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Globo e Abril estão blindando "movimento espírita"

(Autor: Professor Caviar)

O "espiritismo" brasileiro é, oficialmente, descrito como uma doutrina de vanguarda, um movimento filosófico-científico, um ativismo progressista que envolve ecumenismo religioso e outras atribuições positivas. Todavia, sua prática revela o contrário de todas essas atribuições, se revelando apenas uma forma requentada do Catolicismo medieval português, acolhendo dissidências que não aceitavam as reformas adotadas pela Igreja Católica brasileira a partir dos primórdios da República.

Todo o mito de "vanguardismo" e "progressismo" foi trazido pelo discurso demagógico da tendência dúbia que dominou o "movimento espírita" até recentemente. Hoje se observa uma transição gradual, quando a fase dúbia - que combinava uma pretensa volta às bases kardecianas e a manutenção do igrejismo herdado de Jean-Baptiste Roustaing - , vigente há quatro décadas após o fim da Era Wantuil, está cedendo espaço ao neo-roustanguismo, do qual se falará depois.

O pano de fundo conservador do "espiritismo" brasileiro sempre existiu, e isso por causa da opção de acolher um paranormal católico, de ideias ortodoxas, chamado Francisco Cândido Xavier, como ídolo máximo da doutrina brasileira.

Sabe-se que as ideias trazidas por Chico Xavier - no fundo, um beato adorador de imagens de santos, rezador de terços e moralista retrógrado, como quase todo caipira nascido no interior, sobretudo nos tempos da República Velha, das cidades rurais saudosas do Segundo Império e de tradições oriundas do período colonial - são extremamente conservadoras, embora, na boa-fé da sua pretensa filantropia, setores das esquerdas e até ateus tivessem sido cooptados para adorar o "médium" mineiro.

Mas o mito "filantrópico" de Chico Xavier e todos aqueles atributos, vários deles bastante piegas, ligados à sua aparente "bondade", foram construídos por engenhosa campanha midiática, que se esforçou para caprichar na produção de consenso, que procure atingir até mesmo pessoas que pareçam divergentes com a obra e o pensamento do suposto médium brasileiro.

PADRÃO GLOBO DE CONVENCIMENTO

O mito de Chico Xavier era trabalhado desde o começo pela FEB, partindo da habilidade tendenciosa do seu mentor terreno, Antônio Wantuil de Freitas. É até estranho que Chico Xavier seja santificado, enquanto Wantuil, que contribuiu para o crescimento de popularidade do "médium", nem é considerado algo próximo de "iluminado". Se ao menos os chiquistas publicassem frases de Wantuil e atribuíssem a ele "maravilhosas lições de amor", ficaria mais verossímil.

Mas o mito de Chico Xavier sempre foi atropelado por escândalos diversos. A FEB explorava sua imagem sob um apelo mais sensacionalista e, diante de tantas irregularidades - como a realização de pastiches literários, já que as obras "psicográficas" apresentavam problemas sérios de identificação com os aspectos pessoais dos mortos que lhe eram atribuídas tais mensagens - , causava conflitos severos com críticos literários, espíritas autênticos e outros setores da sociedade.

Só depois, na década de 1970, com o fim da Era Wantuil e com as desavenças entre a cúpula da FEB e o "movimento espírita", que criou uma dissidência que dava mais voz e poder de decisão às federações regionais, que se deu a fase dúbia que mesclou uma fingida volta às bases kardecianas e o igrejismo entusiasmado herdado do roustanguismo.

Com isso, vieram vários fatores. A falência da TV Tupi, emissora de televisão que blindava o mito de Chico Xavier, era um deles. Outros foram a crise da ditadura militar que gerou vários casos de convulsões sociais, e a ascensão dos chamados "pastores eletrônicos", como Edir Macedo e R. R. Soares. Com a Rede Globo no auge, a FEB sepultou a antiga animosidade e iniciou um casamento feliz com a mídia dos irmãos Marinho.

É certo que o "movimento espírita" também recorreu a outras mídias solidárias, como Band, SBT e Abril, além de, mais recentemente, canais comunitários da TV por assinatura. Mas essas mídias se comportam, na essência, como se fossem satélites do "planeta Globo", porque a formatação do mito de Chico Xavier era feita pela corporação da família Marinho, e depois distribuída às mídias "concorrentes" que fossem solidárias aos interesses "globais".

O mito de Chico Xavier foi desenvolvido sob os moldes do documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), lançado em 1969 pelo jornalista católico inglês Malcolm Muggeridge e dedicado à Madre Teresa de Calcutá. Foi esse documentário que criou os paradigmas marqueteiros de "bondade" e "amor ao próximo" que se fixaram no inconsciente coletivo das pessoas: uma "bondade" que mais fascina do que realiza, uma espécie de "conto de fadas" da vida real feita para o público adulto.

E aí Chico Xavier reproduziu fielmente o roteiro de Muggeridge, ajudado pelos noticiários da Globo (Globo Repórter e Fantástico sobretudo, em várias edições): chega a uma "casa de caridade" acolhido pela multidão, acolhe miseráveis e pobres, deitados ou tomando sopa, carrega bebê no colo e lança frases de efeito, com um conteúdo moralista, nos depoimentos à imprensa.

Tudo combinado. E tudo tão engenhoso que o mito de Chico Xavier era trabalhado para que a mão da mídia se tornasse invisível. Ninguém notaria a manipulação midiática, o apelo publicitário, o sensacionalismo que um ídolo religioso traria para as pessoas. Mas a manipulação mostrava seu lado traiçoeiro, provocando o deslumbramento extremo, a paixão religiosa, o êxtase da devoção, a cegueira da fé, e a ideia de uma "bondade" como um subproduto da religião.

A Globo trabalhou Chico Xavier como trabalharia com o mito político de Fernando Collor, com o "funk carioca" e até mesmo com gírias como "balada" (que especialistas definem como fruto de um consórcio manipulador entre Jovem Pan e Globo, sob a colaboração de Luciano Huck). Manipular o inconsciente coletivo de tal forma que essa manipulação não seria percebida.

É como num espetáculo de hipnose. O hipnotizador induz a pessoa a fazer alguma coisa ridícula. Com a força da mente do hipnotizador, a pessoa resolve atender ao seu apelo. Mas o hipnotizador determina que a pessoa não deva se sentir hipnotizada e seja levada a crer que sua atitude ocorreu de maneira espontânea e até mesmo audaciosa e inovadora.

É assim que age a Globo. Ela penetra no inconsciente das pessoas de forma que elas não tenham condição de perceberem que estão sendo manipuladas. Elas pensam que os valores que assimilam da máquina manipuladora da Globo são produzidos espontaneamente por essas mesmas pessoas, como se esses valores não tivessem um vínculo midiático a uma empresa poderosa e rica, mas viessem do cotidiano comum da gente simples.

Paciência, a Globo tem psicólogos e publicitários. O discurso que se deu no "funk", por exemplo, levou as pessoas a ter dificuldade para perceber que o grotesco ritmo carioca era um subproduto "global". Chegavam a evitar ler textos que mostravam essa associação, que lhes soava desagradável ante a ideia falaciosa de que eram induzidos a acreditar, de que o "funk" era um "movimento libertário das populações pobres".

A Globo empurrou Chico Xavier até a setores de esquerda e do ateísmo religioso, em que pese o "médium" ser um deísta extremado. Tudo porque criou um repertório ideológico tão engenhoso e atraente que as pessoas aceitavam qualquer absurdo, qualquer fraude relacionada ao "médium" sob a desculpa de paradigmas aparentemente ligados ao "amor" e à "bondade".

A blindagem da Globo não apenas a Chico Xavier mas a Divaldo Franco ou mesmo ao curandeiro João de Deus, revela o desejo da corporação midiática em criar ídolos religiosos para distrair a população no entretenimento da fé e da mistificação, como equivalentes aos "contos de fadas" e ao "mundo da fantasia" infantis, traduzidos para o mundo adulto, pretensamente "racional".

A Globo procura endeusá-los, e outras mídias solidárias também. Mas há casos como a Abril que criam simulacros de polêmicas, como nas coberturas sobre Chico Xavier na Superinteressante e na recente reportagem de Veja sobre João de Deus. Mas esses simulacros sempre terminam no mesmo endeusamento que a Globo serve diretamente.

E isso mostra o quanto a mídia conservadora, expressão de uma sociedade moralista, é capaz de criar ídolos religiosos que façam envolver a população num ritual de paixões terrenas a serviço da fé e do fanatismo, de maneira bastante sutil e que tente atribuir o ativismo não à ação espontânea dos povos pela qualidade de vida, mas a uma forma deturpada de mobilização social, restrita à caridade paliativa (que pouco ajuda) e mantendo um sistema de valores desiguais e servis aos donos do poder.

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