos, que os chamados "tratamentos espirituais" são verdadeiras armadilhas, porque, em vez de resolverem dificuldades, trazem azar para os "beneficiados" - , outros meios de arrecadação são feitos para fazer a festa financeira dos dirigentes "espíritas", dos seus membros mais chegados e dos ídolos de sua doutrina.

Há a produção em quantidades industriais de livros, em sua maioria de auto-ajuda travestido de "filosofia espírita", mistificação fantasiada de "ciência" e dramalhões moralistas travestidos de "romances espíritas". A alegação de suposta autoria espiritual garante o sensacionalismo das obras "produzidas do além",  pois a "literatura dos falecidos" atraem mais consumidores.

Outras formas de arrecadação são os carnês que "ninguém é obrigado a pagar", os seminários que cobram taxas elevadas de inscrição - e que, por isso, serve para os "espíritas" se manterem em "boa conta" entre as elites - e a criação de outros produtos, como filmes, jornais e revistas, e ganchos como reportagens de televisão que chamam mais público.

Há casos em que existem também brechós e feiras, ou então quermesses e outras festas, em que o dinheiro é também arrecadado, mesmo através de venda de alimentos ou de outros tipos de produtos, como roupas, artesanato etc. E há também os leilões de quadros supostamente espirituais, que, embora não reflitam o estilo dos autores espirituais alegados - eles só expressam o estilo do "médium" - são vendidos como "relíquias" pela alardeada "autoria do espírito do além".

Isso garante a renda que as entidades "espíritas", a partir da própria FEB - cuja antiga sede, hoje principal filial, no endereço carioca da Av. Passos, é chamada pelos críticos da deturpação de "Vaticano espírita" - , também são beneficiadas pela isenção fiscal, já que, como entidades consideradas filantrópicas, ficam dispensadas pela lei de pagar impostos.

"ESMOLA QUANDO É MUITA..."

Um aspecto completamente estranho do "movimento espírita" é que, quando há uma enorme arrecadação de dinheiro e donativos, os palestrantes ficam comemorando demais. O entusiasmo é exagerado, ou, como se diz, "a alegria é maior que a festa".

"Que bom que vocês todos colaboram! O pão dos pobres está garantido! Ficamos felizes com a arrecadação recorde que tivemos, sinal de que vocês se preocupam muito com a caridade! Deus os abençoará sempre e vocês mantiveram a sintonia com Jesus, com esse ato de amor", é o comentário mais típico para essa situação, e todos ficam felizes e vão dormir tranquilos.

Só que existe um ditado popular que diz: "Esmola quando é muita, o santo desconfia". Será que os dirigentes religiosos e seus palestrantes ficam realmente muito felizes porque o muito que arrecadam não ficará nas mãos deles, mas serão doadas para os necessitados?

É muito estranho que religiosos fiquem entusiasmados e festejem eufóricos porque a grana e os muitos donativos irão para os pobres. Ninguém comemora assim ao ver, por exemplo, que uma grande soma de dinheiro vai para o "pão dos pobres".

É uma questão de lógica. Quem realmente ajuda as pessoas e transfere o dinheiro que lucra para isso é sempre discretíssimo na sua tarefa. Ajuda sem querer comemorar demais. Se existe uma comemoração excessiva porque grande soma de dinheiro está, em tese, destinada ao "pão dos pobres", é porque existe algo muito suspeito.

Geralmente, quando comemorações exageradas acontecem, é porque as membros das entidades "espíritas" vão abocanhar uma boa parte da fatia dessa "caridade" para seus patrimônios pessoais. É isso que está em jogo quando há muita vaidade, quando as pessoas festejam demais, só faltando abrir o champanhe para celebrar o "imenso valor" que será depositado "para o pão dos pobres".

Daí que existem mecanismos diversos para dissimular a farra financeira dos "espíritas". Se colar às elites, conforme vemos, no caso de Divaldo Franco e José Medrado, é um habilidoso artifício. Vide Madre Teresa de Calcutá viajando com magnatas e ditadores. E mostra o quanto o "espiritismo", na hora do aperto, escolhe de que lado está: dos ricos e remediados. Enquanto isso, os pobres têm que ficar orando em silêncio não para receber o "pão", mas simplesmente "bênçãos".

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