"Espiritismo" e a colaboração da mídia

(Autor: Professor Caviar)

O "movimento espírita" teve a ajuda da televisão para desenhar seu conteúdo ideológico, marcado por uma abordagem igrejeira e uma pregação moralista bem conservadora.

A televisão desenhou o "espiritismo" igrejista que conhecemos, fazendo com que seu conteúdo se tornasse mais digestível. Não por acaso, o crescimento do "movimento espírita" se deu depois que a TV Tupi passou a falar em "espiritismo" e criar novelas "espíritas". Várias celebridades da casa se tornaram "espíritas": Augusto César Vannucci, Ana Rosa, Nair Bello, o casal Paulo Goulart e Nicette Bruno.

Até isso ocorrer, o "espiritismo" era visto como um fenômeno bizarro que trazia muita polêmica pela interferência que Francisco Cândido Xavier fez sobre o prestígio de escritores mortos, inventando que estaria publicando mensagens espirituais dos mesmos, mas que claramente destoam de seus estilos.

Vale deixar claro que nenhum escritor atestou autenticidade nas obras "espirituais" trazidas por Chico Xavier. Nenhum. Nem Monteiro Lobato, Apparicio Torelly (o Barão de Itararé), Agrippino Grieco e R. Magalhães Júnior. Podia haver até uma simpatia pela pessoa de Chico Xavier, que parecia aquele estereótipo do "bom caipira", mas ninguém se atreveu a dizer que as "psicografias" que levavam nomes de escritores mortos eram "autênticas". A FEB, tendenciosa, tentou alegar que sim, ignorando que existe uma diferença entre afirmar e se abster de qualquer avaliação.

Humberto de Campos Filho e Hebe Camargo
Ainda se investigará a influência da televisão como forma de fabricar uma abordagem do "espiritismo" brasileiro, principalmente quando vemos que a grande mídia é controlada por oligarquias conservadoras, cuja orientação religiosa original se fundamentou no Catolicismo.

Se antes da televisão o "espiritismo" era um "movimento de cúpula", aos poucos amenizado pela influência do rádio - também controlado pelas mesmas elites midiáticas - , depois dela a doutrina igrejista brasileira cresceu e ganhou apoio de famosos além de se propagar através de narrativas novelescas trazidas pela dramaturgia.

Dai que o "espiritismo" brasileiro pôde assim difundir seu igrejismo através da "aula prática" das obras "espíritas": estórias que falam de sofrimentos, vidas passadas, conflitos, perdas e arrependimentos, tragédias com "final feliz" nos quais as pessoas, unidas pelo "espiritismo cristão", se dão as mãos e se alegram num ambiente de "paz e esperança", seja na Terra ou no mundo espiritual, "desenhado" como uma paisagem de nuvens ou como um bosque, com direito a crianças brincando e tudo.

A televisão deu "imagem" e criou uma "memória afetiva" ao construir uma narrativa dramática "espírita", distante de Allan Kardec mas declaradamente "kardecista" - termo que se tornou, por isso, pejorativo para quem quer recuperar as bases da Doutrina Espírita - , além de desenvolver o mito de Chico Xavier de maneira mais sentimentalista.

A TV Tupi criou um lobby no qual o produtor de TV Humberto de Campos Filho, filho do homônimo escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, foi persuadido a aceitar Chico Xavier por causa de colegas atores, produtores e diretores. Cético, Humberto foi com amigos ver uma doutrinária de Chico Xavier, que ainda mostrou atividades de "caridade paliativa" - "filantropia" que mais deslumbra do que ajuda - para arrancar o apoio do filho do escritor, já aliciado pelas cartas que o "médium" inventava usando o nome do pai do jornalista e produtor.

É evidente, porém, que o "espiritismo", como doutrina marcada pela desonestidade doutrinária, também traz más energias, e a TV Tupi, primeira parceira da FEB na difusão desta doutrina igrejeira, acabou falindo, no final da década de 1970, com grande protesto de funcionários demitidos ou com salários atrasados que repercutiu muito na época.

Mas a essas alturas a FEB estabeleceu parceria com a Rede Globo, exercida até hoje, motivada por duas novidades: a ascensão das seitas neopentecostais derivadas da Igreja Nova Vida e o documentário inglês Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de Malcolm Muggeridge, sobre Madre Teresa de Calcutá, lançado em 1969.

No primeiro caso, nota-se a ascensão de pastores eletrônicos como R. R. Soares e Edir Macedo, que causava preocupação para a supremacia católica e para o poder midiático da Globo. E isso se deu nos anos 1970. Mais tarde, Edir adquiriu todo o espólio da Record. A Globo queria competir religiosamente, mas não poderia ser de forma escancarada, com ídolos de batina, mas com ídolos religiosos que pudessem ter um suposto apelo ecumênico, como Chico Xavier e, mais tarde, Divaldo Franco.

No segundo caso, observa-se que o mito de Chico Xavier seria reciclado e reestruturado. O mito de pretenso filantropo, aos moldes de Madre Teresa de Calcutá, reconstituiu em Chico Xavier, e de forma bastante minuciosa, os mesmos apelos que Malcolm Muggeridge, jornalista católico, trabalhou sobre Madre Teresa, fabricando consenso em torno de uma concepção de "bondade" que traz mais encantos e lágrimas nas plateias do que realmente alguma ajuda, na verdade bem inferior e muito mais medíocre do que a comovente propaganda alardeia.

Ainda havia a ditadura militar e os riscos de convulsões sociais que poderiam derrubar as elites políticas, empresariais, econômicas e jurídicas, ou seja, a chamada "plutocracia", já que o governo dos generais estava em séria crise, com a inflação crescendo de maneira descontrolada. Tinha que haver um ídolo religioso que domesticasse as almas apreensivas com seu ideário conservador temperado com palavras bonitas.

E aí vemos programas como Globo Repórter, Jornal Nacional e Fantástico reproduzindo fielmente a cartilha de Muggeridge, que deveria ser considerado "santo" pelos seguidores de Chico Xavier, juntamente com Roberto Marinho e Antônio Wantuil de Freitas. Afinal, estes dois últimos foram os mentores terrenos do "médium" e o jornalista inglês, um propagandista improvisado. E tudo isso adaptado perfeitamente sob uma concepção igrejeira de "mediunidade" que acostumou mal os brasileiros.

Isso mostra o quanto o mito de Chico Xavier e similares - como Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus - é construído pela mídia de forma engenhosa que faz as pessoas pensarem que tudo é espontâneo e natural. Nada disso. Tudo é marketing, o que mostra o quanto o "espiritismo" deturpado obteve popularidade e blindagem social com a ajuda decidida dos barões da grande mídia, como Assis Chateaubriand e Roberto Marinho.

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