"Bondade" de Chico Xavier foi mito criado pela Rede Globo para competir com Igreja Universal

(Autor: Equipe Dossiê Espírita)

A Igreja Universal do Reino de Deus completa 40 anos e isso tem muito a ver com os rumos que o "espiritismo" brasileiro haviam tomado com uma pequena ajudinha da grande mídia. Sem mais a ação marqueteira de Antônio Wantuil de Freitas, o ex-presidente da Federação "Espírita" Brasileira que faleceu em 1974, outra estratégia tinha que ser feita.

Não se podia mais assumir o roustanguismo, apesar da evidente herança das ideias do advogado de Bordéus, pioneiro deturpador do Espiritismo, deixou na doutrina igrejeira brasileira. Tinha que haver uma postura contraditória e confusa, porém bastante agradável, que pudesse trazer às federações regionais uma autonomia e uma reputação iguais ou superiores às da direção nacional.

Morto Wantuil, seus herdeiros tiveram desavenças com os herdeiros do falecido, e houve também escândalos nos quais os espíritas autênticos saíram denunciando aqui e ali. Daí que se construiu a "fase dúbia" do "movimento espírita", na qual, para agradar os espíritas "científicos", uma boa parcela de roustanguistas, se distanciando do "alto clero" da FEB, fingiu se comprometer com a recuperação das bases kardecianas.

Daí o nome "kardecismo", que define a "fase dúbia". A ênfase no rótulo "kardecista" é tendenciosa e falsa, fundamentada no neologismo "kardequizar", uma corruptela da pedagogia católica do verbo "catequizar" (referente ao que os jesuítas fizeram com índios, negros e mestiços no período colonial), tanto que o espírita autêntico prefere ser considerado "kardeciano" e não "kardecista".

A FEB apenas era considerada como instituição, sem que seus dirigentes pudessem ter o poder, a projeção e a reputação comparáveis aos de Wantuil. O destaque era dado mais aos "médiuns", Francisco Cândido Xavier e o então emergente Divaldo Franco, que passariam a ser os "sacerdotes" desse roustanguismo enrustido, dissimulado através da tendenciosa apreciação da teoria espírita original e das bajulações feitas a Allan Kardec.

E aí entra o caso da Igreja Universal do Reino de Deus. O movimento neopentecostal, dissidente da Igreja Nova Vida, estava crescendo com os pastores eletrônicos - que usam a televisão para fazer pregações - R. R. Soares e Edir Macedo. O "missionário" R. R. (Romildo Ribeiro) fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus, mas foi seu cunhado e ex-assistente Edir que arrancou na dianteira.

A IURD já se revelava um projeto ambicioso e isso preocupava a Rede Globo de Televisão, emissora das Organizações Globo que estava em ascensão vertiginosa por causa da ditadura militar e que precisava exercer uma influência totalitária na formação de comportamentos e modos de vida da população brasileira. Se existe mídia hegemônica, a Rede Globo é o poder dessa mídia levado às últimas consequências.

FEB e Globo, pensando em expandir seus poderes, desfizeram a antiga animosidade e passaram a se tornar parceiras, criando um casamento feliz que dura até hoje. E precisavam reagir à ascensão de R. R. e, sobretudo, Edir, que pareciam, na época (idos de 1977-1978), criar um complexo midiático próprio. 

O resultado veio mais tarde. No começo da década de 1990, Edir Macedo tornou-se dono de todo o espólio da Record, grupo midiático cujo núcleo central é a TV Record de São Paulo, a mais antiga emissora de televisão em atividade no Brasil.

Mesmo assim, já no final da década de 1970 a Globo precisava criar um ídolo religioso para fazer frente aos pastores eletrônicos, um "católico sem batina" que fosse "digerível" para o maior número de extratos sociais, com penetração até mesmo em ateus e esquerdistas, que em parte são também manipulados pela engenhosa máquina hipnótica da programação "global".

A "AJUDINHA" DO INGLÊS MALCOLM MUGGERIDGE

E foi aí que entrou Chico Xavier, pioneiro deturpador do Espiritismo no Brasil e antigo pupilo de Wantuil de Freitas. O "médium" mineiro já tinha um mito tendencioso, mas ele causava uma grande confusão por causa dos apelos sensacionalistas referentes à apropriação de nomes de escritores mortos ou de supostas práticas como a materialização de espíritos. Tais confusões chegaram a colocar o "médium" no banco dos réus, em 1944.

O mito tinha que ser relançado de maneira mais "limpa", embora o apelo das "cartas" atribuídas a parentes mortos também fosse um perigoso sensacionalismo. Em todo caso, para respaldar essa prática um tanto duvidosa, que expõe de maneira pitoresca as tragédias familiares, tinha que haver um discurso clean, que vendesse a imagem de Chico Xavier como um pretenso filantropo.

Esse discurso buscou inspiração no documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), que o jornalista e ativista católico, o inglês Malcolm Muggeridge (1903-1990), fez para construir o mito de Madre Teresa de Calcutá, transformando-a num pretenso símbolo de "caridade plena". Esta imagem de Madre Teresa permanece, apesar de revelações recentes apontarem que ela deixava os miseráveis que aparentemente socorria em condições sub-humanas.

O roteiro de "caridade" envolvia uma narrativa "limpa" que produzia um apoio unânime de uma sociedade conservadora e beata, como é em boa parte o Ocidente e, principalmente, em todo o Brasil. A narrativa do "filantropo" segurando bebê no colo e oferecendo sopas para os pobres virou um paradigma de "caridade" bastante conservador, mas defendido com unhas e dentes pela mesma sociedade que se enfurece com governos de esquerda que propõem a inclusão social.

Isso porque a "caridade" religiosa é uma "ajuda ao próximo" que, em que pese os discursos de "transformação" e "promoção de qualidade de vida", só realiza ajudas pontuais, de resultados sociais ínfimos. 

Ajuda-se os pobres sem mexer nas estruturas de desigualdades sociais, ou seja, sem ameaçar os privilégios dos ricos. Conservadora, a sociedade prefere uma caridade "modesta" que não mexe nos tesouros dos ricos do que governos do PT, por exemplo, que ampliam oportunidades para o povo pobre com medidas que atingem privilégios elitistas "sagrados".

Por isso faz muito sentido ver que a Rede Globo passou a gostar, e muito, de Chico Xavier e da figura do "médium" transformada em uma aberração surreal no Brasil, perdendo a função intermediária para ser o "centro das atenções", praticando o "culto à personalidade" e inspirando nos seus seguidores a "fascinação" e a "subjugação" que Kardec considerava tipos perigosos de obsessão espiritual.

Chico Xavier foi então remodelado rigorosamente com as mesmas receitas que promoveram Madre Teresa de Calcutá. É curioso até que os "espíritas" brasileiros, que adotaram Madre Teresa como se fosse um ícone de sua religião, não escondem suas comparações entre ela e o "médium" brasileiro, ambos exaltados em suas paixões religiosas.

Xavier foi ótimo, também, para o poder da Rede Globo de Televisão e um dos maiores êxitos de sua máquina manipuladora, juntamente com a vitória eleitoral de Fernando Collor de Mello, ex-presidente e atual senador, e o "funk carioca". Todos verdadeiros sucessos do discurso manipulador da Globo, capaz de influenciar até mesmo uma parcela daqueles que se dizem odiar a emissora e rejeitar seu poder.

Como o "funk carioca", Chico Xavier também tornou-se uma pretensa unanimidade pela associação "positiva" ao povo pobre. Infelizmente, o Brasil não consegue entender as armadilhas desse discurso, no qual a associação tendenciosa ao povo pobre, através de um paternalismo pretensamente "solidário", transforma qualquer explorador em "santo" ou algo parecido, pouco importando os interesses arrivistas e traiçoeiros que podem estar por trás.

No caso de Chico Xavier, ele virou um "filantropo de novela", e as pessoas que pensam compreenderem o mundo de maneira realista ao adorarem ele e outros "médiuns", como Divaldo Franco e João Teixeira de Faria, o João de Deus, na verdade estão vendo os conceitos de "bondade" e "caridade" na maneira simplória das antigas novelas transmitidas pela Rede Globo.

Diante disso, a dócil imagem dos "médiuns" transformados em "filantropos" é boa demais para ser verdade. As pessoas adoram, se sentem felizes, mas isso é uma grande ilusão. Tudo isso partiu de um engenhoso discurso, favorecido pela narrativa hegemônica da Rede Globo, para usar os supostos médiuns como "santos sem batina", "sacerdotes" feitos para concorrer com os pastores midiáticos e suas pregações espetaculares.

Nos 40 anos da Igreja Universal do Reino de Deus, pode-se também lembrar os 40 anos do mito de pretenso filantropo de Chico Xavier, um mito fundamentado no Assistencialismo (a "caridade" que ajuda pouco e promove mais o "benfeitor" de ocasião), cuja retórica permitiu consolidar a deturpação do Espiritismo ao associar os deturpadores a uma suposta imagem de "bondade" e "amor ao próximo". E tudo isso com a ajuda manipuladora da Rede Globo.

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