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Recusar cachê não é necessariamente fazer caridade

(Autor: Professor Caviar)

As pessoas veem a ideia de "bondade" e "caridade" de forma estereotipada. Não avaliam os resultados, não questionam os métodos, não percebem os mecanismos, e deixam se levar pelo âmbito das aparências, dos clichês e mitos.

Daí o apego e a obsessão dos seguidores de Chico Xavier ao seu ídolo. A adoração doentia do anti-médium mineiro faz seus seguidores acreditarem numa ideia estereotipada de "caridade" que nada traz de muito transformador, uma "bondade" que praticamente não ameaça o sistema de desigualdades, injustiças e privilégios.

Um dos mitos que favorecem a defesa de Chico Xavier é a de que ele nunca cobrou coisa alguma e que aparentemente nunca teria recebido um níquel dos lucros de seus livros.

Isso cria um mito de que o "movimento espírita" sempre foi marcado pela generosidade e pela doação gratuita de seus trabalhos. Mas não é bem assim. Por trás dessa aparência maravilhosa, o "mundo encantado do Espiritismo" estabelece outras fontes de renda, e não é por acaso que Chico Xavier está associado a uma quantidade insólita de livros que levam o seu nome, mas que nem todos tiveram sequer a sua contribuição. Mas isso é para outra análise.

Aqui o foco é questionar se recusar cachê é uma "caridade". Consideramos que não. O dinheiro apenas não cai na mão do renunciante. Pensando a coisa de maneira filosófica, não pode ser caridade, mesmo. E podemos argumentar por quê.

Imagine. Uma pessoa recusa receber o dinheiro resultante de algum faturamento. Ela então não tem o dinheiro, certo. Se não tem, ela não pode doar. Não doando, não faz caridade. Pode parecer doloroso e muitos podem desmentir dizendo que a "caridade" saiu antecipada. Mas ela não pode ser caridade se a pessoa simplesmente recusa a receber.

Há apenas um ou outro caso que pode haver uma intenção generosa, mas não se viu isso em Chico Xavier. Ele era o astro pop do "movimento espírita", ele era o Michael Jackson da FEB! A tão alardeada "bondade" associada a Chico Xavier é uma fantasia na qual as pessoas não conseguem explicar nem detalhar com clareza. 

Chico ajudou mesmo em quê? Ele transformou vidas? A verdade é que a "caridade" de Chico Xavier sempre foi nebulosa. Como Madre Teresa de Calcutá, revelada depois o "anjo do inferno" porque deixava os doentes morrerem, mal alimentados, sujos, expostos uns ao contágio e infecção de outros, remediados com aspirina ou paracetamol e recebendo injeção de seringas reutilizadas e "lavadas" com água de torneira, geralmente com algum nível de poluição e presença de micróbios nocivos.

Chico Xavier era tão adepto da Teologia do Sofrimento que Madre Teresa de Calcutá. Os fanáticos adaptos do "médium" afirmam que ele era "ativista" ao pregar o "sofrimento em silêncio" e "progressista" ao pedir às pessoas para suportar desgraças "sem queixumes". Grande e vergonhoso equívoco, mas compreensível: os chiquistas pensam com o coração, não com o cérebro, que pelo jeito lhes parece pouco operante.

Daí que Chico Xavier não iria mesmo transformar as vidas das pessoas. Que transformação ele fez? Criar mensagens igrejistas da própria mente, dizer que foi algum parente falecido, e dizer que consolou as pessoas depois que as expôs ao alarde da imprensa sensacionalista? E, a propósito, Uberaba virou uma grande cidade? O Brasil virou uma grande potência?

Não. Chico Xavier NADA ajudou. O que ele fez foi formar seu rebanho através de clichês católicos que foram travestidos de "espíritas" para que, assim, o igrejismo e os valores moralistas possam ter um aparato ecumênico, que possa ser aceito não só pelos católicos, mas até pelos "ateus, Graças a Deus" que atuam nas mídias sociais.

E quem garante que Chico Xavier também não vivia de conforto? A exemplo de Madre Teresa, ele também cortejava aristocratas, apoiou políticos - inclusive o corrupto Fernando Collor! - e, se ele parecia não tocar em dinheiro, os outros financiavam seu conforto. Até porque, como Madre Teresa, Chico Xavier, como defensor da Teologia do Sofrimento, acreditava no princípio de "não confortar os aflitos e não afligir os confortáveis".

Quem garante que Chico Xavier não ganhou alguma coisa? Alguém tem o recibo de que ele estava isento de qualquer remuneração? Alguém tem? Não é provável que tenha. E o comércio de livros "espíritas" alimentado por ele e autores similares, que multiplicaram uma indústria de romances igrejistas e livros que envergonhariam Allan Kardec com tantos desvios doutrinários, nem de longe pode ser considerado caridade.

Pelo contrário. Os livros, que na verdade incluem novelas ruins travestidas de romances "espíritas" e livros de auto-ajuda disfarçados de "obras doutrinárias", rendem muito dinheiro, promovem sensacionalismo e misticismo religioso extremo e trazem lucro para os dirigentes do "movimento espírita", que muito provavelmente é repassado de uma forma ou de outra para seus ídolos, mesmo os que praticamente "não tocam em dinheiro".

Chico Xavier e Divaldo Franco não tocavam em dinheiro, mas tinham o conforto de aristocratas. Ganhavam viagens, eram sustentados pelas elites, eram apoiados até pelos empresários dos meios de Comunicação mais reacionários, os chamados "barões da mídia". E quando a aristocracia e as elites mais reacionárias veem esses ídolos religiosos com carinho, é bom desconfiar.

Voltando ao cachê, não é a recusa de receber dinheiro por algum faturamento que fará uma pessoa caridosa. Há muitas vaidades que continuam firmes mesmo com a recusa de cachê para certos eventos. O simples fato de recusar ganhar dinheiro por alguma coisa não é motivo de generosidade por si. Não se ajuda alguém pelo não recebimento de dinheiro em si.

Não é a recusa de cachê que traz generosidade. É o espírito de generosidade que, diante da possibilidade de ganhar dinheiro, renuncia a algum faturamento visando ajudar alguém. O que não é o caso de Chico Xavier, que, pregando que os sofredores deveriam suportar suas desgraças sem reclamar e sem sequer expressar seus sofrimentos a outrem - para não "afligir os confortáveis" - seria a última pessoa que poderia ajudar de maneira transformadora e revolucionária.

Tudo o que Chico Xavier fez de "caridade" foram apenas coisas paliativas, do nível de pequenas esmolas, gentilezas aqui e ali e alguma simpatia, entre outras coisas amenas. Mas nada que transformassem vidas, porque, se houvesse, veríamos o resultado. 

Só que o Brasil vai cada vez pior, e não é por falta de atenção a Chico Xavier, mas com certeza pelo excesso dela. Ouviu-se demais o "médium" adepto da Teologia do Sofrimento e é por isso que o Brasil afundou demais no "sofrimento em silêncio" e na "desgraça sem queixumes".

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