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Humberto de Campos Filho: vítima de assédio religioso?

(Autor: Professor Caviar)

A sordidez humana tem de suas sutilezas e, no Brasil, muitas delas são novidade para muitos cidadãos. As paixões religiosas, que atrofiam a razão e transformam a devoção da fé num perigoso sentimento, como se a idolatria religiosa fosse tomada de sensualismo e morbidez, além de um estranho e sombrio fanatismo, fazem com que certas armadilhas fossem difíceis de serem identificadas, investigadas e combatidas.

O caso do filho de Humberto de Campos, o produtor de TV Humberto de Campos Filho, que foi seduzido por Francisco Cândido Xavier numa "emboscada do bem" que foi o convite para uma doutrinária no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba, e uma ostensiva caravana pelas áreas pobres do município, em 1957, revela que o rapaz foi vítima de um perigoso assédio religioso.

Quem estuda as técnicas de manipulação da mente sabe que há processos muito sutis que passam despercebidos para muitos usuários. O "bombardeio de amor", em inglês love bombing, é uma das armadilhas traiçoeiras que, no Brasil, quase nunca são vistas nesta perigosa condição. Pelo contrário, o "bombardeio de amor" é sempre confundido como um sentimento de fraternidade e familiaridade, sem que as pessoas se dessem conta da estranha situação de gente estranha lhes acolher com uma afeição familiar exagerada. Infelizmente, o termo "bom demais para ser verdade" não serve para certas situações.

Sabe-se do processo que os herdeiros de Humberto de Campos moveram contra Chico Xavier e a FEB (na pessoa do presidente Antônio Wantuil de Freitas, que co-escreveu com Chico e com redatores da revista Reformador, periódico da federação, os livros "assinados" pelo suposto espírito do escritor maranhense). O processo deu em impunidade, porque a seletividade da Justiça sempre inocenta os privilegiados de toda espécie, seja do dinheiro, da política, da fama, da religião.

Poucos conseguem ver nos ídolos religiosos pessoas privilegiadas, apesar da pose de humildes que os faz pretensos representantes da pobreza e da simplicidade humana. A pretensão pessoal de um ídolo religioso de se afirmar "próximo de Deus" já é um privilégio e, no caso de uma religião conservadora que se tornou o "espiritismo" brasileiro, apresenta caraterísticas que podem colocar os "espíritas" na chamada plutocracia, o grupo de privilegiados que conquistou o poder com a derrubada do governo Dilma Rousseff.

A seletividade da Justiça fez de Chico Xavier um equivalente religioso do que hoje temos em Aécio Neves na política. Todo esforço de blindagem, sobretudo dos meios de comunicação - que manipulam o inconsciente coletivo para adorar e hostilizar determinadas personalidades - , foram feitos para proteger Chico, que na verdade teria sido um oportunista, um católico ortodoxo de relativa paranormalidade que se transformou no maior e pior deturpador da Doutrina Espírita em toda sua história.

Oficialmente, Chico Xavier passou uma imagem de vítima do "mercenarismo" dos familiares de Humberto, movidos pela "ira intolerante" dos críticos literários irritados com as irregulares "psicografias" que evocaram nomes de ilustres personagens literários. Diante dessa interpretação oficial e ainda dominante na sociedade, Chico teria sido "perdoado" por Humberto de Campos Filho e este se comovido com a "energia de bondade" do "médium".

Essa visão é muito agradável, mas aponta falhas profundas, pois sabemos que os críticos literários é que têm razão nas irregularidades "mediúnicas". Num passado mais recente, o jornalista de Realidade - na qual trabalhou o filho do pensador espírita Deolindo Amorim, o jornalista Paulo Henrique Amorim - , Léo Gilson Ribeiro fez uma crítica irônica dos trabalhos "psicográficos": "o espírito sobe, o talento desce". Nenhuma alegação de "trabalho do bem" pode desfazer tais problemas.

Pode parecer duro para muitos brasileiros, mas desqualificar as "psicografias" se baseia em critérios já divulgados pela obra nem sempre digerível de Allan Kardec, O Livro dos Médiuns. Nele as mensagens enviadas pelo espírito do discípulo de Paulo de Tarso (o São Paulo dos católicos), Erasto, revelam ideias que desmontam a imagem glamourizada dos "médiuns".

Numa delas, o conselho de Erasto se torna urgente e explícito: "Certamente eles podem dizer e dizem às vezes boas coisas, mas é precisamente nesse caso que é preciso submetê-las a um exame severo e escrupuloso. Porque, no meio das boas coisas, certos Espíritos hipócritas insinuam com habilidade e calculada perfídia fatos imaginados, asserções mentirosas, como fim de enganar os ouvintes de boa fé".

Dito isso, sabe-se que os herdeiros de Humberto de Campos, ao saberem do empate jurídico do julgamento de 1944 - em que a Justiça, movida por sua seletividade, evitou a punição de um ídolo religioso, mesmo com possibilidades grandes de provar as fraudes nas supostas obras mediúnicas - , recorreram da sentença e ameaçaram entrar com uma nova batalha judicial, algo que moveu a esperteza do "médium", que resolveu armar uma cilada para Humberto, sabendo-se que este, por influência de muitos atores e diretores da TV Tupi, tornou-se "espírita".

Com um espetáculo combinando ações de Assistencialismo (caridade de resultados medíocres que mais serve para a promoção pessoal do "benfeitor") e "bombardeio de amor" - uma forma perigosa de Argumentum Ad Passiones, tipo de falácia que se refere a todo apelo discursivo que estimula a emoção - , Chico Xavier recebeu Humberto de Campos Filho no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba, para uma doutrinária e, depois, o convidou para uma caravana.

Esperto, Chico acolheu Humberto Filho, no final da doutrinária, com um abraço e palavras envolventes. Humberto Filho acabou chorando copiosamente, diante da forma com que o "médium" manipulou sua mente, através de um tom de fala manso mas hipnótico e, depois, um falsete que deixou a vítima transtornada, supondo ser o espírito do pai, falecido anos antes. Humberto Filho foi tão seduzido que passou a defender o usurpador de seu pai, iludido com a suposta filantropia do "médium", e acabou culpando a mãe, Dona Catarina Vergolina de Campos, a "dona Paquita", pela iniciativa de processar Chico Xavier.

Poucos conseguem ver em Chico um habilidoso manipulador de mentes. Uma foto de 1935 publicada em O Globo mostra o "médium", tão associado com "energias elevadas", com um semblante diabólico. Se o "médium" tinha uma grande habilidade, ela certamente foi a manipulação do discurso, a capacidade de seduzir e influenciar as pessoas pelos recursos de manipulação da mente humana. Ele ainda aproveitou as circunstâncias a seu favor e, de um mero plagiador de obras literárias (não sem a colaboração de uma multidão de terceiros, como Wantuil e a equipe de Reformador), passou a ser promovido a semi-deus, com uma ajudinha mais recente das Organizações Globo.

Com isso, podemos concluir que Humberto de Campos Filho foi vítima de assédio religioso, tão ruim quanto o assédio sexual e o assédio moral. Foi uma forma de evitar que os herdeiros de Humberto de Campos continuassem com suas petições judiciais. Chico aproveitou que a mãe de Humberto Filho e viúva do autor maranhense havia falecido para seduzir o rapaz, evitando que o processo fosse movido por gerações posteriores do escritor. Enganando os mais jovens, Chico garantiria a blindagem absoluta e conseguiria a divinização fácil. Diante de um Brasil pouco esclarecido, foi fácil para um deturpador do Espiritismo vencer todas. Infelizmente.

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