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Descascando o mito Chico Xavier

(Autor: Kardec McGuiver)

Quando se fala em Francisco Cândido Xavier ou Chico Xavier, a própria pronuncia do seu nome deixa os admiradores em alerta canino, prontos a sair em defesa apaixonada e irracional. 

Isso se dá porque para elas, Chico Xavier não é um homem. Nem mesmo uma simples liderança religiosa. Ele é muito mais do que isto: Um sobre-humano colecionador de qualidades. Um semi-deus, senão o próprio "Deus" reencarnado. Pelo menos o histérico fanatismo observado nas defesas feitas pelos admiradores do médium chegam a sugerir isto.

Na verdade, o mito foi construído pela FEB porque ela viu no beato de Pedro Leopoldo uma isca perfeita para atrair fieis à igreja que se construiu em cima daquilo que deveria ser o "Espiritismo". Qualidades vinham sendo embutidas no médium para forjar perfeição e transformá-lo numa espécie de guru a consolar mentes carentes . A FEB sabe que quanto mais perfeito for o mito, mas influente e atraente ele será.

Na verdade, para desconstruir o mito é preciso entender como ele surgiu. Vai ser doloroso para os fanáticos admiradores do médium, que por acreditar em sua perfeição, jogam nele a responsabilidade de resolver todos os problemas do país, que de fato nunca foram resolvidos.

Beato a procura de uma igreja


Chico Xavier de início, era nada mais, nada menos que um beato católico que tinha supostos poderes paranormais. Por causa deles, foi excomungado (expulso) de sua igreja (paróquia de Pedro Leopoldo) e isso o magoou muito, pois era beato fanático e queria se dedicar apenas para a religiosidade. Outros hobbies e atividades além disso de fato não lhe interessavam.


Mas a mesma suposta paranormalidade que o tirou de uma igreja, o colocou em outra igreja. Foi imediatamente adotado pela FEB, que deturpou a Doutrina Espírita, moldando-a para ficar muito parecida com o Catolicismo do início do século XX, ainda contaminado por equívocos medievais. Ou seja, era um Catolicismo medieval sem batina, sem ouro e que acreditava em reencarnação.

Vendo que neste "Espiritismo" nenhum dos dogmas em que acreditava era refutado, Xavier se sentiu em casa e sua suposta paranormalidade foi explorada para "fazer caridade". Era o início do mito Chico Xavier.

Como seu trabalho atraia muita gente, começou a se construir um mito em torno dele, transformando-o em principal garoto propaganda da igreja que se começava a construir. Para reforçar o mito, muitas suposições foram feitas, inclusive a de que ele seria o "Allan Kardec" que retornou. Algo que os próprios livros da codificação comprovam ser impossível, já que Xavier e Kardec discordavam de quase tudo, com a razão sendo dada para o francês, mais racional e objetivo.

Mas as ideias de Kardec eram difíceis de serem assimiladas. O codificador, que nunca foi interessante para a FEB, que preferia o igrejismo de Roustaing, foi descartado como teórico, mas permaneceu no "Espiritismo" apenas como objeto de culto bajulador.

Chico Xavier, o Roustaing brasileiro

As ideias de Roustaing eram mais aceitáveis, até por na romper com o Catolicismo. Mas como Roustaing não tinha aparência conhecida e não fornecia algo que pudesse fazê-lo ser carismático, algo precisava ser feito. Aí entram os livros de Chico Xavier, o homem que abrasileirou o Roustainguismo.

Graças a Xavier, Roustaing deixou de ser necessário. Xavier traduziu a ideia de Roustaing em suas obras "psicografadas" (pus aspas pois há controvérsias em relação a isso que merecem verificação aprofundada - se a doutrina for científica, esta verificação será muito bem vinda). Graças a isso, mais um aspecto foi acrescido ao mito de Xavier: de teórico doutrinário.

Obviamente que as ideias de Xavier iam contra a codificação, embora a FEB e lideranças afins explorassem a credulidade cega de seus seguidores para forjar uma afinidade ideológica entre Xavier e Kardec. Mas não dá para esperar de um beato católico que só queria rezar e falar com a sua mãezinha, as mesmas ideias de um pedagogo consagrado, acostumado a pesquisar objetivamente.

A associação forçada entre Xavier e Kardec, que para os mais lunáticos eram a mesma pessoa, se deu porque Kardec, mesmo lançando ideias complicadas para quem prefere o igrejismo, tinha um certo carisma e a recusa dos "espíritas" brasileiros em mudar de rótulo, necessitava dessa associação para legitimar a gororoba doutrinária em que se tornou o "Espiritismo" brasileiro.

Bola de neve crescendo sem parar

Parece que para as lideranças "espíritas" atribuir qualidades a Xavier virou um hobby. Como a doutrina brasileira e altamente especulativa (construída através de suposições, boatos e lendas difundidas em palestras em centros e livros de conteúdo duvidoso), cada um se acha no direito de lançar as suas teses, não raramente contraditórias. 

Por exemplo, há, dentro da doutrina brasileira, quem aprove e quem reprove a tolice do "Data Limite", onde um sonho banal tido por Xavier, de conteúdo sem pé nem cabeça, foi tratado como profecia, rendendo uma avalanche de palestras e documentários na tentativa fútil de legitimá-la.

Essas lideranças foram inventando e inventando qualidades ao médium a ponto de consagrá-lo como "espírito mais perfeito da face da Terra". Ou seja, Xavier era um espírito "puro". Até inventou-se uma estória de como ele foi recebido no mundo espiritual, com uma lenda que parece conto de fadas tipicamente igrejeiro. 

Depois de Jesus, Xavier foi o primeiro humano a "encerrar a sua reencarnação", coisa que vai contra a teoria lançada pela codificação, que garante que todos os encarnados na Terra (pertencentes a mesma ordem inferior, com variação de subníveis) irão reencarnar, mesmo que seja em outro planeta.

E hoje o estrago foi feito. Com a falsa reputação crescendo feito bola de neve, a poderosa influência de Chico Xavier segue praticamente indestrutível. Consagrado pela opinião pública, o mito de Xavier não consegue ser derrubado, já que a pouca repercussão para as contestações mais sensatas as transforma em teorias conspiratórias. 

Como se Xavier fosse de fato um semideus para a opinião pública e por isso deve ser aceito sem contestação. E o país segue obediente a um falso mito que não conseguiu melhorar o intelecto e a moral de seus admiradores e muito menos resolver os problemas da sociedade brasileira que o considera guardião máximo.

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